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Mário Ferreira Silva, 1.º Cabo
Padeiro, da CCac3387/BCac3848

Mário Ferreira Silva
1.º
Cabo Padeiro
Companhia
de Caçadores 3387 «Escorpiões»
Batalhão
de Caçadores 3848
Angola: 16Jul1971 a Set1973

Mário
Ferreira Silva, 1.º Cabo Padeiro.
Serviu Portugal na Província
Ultramarina de Angola integrado na Companhia de Caçadores 3387
«ESCORPIÕES» do Batalhão de Caçadores 3848 «EXCELENTE E VALOROSO», no
período de 16 de Julho de 1971 a Setembro de 1973.
in revista
"Domingo"
do jornal Correio da Manhã, de
1 de Setembro
de2019, e
apoio de um colaborador do
portal UTW
(Transcrição)
«O TIROTEIO ATIROU
COM TUDO E TODA A GENTE PARA O CHÃO»
Ofereci-me como voluntário para
uma operação [deslocação]
em Nambuangongo. Tive azar:
sofremos um ataque
Decorria o mês de
maio de 1971. Estava no 2.º Grupo da Companhia de
Administração Militar no Lumiar, em Lisboa, e tinha
acabado de tirar a especialidade de padeiro. Foi aí que
recebi a informação, tal como mais dois colegas da
especialidade, de que tínhamos sido mobilizados para
Angola, pelo que devíamos apresentar-nos no Regimento de
Infantaria 2, em Abrantes, na data marcada. Entregues as
guias de marcha, fomos informados de que íamos para o
Batalhão de Caçadores 3848. Coube-me a Companhia de
Caçadores 3387 e tomei conhecimento de que os meus
colegas estavam a fazer o IAO - Instrução de
Aperfeiçoamento Operacional. Recebi a ordem para me
apresentar um dia antes do embarque no navio 'Vera
Cruz', o que aconteceu a 7 de Julho de 1971.
Cheguei a Luanda a 16 de julho e a 23 partimos com
destino a Nambuangongo, onde ficou a sede do Batalhão de
Caçadores 3848. A Companhia de Caçadores 3387, a que eu
pertencia, foi até ao Quixico.
Por duas vezes ao longo da comissão naquela região tive
paludismo. Da primeira vez estive muito mal, quase às
portas da morte. Também apanhei matacanha [inseto
parasita] porque tinha a mania de andar descalço.
A base ficava numa zona operacional, mas estávamos
isoladas, a mais de 160 quilómetros da civilização. A
situação mais complicada que vivi foi quando me ofereci
como voluntário para ir numa operação
[deslocação] a
Nambuangongo. Tive azar. Para lá correu tudo bem, mas
para cá sofremos um violento ataque, com um tiroteio
assombroso, que atirou tudo e toda a gente para o chão,
tais eram as rajadas.
No meio daquela confusão toda, um colega de Lisboa ainda
teve sangue frio para brincar: "Tomem conta do padeiro,
senão amanhã não há pão!" Tivemos uma baixa. Um angolano
caiu da viatura e morreu [Jundo
Malongo]
(nota).
Ainda que não fôssemos propriamente amigos, era um
camarada de armas... deixa sempre marcas.
Camaradagem
Quando o pessoal da companhia que rendemos partiu
fiquei só na padaria. Falei com o furriel da
alimentação, para que alguém que estivesse de serviço me
fosse chamar às duas da manhã, para eu ir cozer o pão.
Coube essa missão ao pessoal que estava de serviço junto
à padaria, a uns dez metros do meu quarto. Nessa altura
comecei a conhecer o pessoal com quem iria contiver
durante dois anos.
Um dos colegas era da zona de Amarante. Chamava-se
Abílio Freitas Ferraz, mas era mais conhecido por
'Malhado', por ter uma ligeira mancha branca no cabelo.
Ele não gostava nada de ouvir falar em mortos, diabo,
bruxas e coisas do género. Perante isto, lembrei-me de
pregar lhe uma partida quando estivesse de serviço no
posto de vigia.
Quando chegou o dia desejado, fui ao depósito de géneros
buscar um caixote de batatas vazio e arranjei quatro
batatas para servirem de base para as velas, que trouxe
da capela de Nossa Senhora de Fátima do Quixico. Falei
com Nelson Ferreira Oliveira ('Carracinha'), que dormia
mesmo por trás da porta. Ele concordou em ajudar-me a
executar a tarefa.
Colocámos o caixote das batatas na cama, tapámo-lo com o
cobertor e fizemos uma cruz com o papel higiénico.
Enfiámos as batatas com as velas nos buracos dos ferros
da cama. Feito o serviço, e já com metade da caserna
acordada, acendemos as velas. Ficámos todos na
expectativa.
Por volta das seis horas e cinco minutos, o Malhado tira
a bala da câmara antes de entrar na caserna. Assim que
se depara com o cenário que tínhamos montado, dá um
grito e, ao voltar-se para fugir, vai contra a porta.
Continua a fugir e a gritar pelo campo de futebol fora.
Pensava que tinha um morto em cima da cama e nem perante
a insistência do furriel queria voltar à caserna para se
deitar!
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(nota)
Jundo Malongo
Jundo Malongo,
Soldado Atirador, n.º 62414070, natural da freguesia de
Nossa Senhora de Fátima, concelho de Quipungo, Angola,
filho de Soma Malongo e de Charo, solteiro.
Mobilizado pela
Região Militar de Angola para servir Portugal naquela
Província Ultramarina integrado no Regimento de
Infantaria 22 (RI22 - Sá da Bandeira), no entanto estava
adido à Companhia de Caçadores 3387 do Batalhão de
Caçadores 3848.
Faleceu no dia 1 de
Setembro de 1972 no Hospital Militar de Luanda, vítima
de acidente de viação ocorrido no dia 31 de Agosto de
1972 no itinerário que ligava a Companhia ao
Destacamento.
Está inumado na campa
n.º 1, fileira n.º 1, do Talhão Militar, do cemitério de
Vila Paiva Couceiro
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Vista aérea do quartel português em Quixico

Com alguns dos companheiros de armas

Na picada, em Nambuangongo

Uma pausa com direito a foto

A
transportar mantimentos

À
ida, a bordo do 'Vera Cruz'




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