A guerra, na sua crueldade mais
linear, ensina os homens a temer o silvo das balas,
o estalar seco de uma mina na picada ou o grito
súbito de uma emboscada camuflada no capim. Ninguém
ensina um soldado a temer o silêncio de um rio largo
num sábado de sol. Mas foi precisamente aí, nas
águas aparentemente calmas do Baixo Zambeze, que o
destino desferiu o golpe mais devastador da Guerra
do Ultramar em Moçambique.
Era o dia 21 de Junho de 1969.
Faltavam poucos minutos para as cinco da tarde. O
batelão "São Martinho" afastava-se da margem em
Chupanga com o motor a ditar o compasso da travessia
em direção a Mopeia. A bordo, viajavam rapazes
fardados, corpos cansados que carregavam a distância
de casa e a promessa incerta de um regresso. Não
houve fogo de artilharia, não houve um inimigo
visível a erguer armas. Houve apenas o peso
excessivo, o capricho das correntes e o adernar
fatal daquela estrutura de ferro. Em poucos minutos,
o Zambeze engoliu o batelão, e com ele, as vidas, os
sonhos e o futuro de cem militares portugueses.
Cem homens. Um número que gela
qualquer relatório militar, uma cifra que supera as
maiores batalhas daquela frente. O luto não chegou
por via de um boletim de combate glorioso, mas sim
com a humidade pesada de um naufrágio inexplicável.
Dias depois, o Diário de Lisboa rompia a
distância do oceano para estampar nas suas páginas
cinzentas a listagem interminável de nomes e de
idades — rapazes de vinte anos vindos de aldeias e
cidades do continente, subitamente transformados em
registos de óbito numa terra distante.
Hoje, quem navega pelo arquivo
digital daquela tragédia — um repositório erguido
pela devoção dolorosa dos sobreviventes e camaradas
de armas — depara-se com um detalhe que rasga o
peito pela sua delicadeza brutal. No cemitério de
Mopeia, à cabeceira de cada uma daquelas campas
improvisadas no chão africano, foi colocada uma
garrafa de vidro invertida. Lá dentro, protegido da
chuva e do tempo, estava um pedaço de papel com o
inventário dos pertences encontrados no corpo de
cada soldado. Um relógio parado à hora do naufrágio,
uma fotografia desbotada da namorada, uma aliança de
casamento, uma carta por enviar.
Essas garrafas são metáforas
perfeitas da memória humana. São frágeis cápsulas do
tempo que tentam salvar do esquecimento os restos de
uma identidade que a correnteza quis apagar. O rio
levou os corpos, mas o esforço daqueles que ficaram
— e que hoje mantêm viva a memória desta tragédia na
internet — garante que aqueles cem nomes não sejam
apenas estatística morta.
Cinquenta e sete anos depois,
lembrar Mopeia não é um exercício de exaltação
bélica; é um acto de profunda humanidade. É lembrar
que a guerra mata mesmo quando as armas se calam, e
que as maiores feridas de uma geração, por vezes,
ficaram submersas nas águas escuras e profundas de
um rio africano.
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