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Mopeia - RMM

Incidente com Maiores Baixas do Exército Português - 21Jun1969

 

 

Região Militar de Moçambique, 21 de Junho de 1969 (Sábado), pelas 16H57

 

Na travessia do baixo Zambeze entre Chupanga e Mopeia

 

O afundamento do batelão 'São Martinho' causou a morte de 100 Militares Portugueses

 

Para visualização dos conteúdos clique em cada um dos sublinhados que se seguem:

 

Listagem dos mortos em Mopeia, no dia 21Jun1969

 

21Jun2026: Homenagem

 

O Rio Que Engoliu Cem Homens

 

(Reflexões sobre a Tragédia de Mopeia, 21 de Junho de 1969)

 

A guerra, na sua crueldade mais linear, ensina os homens a temer o silvo das balas, o estalar seco de uma mina na picada ou o grito súbito de uma emboscada camuflada no capim. Ninguém ensina um soldado a temer o silêncio de um rio largo num sábado de sol. Mas foi precisamente aí, nas águas aparentemente calmas do Baixo Zambeze, que o destino desferiu o golpe mais devastador da Guerra do Ultramar em Moçambique.

Era o dia 21 de Junho de 1969. Faltavam poucos minutos para as cinco da tarde. O batelão "São Martinho" afastava-se da margem em Chupanga com o motor a ditar o compasso da travessia em direção a Mopeia. A bordo, viajavam rapazes fardados, corpos cansados que carregavam a distância de casa e a promessa incerta de um regresso. Não houve fogo de artilharia, não houve um inimigo visível a erguer armas. Houve apenas o peso excessivo, o capricho das correntes e o adernar fatal daquela estrutura de ferro. Em poucos minutos, o Zambeze engoliu o batelão, e com ele, as vidas, os sonhos e o futuro de cem militares portugueses.

Cem homens. Um número que gela qualquer relatório militar, uma cifra que supera as maiores batalhas daquela frente. O luto não chegou por via de um boletim de combate glorioso, mas sim com a humidade pesada de um naufrágio inexplicável. Dias depois, o Diário de Lisboa rompia a distância do oceano para estampar nas suas páginas cinzentas a listagem interminável de nomes e de idades — rapazes de vinte anos vindos de aldeias e cidades do continente, subitamente transformados em registos de óbito numa terra distante.

Hoje, quem navega pelo arquivo digital daquela tragédia — um repositório erguido pela devoção dolorosa dos sobreviventes e camaradas de armas — depara-se com um detalhe que rasga o peito pela sua delicadeza brutal. No cemitério de Mopeia, à cabeceira de cada uma daquelas campas improvisadas no chão africano, foi colocada uma garrafa de vidro invertida. Lá dentro, protegido da chuva e do tempo, estava um pedaço de papel com o inventário dos pertences encontrados no corpo de cada soldado. Um relógio parado à hora do naufrágio, uma fotografia desbotada da namorada, uma aliança de casamento, uma carta por enviar.

Essas garrafas são metáforas perfeitas da memória humana. São frágeis cápsulas do tempo que tentam salvar do esquecimento os restos de uma identidade que a correnteza quis apagar. O rio levou os corpos, mas o esforço daqueles que ficaram — e que hoje mantêm viva a memória desta tragédia na internet — garante que aqueles cem nomes não sejam apenas estatística morta.

Cinquenta e sete anos depois, lembrar Mopeia não é um exercício de exaltação bélica; é um acto de profunda humanidade. É lembrar que a guerra mata mesmo quando as armas se calam, e que as maiores feridas de uma geração, por vezes, ficaram submersas nas águas escuras e profundas de um rio africano.

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