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GUINÉ - José Martins

José da
Silva Marcelino Martins
ex- Furriel Miliciano
de Transmissões de Infantaria
Companhia de
Caçadores 5
Nova Lamego e
Canjadude (Guiné 1968/1970)
josesmmartins@sapo.pt
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10Nov2018
Recordações de Guerra: Hino da Companhia de
Caçadores nº 5 da Guiné.
Foi criado em 1969 e
cantado até hoje, porque não esquecemos o nosso hino,
apesar de já terem passado 49 anos.
Houve ninhadas
sucessivas de Gatos Pretos, em Canjadude, até 20 de
Agosto de 1974. |
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Que muitas RUNAS se
levantem!
Lar dos Veteranos Militares
Porquê RUNA
[coordenadas 39º03’55” N - 9º12’32” O], aquela pequena
localidade com 6,71 kms² e pouco mais de mil habitantes,
situada a 8 km de Torres Vedras, a cujo concelho
pertence?
Vamos encontrar a
resposta, ou melhor, encontrar o seu início no ano de
1827, quando Portugal saía (?) dum período bastante
conturbado:
-
As Invasões
Francesas ou Guerra Peninsular, entre 1807 e 1811,
com toda a destruição do estado de guerra ou
destruição táctica, e
-
A mobilização de
portugueses, e a consequente saída do país,
integrando a Legião Portuguesa.
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Em Runa ficava
localizada uma quinta, propriedade da infanta D. Maria
Francisca Benedita de Bragança, nascida em 25 de Julho
de 1746, quarta e última filha do Rei D. José I e de D.
Mariana Vitória de Espanha, que foi baptizada na Sé
Patriarcal de Lisboa pelo Cardeal D. Tomás de Almeida. A
título de curiosidade, e de acordo com a tradição, a
princesa recebeu o nome de Maria Francisca Benedita
Ana Isabel Antónia Lourença Inácia Gertrudes Rita Joana
Rosa.
Em
21 de Fevereiro de 1777, com trinta anos, contraiu
casamento com o seu sobrinho D. José, Príncipe da Beira,
e presumível herdeiro da coroa, passando D. Maria
Benedita a ser nora de sua irmã D. Maria, que ascenderia
a rainha em Março seguinte, com o nome de D. Maria I.
Entre os esponsais
havia uma diferença de idade de quinze anos. Não tiveram
filhos, vindo D. José a morrer, prematuramente, em 1788,
após onze anos de casamento, tendo D. Maria Francisca
ficado conhecida como a Princesa-viúva. Iniciou um longo
período de luto.
Senhora inteligente,
com dotes artísticos [existe um painel na Basílica da
Estrela, pintado de parceria com a sua irmã D. Maria
Ana] e de uma cultura rara, poderia ter gasto o seu
próprio dinheiro com a construção de uma igreja ou de um
convento, o que lhe traria prestigio entre os nobres e o
reconhecimento dos clérigos, mas assim não procedeu.
A 27 de Junho de
1799, sob o projecto do arquitecto José da Costa e
Silva, são iniciadas as obras do Lar dos Veteranos
Militares, destinado a acolher militares pobres e
inválidos, pelo que também é conhecido por Asilo de
Inválidos Militares de Runa.
O edifício no estilo
neoclássico da época, cuja construção custou mais de
seiscentos contos de reis, tem uma frente de 99 metros,
orientada no sentido Norte/Sul, com 61 metros de fundo e
uma altura de 13 metros. Ao centro do edifício foi
construída a igreja de uma nave e transepto rematado em
semicírculo, sendo o conjunto dominado por uma cúpula.
Foi inaugurado em 25 de Julho de 1827, quando D. Maria
Francisca comemorava o seu octogésimo primeiro
aniversário, tendo destinado neste conjunto uma ala para
sua residência, ficando conhecidos como “Aposentos da
Rainha”.

O Edifício do Asilo
de Inválidos Militares de Runa.
No acto da
inauguração ficaram as palavras da sua fundadora:
“Estimo
ter podido concluir o Hospital que mandei construir para
descansardes dos vosso honrosos trabalhos. Em recompensa
só vos peço a paz e o temor a Deus ".
D. Maria Francisca de
Bragança morreu em Lisboa no dia 18 de Agosto de 1829,
tendo sido sepultada no Panteão dos Braganças, no
Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, junto do seu
marido, D. José, em singelas arcas tumulares.
Actualmente o
edifício é propriedade do Ministério da Defesa Nacional,
e é dirigido pelo Instituto de Acção Social das Forças
Armadas.
Abrigos de Combatentes
Após esta resenha
histórica sobre o Lar dos Veteranos Militares que, senão
único é pelo menos pioneiro, vamos entrar no motivo
principal deste escrito: ABRIGOS DE COMBATENTES.
Quando D. Maria
Francisca de Bragança se lançou na construção do Lar de
Runa, os meios de assistência, quer médica quer social,
eram reduzidos. Assim se justifica a concentração de
meios, técnicos e humanos, naquela unidade.
Na actualidade,
apesar de terem sido encerrados vários centros de saúde
em diversas localidades, o país dispõe de meios de
assistência que permite criar estruturas de assistência
descentralizados.
Agora, que passadas
as eleições de Outubro de 2009, com as autarquias
eleitas e já em funções, e cujos programas manifestavam
a intenção de tentar resolver a situação dos sem-abrigo,
podem e devem dar início a essa campanha.
Qualquer Município ou
Freguesia deste país terá, certamente, um imóvel que
facilmente poderá ser adaptado a Abrigo a tempo parcial,
caso não seja possível a tempo inteiro Esse local
passaria a ser ponto de encontro entre amigos e
conterrâneos, mantendo assim, além dos laços familiares
e de amizade, a ligação às suas raízes de origem ou de
adopção. Devemo-nos lembrar que há autarcas que são,
apesar de muitas vezes o não revelarem, antigos
combatentes, o que os torna nossos camaradas de armas.
Temos que ter em
conta que os “sem-abrigo” não são só aqueles que, pelas
mais diversas razões, estão desprovidos de local de
habitação. São também aqueles que, tendo família, a vêem
sair de manhã e só regressar ao final do dia, passando
essas largas horas, quase intermináveis, olhando a rua
através das vidraças, isto quando as janelas dos seus
aposentos, normalmente os mais modestos da casa, dão
para a rua.
Alguns, muitos ou
poucos, vão até ao largo ou ao jardim, onde foram
instaladas umas mesas e bancos, que servem de local de
encontro para “um jogo de cartas”. Mas, nesses jogos,
apenas só jogam quatro, limitando-se os outros a ver,
quando não se retiram por se sentirem marginalizados.
Quando chove e não podem ir ao encontro do jogo, única
distracção possível, aumentam o exército dos
“solitários”, aumentam o número daqueles que nem olham o
relógio, porque sabem que esse aparelho de medida do
tempo, nestas alturas ainda se arrasta mais lento.
Muitas frases ficaram
na história sobre os combatentes, assim como a forma
como, sempre, foram tratados:
-
“Os
soldados portugueses combateram para não ficarem
mortos na alma.” [Professor Doutor Adriano
José Alves Moreira, nasceu em Grijó de Vale Benfeito
(Macedo de Cavaleiros) em 6 de Setembro de 1922];
-
“O carácter
duma nação vê-se pela forma como trata os seus
combatentes.” [Wiston Churchil, nasceu em
Oxforshire (Inglaterra) em 30 de Novembro de 1874, †
Londres 24 de Janeiro de 1965];
-
“Se
serviste a Pátria e ela te foi ingrata, tu fizeste o
que devias ela o que sempre faz.” [Padre
António Vieira, nasceu em Lisboa em 6 de Fevereiro
de 1608, † Bahia (Brasil) 18 de Julho de 1698].
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Estamos cientes de que qualquer antigo combatente não
deixará de colaborar e comparticipar dentro das suas
disponibilidades, em tempo e materialmente, na
concretização destas pequenas “organizações”; a própria
comunidade local, individual ou colectivamente,
colaborará para minorar os últimos tempos daqueles que,
na sua juventude já longínqua, puseram á disposição da
Pátria a sua própria vida, num juramento, mesmo que
silencioso, à nossa Bandeira, e não veremos repetir-se a
denúncia feita por Alexandre Herculano [nasceu em Lisboa
28 de Maio de 1810, † Santarém 13 de Setembro de 1877]
na revista Panorama de 15 de Setembro de 1838, acerca do
Real Hospital dos Veteranos, que dizia
“… dentro em pouco os inválidos que lá
existem terão de ir mendigar o pão, que a pátria tem
obrigação de lhes dar, havendo eles ganho o direito a
recebê-lo com o seu sangue, e com os perigos e fadigas
da guerra, que só sabem avaliar aqueles que os têm
passado.”.
Urge começar …!
As festas natalícias
já terminaram e o novo ano já se iniciou. Quer isto
dizer que as pessoas voltaram a sua “vida normal”.
As festas organizadas
pelas diversas organizações, juntando à volta de uma
banda musical ou em espectáculos mais organizados, já se
esfumaram, até na memória dos que foram o objecto delas,
porque o país voltou à sua “velocidade de cruzeiro”.
Os subtítulos, “Lar
dos Veteranos Militares” e “Abrigos de Combatentes”, que
antecedem este novo subtítulo, foram terminados no dia
22 de Dezembro. Três dias depois, exactamente a 25 – no
próprio dia de Natal – dei inicio à recolha de material
para este texto de finalização.
Maquinalmente o carro
levou-me para o centro de Odivelas, para o local onde os
nossos camaradas José e António, conhecidos como os
“sem-abrigo de Odivelas”, tinham passado a noite de
consoada, que é como quem diz, mais uma noite expostos
às intempéries: á chuva e ao frio.
Mantinham-se na sua
posição e local habituais, indiferentes ao vento e à
chuva que caía e ao que se passava à sua volta, porque
era “apenas” mais um dia, que por acaso era dia de
Natal.
Os antigos
combatentes sem-abrigo, no “seu território”
Uns metros mais à
frente, e num espaço de poucos metros, “encontrei”
alguns locais que, apesar de puderem ter uma utilização
social, mesmo desconhecendo se são propriedade
particular ou propriedade do estado.
Rumei à Rua Guilherme
Gomes Fernandes, acedendo pela Rua do Souto, junto do
ex-líbris da cidade – o Cruzeiro - fica um casarão com
o número 70.

Edifício da Rua
Guilherme Gomes Fernandes, nº 70
Este edifício
encontra-se bastante degradado. Os vidros das janelas
estão partidos e os caixilhos já estão deteriorados. Mas
existem sinais de que não esteja completamente
abandonada; o portão principal, e provavelmente único,
está fechado com uma corrente e cadeado, dispondo,
ainda, de uma placa indicando ser proibido estacionar em
frente da mesma.
Uns metros adiante,
frente ao Largo Dom Dinis, onde se encontra o Mosteiro
de São Dinis e São Bernardo e funciona o Instituto de
Odivelas tutelado pelo Ministério da Defesa Nacional,
curiosamente o mesmo ministério que tutela os
Ex-Combatentes, no número 104 letra B, fica um edifício
que, pela tabuleta que ostenta, se encontra para alugar
“ou” venda (?)”, uma vez que a placa se encontra
partida.

Edifício da Rua
Guilherme Gomes Fernandes, nº 104 B
Continuando e
entrando na Rua Combatentes da Grande Guerra, que
termina na Rua Combatentes de Ultramar (nova e curiosa
coincidência), junto da antiga Quinta de Nossa Senhora
do Monte do Carmo, em cuja casa capela e anexos se
encontra a Biblioteca Municipal Dom Dinis, encontram-se
uma construções, que lembra os blocos operários do
inicio da “era industrial”, sendo que algumas habitações
apresentam sinais de “tentativa” de conservação, mas
outras estão degradadas.

Rua Combatentes da
Grande Guerra, nº 6 e seguintes
Na entrada para o
pátio que dá acesso as traseiras, encontra-se uma placa
metálica que diz “DO MONTE DO CARMO”. Falamos do número
seis e seguintes.
Do outro lado da rua,
com o número 5, encontra-se outro imóvel de estilo
diferente do anterior.
Apresenta resquícios
de “art nouveau” ou um estilo mais modernista, em função
da arquitectura do espaço em que se encontra implantado.
Como os anteriormente
mencionados, o seu estado de degradação é notório,
motivado, provavelmente, pela desocupação a que foi
votado.

Rua Combatentes da
Grande Guerra, nº 5
Independentemente de
se tratar de imóveis de propriedade particular ou do
Estado, e independentemente de existir ou não qualquer
utilização para outros fins, previstos ou não no PDM
(Plano Director Municipal), somos da opinião de que
estes imóveis deveriam manter a sua traça original,
adaptados, como é obvio, aos fins a que vierem a ser
destinados.
Mantemos a ideia de
que Odivelas deveria ter um “Abrigo de Combatentes” com
as funções que as organizações participantes (oficiais
e/ou particulares) entenderam por bem pôr em prática,
para o bem estar daqueles que, na sua juventude
colocaram ao serviço da pátria, e hoje, com um futuro
cada vez mais minguado, ainda enfrentam a incerteza do
dia de “amanhã”.
Com esse espírito de
solidariedade para com os desvalidos, governantes,
autarcas, combatentes, gente anónima, ou seja, todos e
cada um de nós, deveremos atentar na frase do Padre
António Vieira, com quer finalizo este texto:
Nós somos o que fazemos.
O
que não se faz, não existe.
Portanto, só existimos nos dias em que fazemos!
José Marcelino
Martins
Ex-combatente da
Guiné
josesmmartins@sapo.pt
Odivelas, 20 de
Janeiro de 2010
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