Monumentos aos Combatentes,
Memoriais e Campas
Monumentos aos Combatentes e Campas
Em
memória daqueles que tombaram em defesa
de
Portugal na Guerra do Ultramar
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cada um dos sublinhados que se seguem
Listagem dos mortos naturais do concelho
de
Montemor-o-Novo

Matriz (Nossa Senhora do Bispo)
(Decreto-Lei n.º 27424, publicado no
Diário do Governo n.º 306, pág. 1850, 1.ª série de 31 de
Dezembro de 1936)
Francisco Inácio Simão
Ramalho

Soldado Apontador de Morteiro, n.º
18352771
Companhia de Cavalaria
3575
«Perseverança»
Moçambique: 21Mai a 30Out1972 (data do
falecimento)
MEMÓRIA E
HOMENAGEM AO SOLDADO APONTADOR DE MORTEIRO
FRANCISCO INÁCIO SIMÃO RAMALHO
N.º 18352771 | Companhia de Cavalaria
3575 “Perseverança”
“Na Guerra Conduta Mais Brilhante”
1. O Homem e a sua Terra
Francisco Inácio Simão Ramalho nasceu
na freguesia de Nossa Senhora do Bispo (Matriz),
concelho de Montemor-o-Novo, sendo filho de Domingos
Lopes Ramalho e de Antónia da Silva Simão. Cresceu no
Alentejo profundo, numa terra moldada pelo trabalho,
pela dignidade das suas gentes e por um forte sentido de
comunidade.
Solteiro, pertenceu à geração de
jovens portugueses que, durante os anos da Guerra do
Ultramar, foram chamados a cumprir serviço militar
obrigatório e a servir Portugal em territórios
ultramarinos distantes das suas famílias e das suas
origens.
Como tantos outros alentejanos, levou
consigo para África os valores que aprendera na sua
terra natal: o espírito de sacrifício, a coragem perante
as adversidades e o sentido de missão que caracterizavam
os militares portugueses destacados para os teatros de
operações ultramarinos.
2. A Mobilização para
Moçambique
Francisco
Inácio Simão Ramalho foi mobilizado pelo Regimento de
Cavalaria n.º 3 (RC3), de Estremoz, unidade histórica
conhecida pelos seus gloriosos “Dragões de Olivença”,
cuja divisa era:
“Na Guerra Conduta Mais Brilhante.”
Integrado
na Companhia de Cavalaria 3575 “Perseverança”, foi
colocado sob o comando do Capitão Miliciano Carlos
Joaquim Martins Paiva de Carvalho, comandante que
conduziu a subunidade durante a sua preparação e
projecção para o Ultramar.
No dia 20 de Maio de 1972, embarcou no
Aeródromo Base n.º 1 (AB1), em Figo Maduro, Lisboa,
juntamente com os restantes militares da Companhia de
Cavalaria 3575, seguindo em transporte aéreo militar
rumo à Província Ultramarina de Moçambique.
Após uma longa viagem, o contingente
desembarcou no dia 21 de Maio de 1972 na Base Aérea n.º
10 (BA10), na Beira, iniciando-se então uma nova etapa
das suas vidas, marcada pelo cumprimento da missão
militar numa das zonas mais difíceis do conflito.
3. A Companhia de
Cavalaria 3575 em Operações
Após
a chegada a Moçambique, a Companhia de Cavalaria 3575
foi colocada em Malapísia, no distrito do Niassa,
ficando operacionalmente dependente do Batalhão de
Caçadores 20, aquartelado em Vila Cabral, actual cidade
do Lichinga.
A
Companhia rendeu a Companhia de Artilharia 2734 e
assumiu imediatamente responsabilidades operacionais
numa vasta região do subsector AVC, caracterizada pela
actividade da guerrilha da FRELIMO e pela permanente
ameaça representada pelas minas e engenhos explosivos
improvisados.
Em
1 de Junho de 1972, a unidade foi recomposta com
quarenta e uma praças provenientes do Batalhão de
Caçadores 16, sediado na Beira, reforço que permitiu
aumentar a sua capacidade operacional num território
extremamente exigente.
Uma das missões permanentes atribuídas
à Companhia consistia na segurança das importantes
pontes sobre os rios Luângua e Locheze, essenciais para
as comunicações e para o apoio logístico das forças
portuguesas naquela região.
A área de actuação da Companhia
caracterizava-se por extensas matas, grandes distâncias
entre aquartelamentos e picadas frequentemente minadas
pelo inimigo. A guerrilha recorria sistematicamente ao
emprego de minas anti-carro e anti-pessoal, procurando
limitar a mobilidade das forças portuguesas e causar
baixas através de emboscadas e armadilhas explosivas.
Apesar do esforço constante dos
militares na detecção e neutralização destes engenhos, a
ameaça manteve-se sempre presente, obrigando as colunas
militares a deslocações lentas, cuidadosas e
permanentemente vigiadas.
4. As Operações
Desenvolvidas até Outubro de 1972
Entre
a chegada da Companhia de Cavalaria 3575 ao teatro de
operações do Niassa, em Maio de 1972, e a data do
falecimento do Soldado Apontador de Morteiro Francisco
Inácio Simão Ramalho, a unidade desenvolveu uma
actividade operacional intensa e permanente numa das
mais difíceis regiões de Moçambique. A sua missão
consistia em assegurar o controlo do território,
garantir a liberdade de movimentos das forças militares
e proteger as populações e os eixos de comunicação
sujeitos à acção da guerrilha da FRELIMO.
Instalada
em Malapísia e integrada no dispositivo operacional do
Batalhão de Caçadores 20, a Companhia actuava
diariamente num ambiente particularmente hostil. A vasta
região sob sua responsabilidade incluía extensas zonas
de mata, itinerários de difícil circulação e numerosas
linhas de água que constituíam simultaneamente
obstáculos naturais e áreas propícias à infiltração dos
guerrilheiros. A segurança das pontes sobre os rios
Luângua e Locheze assumia especial importância, por
constituírem pontos fundamentais para a circulação de
tropas, abastecimentos e apoio logístico.
Durante este período, a Companhia
efectuou patrulhamentos, reconhecimentos, escoltas e
operações de batida nas regiões de Esperança, Malapísia,
Nova Beira e Nova Santarém, estendendo igualmente a sua
acção operacional às áreas dos rios Mecalaué, Luesi,
Luângua, Chicoleze, Luambala, Locheze, Necolete,
Lussalala e à margem esquerda do rio Lugenda. Estas
missões tinham como objectivo detectar movimentos da
guerrilha, localizar acampamentos ou bases de apoio,
recolher informações, impedir infiltrações e demonstrar
a presença das autoridades portuguesas em zonas
particularmente disputadas.
No âmbito desta actividade
operacional, a Companhia participou em diversas
operações militares integradas nos planos e campanhas
então conduzidos no subsector, designadamente as
operações «Arpão 2», «Averiguar 1», «Finura 6 e 7»,
«Flauta 2, 3 e 4», «Finca 1, 2 e 3», «Fórmula 1 a 5»,
«Fiável 3 e 4», «Ripar 2 a 7», «Mascote 1 a 13» e
«Inédito 1 a 14». Embora com finalidades específicas
distintas, estas operações procuravam, de uma forma
geral, limitar a capacidade de actuação da guerrilha,
garantir a segurança das populações e manter abertas as
vias de comunicação essenciais para a sustentação do
esforço militar português na região.
Um dos maiores perigos enfrentados
pela Companhia não resultava do combate directo, mas sim
da utilização sistemática de minas e armadilhas
explosivas. A guerrilha procurava desgastar as forças
portuguesas através da colocação de minas anti-carro e
anti-pessoal nas picadas mais frequentadas. Apesar do
trabalho constante de detecção e neutralização destes
engenhos explosivos, que permitiu descobrir e desactivar
um número significativo de dispositivos, o risco
mantinha-se permanente e invisível, condicionando todos
os movimentos efectuados pelas forças militares.
Foi neste contexto operacional que o
Soldado Apontador de Morteiro Francisco Inácio Simão
Ramalho desempenhou as suas funções na Companhia de
Cavalaria 3575. Como elemento da guarnição de morteiros
da unidade, integrava um dos meios de apoio de fogo
essenciais à protecção das forças em campanha,
contribuindo para o cumprimento das missões atribuídas à
Companhia numa região marcada pela permanente ameaça da
guerrilha e pela extrema perigosidade das deslocações em
terreno operacional.
Foi igualmente neste ambiente de risco
constante que, em Outubro de 1972, ocorreu o trágico
accionamento de uma mina anti-carro na região de
Malapísia, incidente que provocou os graves ferimentos
que viriam a causar a sua morte dias mais tarde, no
Hospital Central Miguel Bombarda, em Lourenço Marques. A
sua perda constituiu uma das baixas sofridas pela
Companhia de Cavalaria 3575 durante o cumprimento da
missão que lhe fora confiada no Niassa.
5. O Acidente em
Malapísia
O teatro operacional do Niassa era
particularmente perigoso devido à proliferação de minas
colocadas nas picadas utilizadas pelas forças
portuguesas.
Foi neste contexto que ocorreu a
tragédia que viria a custar a vida a Francisco Inácio
Simão Ramalho.
Na região de Malapísia, a viatura em
que seguia accionou uma mina anti-carro, provocando
violentos ferimentos nos ocupantes.
O incidente ocorreu num cenário
infelizmente frequente na guerra em Moçambique. As minas
constituíam uma das armas mais eficazes utilizadas pela
guerrilha, sendo responsáveis por numerosas baixas entre
as forças militares portuguesas.
Apesar da assistência prestada e dos
esforços médicos subsequentes, a gravidade dos
ferimentos sofridos por Francisco Ramalho acabou por se
revelar fatal.
6. A Morte em Serviço de
Portugal
Evacuado para o sul da província,
Francisco Inácio Simão Ramalho foi internado no Hospital
Central Miguel Bombarda, em Lourenço Marques.
Ali veio a falecer no dia 30 de
Outubro de 1972, vítima dos ferimentos sofridos em
combate na sequência do accionamento da mina anti-carro.
Tinha apenas cumprido pouco mais de
cinco meses de comissão em Moçambique quando a guerra
interrompeu prematuramente o seu percurso de vida.
O seu falecimento constituiu uma perda
dolorosa para a Companhia de Cavalaria 3575 e para todos
os camaradas que com ele partilharam a dureza das
operações militares no Niassa.
7. O Regresso à Terra
Natal
Após a morte, os seus restos mortais
regressaram a Portugal.
Francisco Inácio Simão Ramalho ficou
sepultado no Cemitério da Freguesia do Ciborro, concelho
de Montemor-o-Novo, onde repousa entre os seus
conterrâneos e junto da terra a que sempre pertenceu.
A sua sepultura constitui um lugar de
memória, homenagem e recolhimento, perpetuando a
recordação de um jovem soldado alentejano que tombou
longe da sua família e da sua terra.
8. O Dever da Memória
A história de Francisco Inácio Simão
Ramalho representa a história de muitos milhares de
militares portugueses mobilizados para as campanhas do
Ultramar.
Independentemente das interpretações
históricas e políticas da guerra, permanece
inquestionável a dimensão humana do seu sacrifício. Foi
um cidadão português chamado a servir, cumpriu a missão
que lhe foi atribuída e perdeu a vida em consequência
directa desse serviço.
O seu nome merece ser recordado entre
os combatentes do concelho de Montemor-o-Novo que
participaram nas campanhas militares ultramarinas.
Caso se confirme a sua inscrição no Monumento aos
Combatentes do Ultramar inaugurado em Montemor-o-Novo,
em 6 de Dezembro de 2025, tal constituirá um justo
reconhecimento público do seu percurso e do seu
sacrifício. Caso contrário, a sua memória continua
igualmente preservada na documentação histórica, no
registo dos combatentes caídos em campanha e, sobretudo,
na lembrança da sua família, dos seus camaradas e da sua
terra natal.
9. Homenagem Final
Hoje, mais de meio século após a sua
morte, evocamos com respeito o nome de Francisco Inácio
Simão Ramalho, Soldado Apontador de Morteiro n.º
18352771 da Companhia de Cavalaria 3575 “Perseverança”.
Evocamos o jovem alentejano que deixou
Montemor-o-Novo para cumprir o serviço militar em
Moçambique, o militar que serviu na exigente região do
Niassa e o combatente que tombou em consequência dos
ferimentos sofridos em operação.
Que a sua vida, o seu serviço e o seu
sacrifício não sejam esquecidos.
À memória de Francisco Inácio Simão
Ramalho, soldado de Portugal, tombado em serviço da
Pátria na Província Ultramarina de Moçambique em 30 de
Outubro de 1972, rendemos a nossa sentida homenagem.
Que descanse em paz.
