Memória e Gratidão

Elementos cedidos pelo veterano
JC Abreu dos Santos
O Último Combate do
Soldado Lucídio Rasinhas
13 de Julho de 1969
Companhia de Caçadores
2405
Batalhão de Caçadores 2852
Mais de meio século após o fim da
Guerra do Ultramar, as memórias daqueles que combateram
na Guiné continuam a emergir, não apenas como registos
de factos militares, mas como tributos profundamente
humanos à camaradagem, à dor e ao sacrifício.
O
texto que se segue é o testemunho presencial e emotivo
do
Alferes Miliciano de Infantaria Rui Manuel da Silva
Felício,
então
comandante do 3.º Pelotão da CCac2405 (Batalhão de
Caçadores 2852). Escrito e partilhado na primeira
pessoa, o relato transporta-nos para o tórrido mês de
julho de 1969, no setor do Dulombi, num período em que a
retirada estratégica das forças portuguesas da região do
Boé havia deixado o dispositivo militar vulnerável e
exposto a uma pressão constante por parte da guerrilha
do PAIGC.
Neste cenário de desgaste e perigo
iminente, após uma exaustiva operação de patrulhamento
fora dos trilhos batidos, a Companhia cruzou-se
inesperadamente com uma coluna inimiga que se preparava
para atacar o quartel. O que se seguiu foi um violento
combate de encontro onde a fatalidade ditaria o destino
de um jovem soldado.
Mais do que a descrição tática de um
confronto na mata guineense, as palavras do Alferes Rui
Felício resgatam do esquecimento o momento exato em que
o
Soldado Atirador Lucídio Rasinhas perdeu a vida,
vítima de um estilhaço de rocket. É um relato
cru, marcado pelo impacto físico das explosões, pela dor
da perda e pelo cheiro indelével do sangue que, mesmo
decorridas décadas, teima em não abandonar a memória de
quem lá esteve.
Fica aqui este preâmbulo como
homenagem ao Soldado Rasinhas — cuja memória foi na
altura perpetuada no aeródromo de Galomaro — e a todos
os homens da CCac2405 que partilharam a dureza daquela
comissão.
Leia, de seguida, o
testemunho presencial do Alferes Miliciano de Infantaria
Rui Manuel da Silva Felício, publicado em 07Fev2026:

“Estávamos já
muito perto do meio da comissão.
Uns dias antes [de 11Jul1969]
o Dulombi tinha sido atacado com rockets, morteiros 82,
canhões sem recuo e armas ligeiras por um bigrupo, pelas
22 horas.
As balas tracejantes que antecederam o ataque, serviram
para indicar o alvo naquilo que parecia ser o
desencadear de um fogo de artifício em festas da Rainha
Santa.
A Companhia respondeu ao fogo com as armas de que
dispunha, designadamente morteiros 81 e 60,
metralhadoras HK, Borsig e espingardas G3.
Desde que [em 06Fev1969]
a região do Boé ficou sem efectivos militares por
decisão estratégica do Comando Chefe, a retracção do
dispositivo originou o que se esperava. Ou seja, a
guerrilha avançou as suas forças para norte do rio
Corubal e as flagelações a quartéis como o Saltinho,
Dulombi, Mondajane, Cansamba, Cancolim e outros
começaram a ser mais frequentes.
Uma semana depois foi planeada e executada uma operação
de patrulhamento com origem no Dulombi, ficando apenas
no quartel o [comandante do 2.º pelotão
Alferes miliciano atirador de infantaria]
Victor [Fernando Franco]
David e o seu Grupo de Combate,
instalado a poucos kms, em Mondajane, teve que se
deslocar com a sua tropa para guarnecer o quartel do
Dulombi, enquanto a Companhia arrancava de madrugada
para o dito patrulhamento.
Toda a restante Companhia iniciou o percurso por sudeste
com o objectivo de contornar Paiai Lémenei, onde se
supunha que se acoitassem os guerrilheiros como base
para aproximação ao nosso aquartelamento.
Ao 2.º dia à tarde, sem encontrarmos sinais do inimigo,
iniciámos o regresso.
Tínhamos tido a preocupação de fazer todo o
patrulhamento fora dos trilhos de pé posto, para que a
nossa presença não fosse detectada, o que implicava um
maior esforço e atenção redobrada na progressão,
orientada quase exclusivamente por bússola, pontos de
cota geográficos de referência e linhas de água
constantemente referenciadas na carta topográfica.
E é verdade que a nossa presença não foi detectada, como
adiante se verá.
Já no regresso, ao fim do dia, depois de andarmos
perdidos no meio da mata, encontrámos finalmente a
picada que ligava Dulombi à base de Paiai Lémenei.
Exaustos pela difícil caminhada, mas contentes, foi
decidido pararmos para descanso de alguns minutos
ficando a cabeça da coluna na picada e o resto da tropa
espalhada pelo mato.
Mandei dois soldados afastar-se para um dos lados da
picada e outros dois para o outro lado, vigiando
qualquer eventual movimento anómalo.
Reunidos na picada, sentados e conversando, estávamos o
[comandante da CCac2405]
Capitão [miliciano de infantaria José
Miguel Novais Jerónimo], o
[comandante do 1º pelotão Alferes
miliciano atirador de infantaria Jorge Lopes Maia]
Rijo, o [comandante
do 4º pelotão Alferes miliciano atirador de infantaria
Paulo Enes Laje] Raposo e eu
[comandante do 3º pelotão Alferes
miliciano atirador de infantaria Rui Manuel da Silva
Felício], isto é, todos os
oficiais, para além de alguns furriéis como o Ribas, o
Veiga e o Esteves.
E pedi ao furriel Esteves para se posicionar atrás de
nós, vigiando a nossa retaguarda.
Nisto, os dois soldados destacados para fazer a
segurança próxima a norte da picada, efectuaram algumas
rajadas de G3 e correram ao nosso encontro já debaixo de
fogo do inimigo.
Um deles, cujo nome já se me varreu da memória, mas cuja
imagem ainda conservo bem nítida, progredia cambaleante
agarrado à barriga ensanguentada onde tinha sido
atingido.
Felizmente, foi evacuado para Bissau e depois para
Lisboa, tendo-se salvo.
Percebemos então que uma coluna de guerrilheiros
fortemente armada se dirigia em direcção ao Dulombi para
executar um ataque ao quartel ao cair da noite.
Tinham sido apanhados de surpresa pela presença
inesperada da nossa Companhia naquele local, ainda
afastado do aquartelamento.
Durante mais de meia hora o combate foi violento e
percebia-se que os rockets choviam ininterruptos,
especialmente na direcção do local onde estávamos porque
era dali que irradiavam as vozes de comando.
Um dos rockets acertou mesmo em cheio no sitio onde
estava o Capitão e os Alferes.
Ainda hoje me lembro do meu corpo ter levantado por
efeito do sopro de uma granada de rocket que explodiu na
ramagem da árvore ao lado de cujo tronco me protegia,
acachapado na terra.
Foi um dos estilhaços dessa forte explosão que atingiu
mortalmente a cabeça do soldado [atirador
de infantaria Lucídio]
Rasinhas que estava a poucos metros de mim.
Ainda auxiliei no seu transporte durante uns dois
quilómetros. O cheiro a sangue no meu braço ainda hoje o
sinto quando recordo.
Ainda tivemos tempo, um mês depois, de lhe prestarmos
uma homenagem póstuma, dando o seu nome ao aeródromo de
Galomaro, sede do Batalhão, numa singela placa de betão.”