TRABALHOS, TEXTOS SOBRE OPERAÇÕES MILITARES
ou LIVROS
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Estado-Maior do Exército
Português
Direcção de História
e Cultura Militar
2ª Rep. do
Estado-Maior do Exército (edições do SPEME)
Cadernos Militares
Elementos cedidos por
um Veterano
14 - "Problemas
da Juventude" (71p. ); Lisboa, Mar71

14 - "Problemas
da Juventude" (71p. ); Lisboa, Mar71
"Problemas da Juventude"
Índice
1. Introdução
2. Aspectos Principais do Problema
O conflito de gerações
A aceleração da maturidade dos jovens
O aumento da população estudantil
O deperecimento da instituição Família
A insatisfação
A juventude, mercado novo
Os novos ídolos e os novos idólatras
O regresso à Natureza
A ânsia do sensacionalismo
A revolução sexual
A carência ou insuficiência de infra-estruturas
escolares
A cristalização das instituições
O pacifismo, o antimilitarismo e o medo à guerra
O espírito de cavalaria do jovem
A politização dos movimentos
3. Os Profetas
4. Características de Vários Movimentos
Beatniks
Hippies
Provos
Gangs
Outros movimentos
5. A Droga
6. A Agitação Estudantil no Mundo
7. A "Revolução de Maio" em França - 1968
8. A "Revolução Cultural" na China Continental
9. Em Portugal
10. Palavras Finais
1. INTRODUÇÃO
A Juventude é um problema.
Conflito de gerações? Há, na problemática actual,
elementos que ultrapassam largamente tal âmbito, além de
que a agitação dos jovens é, muitas vezes, apoiada por
adultos, desde professores universitários a «jovens de
50 anos» que se juntam até aos Hippies.
Problema social? Mas um dos aspectos do problema é,
precisamente, o voltar costas aos confortos que o dia de
hoje oferece, aspecto em que tal contestação se afasta
grandemente das reivindicações operárias, que procuram
uma melhoria progressiva das condições de vida, desde
menos horas de trabalho a maiores salários.
Problema político? Mas a contestação é feita hoje, quer
contra os regimes capitalistas quer contra os
socialistas. Durante a agitação de Maio de 68 em França,
o PCF e a CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores) por
ele dominada aliaram-se praticamente ao Governo, contra
os estudantes rebeldes.
Insatisfação? Mas como se compreende que esta
insatisfação tenha produzido frutos tão opostos como a
não-violência dos Hippies e a violência dos «Blusões
Negros»?
Há um conjunto enorme de circunstâncias que conduziram à
actual situação. No capítulo seguinte, considerar-se-ão
as que se julgam mais importantes. Essas circunstâncias
interpenetram-se, e torna-se muito difícil distinguir,
por vezes, umas das outras. Mas foram consideradas
separadamente por se julgar que deveriam ser
individualizadas. Recorreu-se, para a elaboração deste
trabalho, não só às obras indicadas na Bibliografia
consultada, como também a inúmeros artigos publicados em
jornais e revistas. De uns e de outros se extraíram, com
frequência, conceitos e maneiras de dizer, tidos como
expressivos.
2. ASPECTOS PRINCIPAIS DO PROBLEMA
O conflito de gerações.
Interpreta-se muito o conflito de gerações como um
«Complexo de Édipo» prolongado no tempo de vida das
pessoas, e alargado a grupos humanos. O Complexo de
Édipo, estudado por Freud, recebeu tal nome com base na
lenda segundo a qual o rei de Tebas foi informado pelos
sábios de que havia de morrer às mãos do primeiro filho
que tivesse. Quando Édipo nasceu, mandou seu pai que
fosse amarrado a uma árvore, em local ermo, onde
morreria à fome ou devorado pelas feras. Mas a criança
foi encontrada, salva e recolhida por uns pastores, que
a criaram. E mais tarde, num encontro acidental e por
motivos acidentais, matou o seu pai. O Complexo de Édipo
verifica-se quando a criança, entre os 3 e os 5 anos, ou
até antes, experimenta impulsos e afectos diferentes
para com os progenitores, os rapazes inclinando-se para
a mãe, as raparigas para o pai. E, no desejo de superar
o pai nos afectos maternos, o rapaz experimenta um
inconsciente desejo parricida, como modo de afirmação do
Eu, o mesmo acontecendo à rapariga em relação à mãe.
Este complexo, dilatado, explicaria a hostilidade
crónica entre gerações contíguas, os filhos pretendendo
superar os pais ou libertar-se da sua tutela, os pais
vendo nos filhos uns concorrentes, até uns rivais.
Neste conflito de gerações, curioso é verificar a
aproximação que se verifica entre as gerações alternadas
– o avô apoiando o neto na sua rebelião contra o pai,
movido, consciente ou inconscientemente, pelas
dificuldades que ele próprio experimentou com o filho,
agora pai do neto. Por outro lado, no decorrer das
últimas gerações a sociedade transformou-se
radicalmente, pelo aumento do número de jovens e de
velhos. A esperança de vida em França, por exemplo, que
em 1950 era de 55 anos, ultrapassava em 1969 os 72 anos.
Ora os velhos tendem a segregar os novos, e a aceleração
da História tende a diversificar os comportamentos dos
diferentes grupos de idade, os mais velhos procurando
assegurar a continuidade e a estabilidade, os mais novos
lançados em novas experiências. Outrora, a maior parte
dos adolescentes trabalhava, e portanto participava nas
experiências e reacções dos mais velhos; eram
assinalados peio mundo destes. Hoje, porém, os jovens
são mantidos em relativa juventude por largos anos, e
têm uma maturidade intelectual e uma amplitude de
observação que os distinguem cada vez mais. Não são
assimilados pelos mais velhos, e, como tal, idealizam e
querem construir por si próprios. Para os jovens de
hoje, os valores antigos, pese embora à utilidade que
porventura possam ter tido, estão gastos, é inútil
referi-los. A História toma um novo significado. A
História é movimento, é luta. E, portanto, todo o
conservadorismo deve ser rejeitado, posto de parte. Por
isso os movimentos estudantis rejeitam as estruturas
sociais e políticas actuais, sejam elas capitalistas ou
socialistas. Consideram-nas, a todas, ultrapassadas,
anquilosadas. Esta visão reformadora torna-se também,
por vezes, demolidora, e o conflito orienta-se não só
contra a geração anterior, mas também contra todas as
gerações anteriores, contra o passado, de que é exemplo
típico a hostilidade aos museus, que chega a tomar o
aspecto de destruição de objectos culturais testemunhas
de tempos antigos. Assim, os jovens «Guardas Vermelhos»
da Revolução Cultural chinesa destruíram peças preciosas
de museus; e, nos EUA, um grupo de estudantes da
associação «Black Masks» barrou, durante duas horas e
meia, o acesso ao Museu de Arte Moderna de Nova York,
difundindo ao mesmo tempo um panfleto que dizia, entre
outras coisas:
«Um novo espírito surgiu. Ardemos com a Revolução.
Assaltamos os vossos deuses. Cantamos a vossa morte.
Destruímos os museus. Que o passado se afunde sob golpes
de revolta». Esta negação do Passado, de todo o Passado,
e bem assim do próprio Presente, como elo de ligação com
o Passado, é perfeitamente traduzida nas seguintes
palavras de Daniel Cohn-Bendit, um dos principais
responsáveis pela «Revolução de Maio» em França: –
«Fazer tábua rasa de tudo, e tudo reconstruir do zero
absoluto ou das ruínas deixadas pelo incêndio da
Revolução. O importante não é elaborar uma reforma da
sociedade capitalista, mas lançar uma experiência em
ruptura completa com essa sociedade». Esta ruptura,
curiosamente, desencadeia-se primeiro contra aqueles que
estão mais próximos (comunistas: marxistas, trotskistas,
castristas, maoistas, etc.; católicos: progressistas,
etc.). O Concílio Ecuménico, pretendendo actualizar a
Igreja, conduziu ao seu fraccionamento em inúmeros
grupos, cada qual pretendendo ir mais além, assumindo
posições muito mais revolucionárias do que aquela que,
em outra época, originou o protestantismo. Daqui
resulta, também, que a ruptura dos adolescentes se dá,
antes de mais, com a família. Os pais querem que os
filhos acreditem na experiência dos mais velhos; os
filhos, porém, querem que os deixem fazer, viver a sua
própria experiência, ainda que isso signifique
sofrimento, ainda que signifique recomeçar. A relação
adulto-jovem já não pode ser a tradicional relação
educador-educando. É inegável que na agitação juvenil de
hoje há, como sempre houve e sempre haverá, uma forte
dose de rebelião contra a autoridade dos pais.
Mas este conceito de pais alargou-se. Todos os pais são
contestados, sejam eles os progenitores ou tenham a
forma de chefes ou mentores, políticos, religiosos,
económicos, escolares, hierárquicos, etc.
A aceleração da maturidade dos jovens.
O aperfeiçoamento das técnicas de ensino, e sobretudo o
impacto da televisão, têm provocado uma mais rápida
maturidade da criança e do jovem. Os próprios
brinquedos, acompanhando a evolução da técnica, vão
pondo a criança em contacto com a actualidade científica
e técnica.
A criança que assistiu na televisão a chegada do homem à
Lua, que nas suas horas de brincadeira enverga capacete
espacial e maneja armas extraordinárias, a que as bandas
desenhadas dão realidade, tem já uma mentalidade
completamente diferente da criança anterior à era
espacial. Esta aceleração do progresso leva a pôr de
lado, como velharias guardadas no sótão, anteriores
concepções. E basta às vezes uma peça nova de mobiliário
para ter que se modificar toda a disposição de uma sala,
e até de uma casa. A «era espacial» provocou uma
revolução semelhante. A criança contemporânea do
primeiro astronauta deixou de admitir a existência de um
Pai Natal com o seu trajo terrestre e o seu ar
bonacheirão, absolutamente incompatíveis, um e outro,
com os problemas de viajar no espaço. A criança de hoje
chega mais depressa a adolescente, e este a adulto, sem
passagem pela fase de adolescente, portanto sem uma
evolução com um mínimo de soluções de continuidade. O
jovem quartanista de hoje já discute política, já
abandona o lar para se juntar aos Hippies – quando,
ainda não há muitos anos, os jovens da sua idade jogavam
a bola ou ao berlinde.
O aumento da população estudantil.
O aumento da população estudantil tomou, nos últimos 15
anos, um aspecto explosivo. Este aumento foi devido, por
um lado, ao decréscimo da mortalidade infantil, e por
outro lado ao prolongamento da escolaridade obrigatória,
à criação de cursos livres, ao recurso a aulas
nocturnas, à concessão de bolsas de estudo em número
crescente e outras facilidades, e a criação de estágios
de especialização pós-escolar. Tudo isto levou a que
continuassem a ser estudantes, indivíduos até 25 anos e
às vezes mais, indivíduos que eram considerados, e se
consideram, jovens, pelo simples facto de serem
estudantes - em contraste sensível com os operários,
funcionários públicos ou privados, etc., os quais ainda
que mais novos, já não são olhados como jovens, nem como
tal se sentem. Invadindo escolas, colégios, liceus,
institutos e universidades, os jovens estudantes
tornaram-se uma massa já com peso no conjunto da
população, e adquiriram a noção da força potencial dessa
mesma massa, tradicionalmente irreverente, sequiosa de
inovações, receptiva e facilmente emocionável. Esta
massa pretende constituir, hoje, uma
classe, pretende ter voz e ser ouvida, pretende
participar na edificação do futuro, do seu futuro, em
vez de constituir, como até agora, uma promessa, uma
reserva, a ante-câmara do futuro, sub-adultos mentais,
pessoas a quem apenas se mostra o mundo que virá a ser
delas.
Desejam descobrir a vida, por si próprios, em vez de,
como até agora, a aprenderem.
O deperecimento da instituição Família.
Os atractivos que a vida de hoje oferece, com a sua
multiplicidade de electrodomésticos, e o encarecimento
das rendas de casa e da mão-de-obra doméstica, obrigam
os pais a trabalhar fora de casa, os dois. E os filhos
crescem entregues a criadas, internados em colégios, ou
almoçam em cantinas escolares, só aparecendo em casa à
noite. O jovem passou a procurar, então, a companhia de
outros jovens. E a integração vertical, que era
antigamente a regra, deu lugar a uma massificação
horizontal, já considerada na alínea anterior, a qual,
associada ao número crescente de jovens, tende a dar uma
consciência colectiva ao conjunto dos jovens. A Família
deixou de poder integrar os seus filhos para além da
puberdade. Por tal motivo, todas as teses visando a
dissolução da família encontram fácil aceitação nos
jovens, para quem a Família-instituição se vai tornando
algo cada vez mais distante, e portanto menos
significativo. Este facto é aproveitado politicamente
pelos movimentos da extrema-esquerda que, na sua
propaganda, advogam o aniquilamento total da família,
tida como um dos «instrumentos de
opressão» da sociedade capitalista.
A insatisfação.
As gerações que viveram os dramas da última guerra
mundial e os problemas da reconstrução resultantes de
duas guerras mundiais, procuraram proporcionar aos seus
filhos aquilo que não lhes havia sido proporcionado. E
as gerações do pós-guerra viram-se envoltas numa camada
amortecedora de conforto material. Por outro lado, os
pais de hoje procuram suprir a sua falta de assistência
ao lar através da oferta de tudo aquilo que se lhes
afigura capaz de contribuir para a satisfação dos
filhos, desde a liberdade total a tudo quanto constitua
ambição dos jovens: guitarras eléctricas, gravadores,
discos e gira-discos, motorizadas, automóveis, etc. Mas,
assim habituados, quanto mais os jovens têm mais querem,
através de uma insatisfação inevitável que os próprios
pais alimentam. E esta insatisfação dá origem a procura
de novas sensações, que a liberdade usufruída e a
derrocada das convenções facilitam. Os jovens querem
tudo, e imediatamente. E envereda-se pela
droga, pela exploração sexual. E surge o «teddyboyismo»,
a fúria de viver muito em pouco tempo, na certeza de que
a juventude tem um tempo limitado. E surge a violência,
por vezes o aniquilamento alheio e próprio. Disse Robert
Kennedy que «o drama da juventude americana é que ela
tem tudo, excepto qualquer coisa; e esta qualquer coisa
é essencial». Esta frase define, talvez, não só a
insatisfação de que a juventude sofre, como também a
dificuldade em resolver esse problema.
A juventude, mercado novo.
O aumento do poder de compra da população deu origem a
que os jovens vissem consideravelmente ampliada aquela
mesada que lhes era concedida para o cinema, para o
tabaco furtivo, etc. Rapazes e raparigas deixaram, por
isso, de fazer compras integrados na órbita materna.
Nasceram como mercado específico. E a indústria e o
comércio, fazendo uso de uma publicidade dotada de inova
agressividade, foram ao encontro deste mercado, deste
maná, adulando-o, seduzindo-o, conquistando-o. Há uma
gama imensa de produtos ou atracções que vivem muito dos
jovens: vestuário (desde «soutiens» para adolescentes
que ainda deles não precisam, mas que as tentam, pelo
seu aspecto e pelo seu significado, a casacos às tiras,
à maneira dos peles-vermelhas), adornos, instrumentos
musicais, gravadores, discos, gira-discos, livros,
revistas, cartazes, festivais, cinemas, «boites», etc.
Há estabelecimentos que vivem, pode dizer-se, apenas dos
jovens, com títulos a condizer:
«Tara», «Calhambeque»,», etc. À sombra dos jovens
proliferam, ainda, interesses gigantescos, como é, nos
EUA sobretudo, o caso das drogas, ou, ainda, o das
limonadas e sandes ou cachorros quentes nos grandes
festivais «Pop» ao ar livre, do parque de Golden Gate à
ilha de Wight. O custo da organização deste último
festival, por exemplo, até ao dia da abertura, ascendeu
a 30 mil contos, incluindo instalações, pagamento a
cantores, etc.
Os novos ídolos e os novos idólatras.
Ídolos vivos, modelos que o povo diviniza e procura
imitar, houve-os sempre: guerreiros, artistas,
aventureiros, etc. Mas foi o cinema, sem dúvida, o
grande impulsionador da idolatria, graças não só às suas
vastas possibilidades de comunicação com as massas, como
também à forma como essa comunicação se faz, em salas
escuras onde a atenção se concentra numa tela iluminada
em que o ídolo aparece em grandes dimensões. O primeiro
grande ídolo do cinema foi, incontestavelmente, Rodolfo
Valentino, o galã romântico que movimentava multidões de
mulheres, solteiras, casadas, mães, até avós, que com
frequência desmaiavam à vista do seu ídolo. A expansão
da indústria cinematográfica deu origem à multiplicação
dos ídolos, que serviam de modelo para tudo, desde modas
a procedimentos, através de uma total identificação dos
idólatras com eles. Os novos ídolos passaram a
compreender, fundamentalmente: Artistas que
personificavam a beleza física, masculina ou feminina;
Cantores ou bailarinos; »Cow-boys» ou outros símbolos de
valentia e desembaraço físico; Cómicos. E surgiram,
assim, figuras como Douglas Fairbanks, John Gilbert,
Mary Pickford, Gloria Swanson, Tom Mix, Chaplin, etc.
Era um pequeno grupo que polarizava a idolatria geral,
até porque o cinema era, ainda, uma novidade. O cinema
sonoro relegou para o esquecimento ídolos antigos e
valorizou ou revelou outros, entre os quais Greta Garbo,
Marlene Dietrich, Jean Harlow, Maurice Chevalier,
Jeanette MacDonald, Stan Laurel e Oliver Hardy, (Bucha e
Estica), etc. Com a vulgarização dos «Westerns», a
idolatria estendeu-se aos jovens, entusiasmados com as
perseguições a cavalo, os tiros rápidos e certeiros, os
punhos rijos do «artista» e a derrota infalível do
«cínico». Nova e numerosa geração de ídolos surgiu
depois, constituindo a «idade de ouro» do cinema, que
durou até à popularização da televisão. Essa geração,
pelo seu número, qualidade e variedade, generalizou a
idolatria mas dispersou os idólatras. Esta geração
compreendeu nomes como os de Clark Gable, Robert Taylor,
Gary Cooper, Gary Grant, Errol Flyn, Spencer Tracy,
James Stewart, Henry Fonda, Gregory Peck, Glenn Ford,
Rock Hudson, Charles Boyer, Jean Gabin, Jean Marais,
Bette Davis, Rita Hayworth, Lana Turner, Ava Gardner,
Katherine Hepburn, Olivia de Havilland, Grace Kelly,
Doris Day, Michele Morgan, Vivian Leigh, Ingrid Bergman,
Silvana Mangano, Ana Magnani, Cármen Sevilha, Bing
Crosby, Fred Astaire, John Wayne, Bob Hope, Danny Kaye,
Fernandel, Cantinflas, etc. Nos «Westerns», porém,
surgiu um aspecto novo: a música. O valente vaqueiro,
além de todos os anteriores predicados, nos momentos
adequados sacava de uma viola ou de um banjo e
impregnava a noite e a pradaria de canções românticas.
Era o «cow-boy» lírico, que teve grande aceitação.
Quando Frank Sinatra apareceu no horizonte, entoando
canções repassadas de sentimento, o seu público era já
constituído por raparigas solteiras, que alternavam os
desmaios com uma inovação: gritos histéricos. Nesta fase
do cinema há dois aspectos novos a salientar também: o
aparecimento de actores adolescentes e o de actores
«duros». O aparecimento de «duros» vulgarizou um novo
tipo de ídolo, pouco atraente de aspecto, pelo menos à
primeira vista, áspero, rude, mas no fundo um
sentimental. Foi o caso de James Cagney e, sobretudo, de
Humphrey Bogart. Este último merece um destaque especial
porquanto, anos volvidos sobre a sua morte, e duas
décadas sobre os seus últimos filmes, viu a sua
idolatria renascida das cinzas do passado. As novas
gerações, totalmente desligadas dos Gables, dos Powers e
dos Flyns, identificaram-se com Humphrey Bogart,
redescobriram-no, voltaram a popularizá-lo. Esta
idolatria do «duro», do inconformado, do feio, não mais
desapareceu, antes evolucionou para ídolos ainda mais
duros, mais feios, mais anti-convencionais, mais
alienados, mais marginalizados, como Jack Palance, Burt
Lancaster, Kirk Douglas, Eddie Constantine, etc, para
culminar em Sean Connery, o intérprete dos filmes da
série «007» que tanta popularidade alcançaram. O «007»,
ídolo de primeira grandeza, era uma simbiose de «cow-boy»,
astronauta, «playboy», polícia e assassino. Nesta senda
do anti-convencionalismo apareceram ainda actores como
Marlon Brando, Yul Bryner, Jean-Paul Belmondo, etc.
Entretanto nasceu um novo mundo paralelo ao cinema, e,
por vezes a ele ligado: o do «Rock», com o seu ídolo,
Elvis Presley. Não se tratava já, só, de um actor, mas
principalmente de um jovem cantor que associava à
música, fortemente ritmada, contorções do corpo que
provocavam o delírio entre a assistência, então já muito
jovem. Havia já, do antecedente, danças movimentadas em
que os dançarinos faziam habilidades, como o «Jitterburg»
e outras; mas o músico mexer-se também assim, rebolar-se
no chão, dar gritos, isso é que era novo. Toda a
juventude se deixou embriagar pela nova vaga, e cada
exibição do seu ídolo era acompanhada de verdadeiras
crises de histeria colectiva. E se as raparigas ansiavam
por ver ou palpar o seu ídolo, os rapazes ansiavam por
ser esse mesmo ídolo, por arrastar atrás de si vagas de
raparigas dispostas a tudo, em troca de um autógrafo, um
botão ou um beijo. Por toda a parte brotaram então os
sucedâneos de Presley, como, por exemplo, Johnny
Halliday, e por toda a parte os jovens espectadores,
entusiasmados ao rubro, perdiam muitas vezes o controle
e destruíram o que tinham à mão. Irrompeu depois a vaga
«Yé-Yé», uma verdadeira crise de infantilidade
colectiva, com grupos musicais que se exibiam por toda a
parte e enlouqueciam uma assistência já muito jovem. Por
alturas de 1954, entretanto, fez a sua estreia no cinema
James Dean. Tinha, então, cerca de 23 anos, mas
aparentava menos. Provinha de uma família de classe
média, sem problemas, mas tinha uma expressão de drama.
E nos seus filmes «A Leste do Paraíso», «Fúria de Viver»
e «O Gigante» incarnava figuras de jovens em que
pareciam ter-se reunido todos os defeitos, todos os
dramas do mundo, mas que, por serem jovens, encontravam
eco e compreensão entre a juventude, que com eles se
identificava. James Dean foi um dos grandes responsáveis
pela viragem da juventude, pela verdadeira «fúria de
viver» que passou a caracterizá-la. Mas o ídolo músico
frenético continuou a existir, depois com músicos «Pop»
(abreviatura de «Popular»), à base de grupos de jovens
muito novos que à música que tocavam, um subproduto da
música negra americana, associavam uma apresentação
caracterizada pelo exotismo, um exotismo que já a vaga
«Yé-Yé» tinha alimentado. O expoente máximo desta
idolatria foi representada pelos «Beatles», os quais se
transformaram num verdadeiro fenómeno mundial que
acarretou para a Inglaterra tal volume de divisas que os
levou a ser agraciados com a mais alta condecoração
britânica. Os «Beatles» estabeleceram a transição entre
a música «Pop» e a música psicadélico, espécie de
bric-a-brac harmónico e rítmico, donde emergem uma
influência indiana e uma electrónica exacerbada.
Associando a música, as cores vivas e a droga, os
«Beatles» sacudiram todo o mundo juvenil fazendo vir à
superfície os estudantes dos primeiros anos liceais. A
idolatria atingiu, talvez, o auge. Os «Beatles» foram
depois intérpretes de alguns filmes de grande êxito, o
que alargou sobremaneira a sua influência. E o seu êxito
deu origem a proliferação de inúmeros outros
agrupamentos, entre os quais os «Rolling Stones», também
ingleses e também psicadélicos. A vulgarização da
televisão mergulhou em crise a indústria
cinematográfica, alterando por completo os parâmetros
por que até então se tinha regido. Deixou de haver
grande número de actores, baixaram consideravelmente os
ordenados destes e diminuiu verticalmente, por isso, o
número de ídolos nesse campo. O tipo dos ídolos
modificou-se também, e de forma diversa para homens e
mulheres. Assim, enquanto as actrizes surgiam
essencialmente como símbolos de sexualidade, como Julie
Cristie, Jane Mansfield, Marilyn Monroe, Anita Ekberg,
Gina Lollobrigida, Sofia Loren, Claudia Cardinale,
Raquel Welch, Jane Fonda, e sobretudo Brigitte Bardot,
os actores tendiam, uns, a tornar-se heróis apagados,
confundindo-se com a multidão, outros, a simbolizar cada
vez mais o anti-herói, o desajustado, o marginal, como
em fitas do género de «Bony and Clyde», «O cow-boy da
meia-noite» ou «Easy Rider». O facto de o número de
ídolos ter diminuído, porém, deu origem a uma nova
concentração da idolatria, que os grupos musicais «Pop»
e psicadélicos favoreceram. Com a politização dos
movimentos de juventude, cada vez mais verificada, os
novos ídolos passaram a incluir, e muitas vezes passaram
mesmo a ser, chefes activistas geralmente ligados a
grupos da extrema-esquerda, como aconteceu com Rudi
Dutzschke e Daniel Cohn-Bendit, estes dois, no entanto,
já com o seu quê de profetas. O fenómeno da idolatria,
antigo como a própria vida do Homem, manter-se-á
enquanto o Homem existir sobre a Terra. Mas a idade da
massa idólatra e a dos ídolos tem vindo, no último meio
século, a baixar progressivamente, para se situar hoje,
em grande parte, na adolescência, a fase da vida que
mais marca as pessoas, por nela se processar, de forma
decisiva, a moldagem da personalidade.
O regresso à natureza.
Através dos tempos, o voltar as costas ao conforto e ao
progresso, e o regresso à mãe natureza, tiveram sempre
os seus simpatizantes, os seus militantes, os seus
profetas e até os seus mártires. Personalidades como
Buda, S. Francisco de Assis e outros exerceram sempre
grande influência, quer no campo do exemplo vivo, como
no caso dos dois citados, quer no campo político, como
no caso de Jean-Jacques Rousseau.
O ritmo febril da vida actual, a crueldade do domínio da
máquina, do computador, e o isolamento do homem de massa
nos grandes centros urbanos, vieram dar novo impulso
àquele ideal de vida simples e sã. Não é apenas o
espírito do desporto que impulsiona os caçadores e
pescadores desportivos, mas também, e muitas vezes
principalmente, o desejo, mesmo inconsciente, de um
diálogo, de uma comunhão com a natureza, ou de um
encontro consigo próprios. O movimento Hippy é, na sua
essência, a procura de uma maneira de viver divorciada
da máquina, do isolamento na multidão e do egoísmo. É a
procura da liberdade absoluta, e, em muitos casos, o
regresso a natureza, ao ar puro, ao cheiro a campo, ao
luar não ofuscado pelas luzes eléctricas, à vida comunal
onde se come o que se cultiva ou colhe e onde o dinheiro
quase não tem significado.
A ânsia do sensacionalismo.
Os modernos «mass media» dão ressonâncias ilimitadas, no
próprio dia, quase na própria hora, aos acontecimentos
mais distantes, muitas vezes de importância secundária,
mas que as agências transformam em «casos», em notícia.
Todos os problemas se tornam universais. Este afluxo de
notícias veio dar origem a uma inflação da notícia, a
que, por seu lado, deu origem a uma maior procura do
sensacionalismo, porque só o sensacional é notícia, num
mundo onde tudo hoje é notícia, desde os estragos de um
ciclone, no Paquistão, ao casamento do Dr. Barnard, dos
raptos de diplomatas na América Latina aos Hippies de S.
Francisco, das aventuras dos astronautas à morte de
Sharon Tate, dos prémios Nobel aos companheiros da B.B.
Deu-se, pois, uma inflação do sensacionalismo, um
embotamento da sensibilidade. Esta maré de
sensacionalismos transbordou para tudo. E, face à
massificação das sociedades, a todos os níveis, a ânsia
de sobressair é maior e ao mesmo tempo mais difícil. Há
que fugir, a cada momento, ao vulgar. Mas o vulgar vai
sendo substituído, vai sendo constituído por
invulgaridades de toda a origem. O primeiro desembarque
de astronautas na Lua mobilizou a atenção de todo o
mundo. Ninguém dormia, quase ninguém comia, todos presos
pelos olhos ao módulo lunar ou aos passos dos
astronautas na Lua. Mas o segundo desembarque foi já
relegado para plano secundário, e só a quase fatal
aventura da terceira tentativa conseguiu acordar de novo
a atenção geral. Finalmente, a partir do quarto
desembarque, muitas pessoas protestaram pelo facto de os
seus programas preferidos terem sido substituídos pela
reportagem da aventura lunar. Faz-se, assim, uma
escalada de loucura, para a qual não há limites. O que
interessa é sobressair, é ser falado, é vir nos jornais,
é ficar na História. E, para tal, tudo serve: o
exotismo, a violência, o «happening». Por outro lado,
esta divulgação dos factos vai influenciar as pessoas.
Está absolutamente comprovada a influência da imprensa,
da rádio, da televisão, do cinema, em factos ocorridos:
réplicas de cenas, assaltos a pessoas, assassinatos,
roubos, etc. O filme «Bony and Clyde» teve que ser
retirado do cartaz de alguns países, depois de se
verificar que tinha dado origem a assaltos feitos por
jovens, em condições em tudo iguais às projectadas no
écran. Nesta sôfrega busca do sensacionalismo se situam
certos aspectos dos movimentos dos jovens.
A revolução sexual.
O aumento da população mundial deu origem a dinamização
da Indústria e do Comércio. Todo o ser humano, novo ou
velho, homem ou mulher, passou a ser encarado como um
consumidor em potência. E toda uma técnica de
publicidade nasceu e se desenvolveu, com tal fim. As
velhas técnicas de publicidade directa, de apresentação
do produto, pura e simples, como a de porcos numa feira,
foram postas de lado, e substituídas por técnicas de
propaganda indirecta, visando não só o consciente, como
também o subconsciente e até mesmo o inconsciente,
individual ou colectivo. A publicidade debruçou-se sobre
a teoria dos reflexos condicionados de Pavlov, sobre os
instintos fundamentais que comandam o comportamento do
ser humano, sobre o inconsciente colectivo, com os seus
arquétipos, sobre o bloqueamento das tendências
naturais, os complexos daí resultantes, e a forma de os
aproveitar, de os canalizar, e irrompeu fulgurantemente.
Ora, um dos instintos mais visados é, sem dúvida, o
sexual. E quase não há campanha publicitária que não
recorra à exploração deste instinto, seja para o
lançamento de um novo modelo de automóveis ou
frigoríficos, seja para o anúncio de cigarros, perfumes,
vestuário ou espectáculos. As capas de livros, revistas
e até discos são, hoje, verdadeiros chamarizes sexuais.
Esta revolução foi acompanhada pela evolução da moda,
tendente a simplificar o modo de trajar. Tecidos mais
leves e mais finos, cores mais vivas, saias mais curtas,
camisolas substituindo casacos, calção de banho para os
homens, biquini para as mulheres, mini-saias, blusas
transparentes, etc. A posição da mulher, no campo
sexual, sofreu também uma modificação radical. O
budismo, o islamismo e as religiões animistas não se
debruçam sobre a mulher, que é esquecida ou encarada
como uma origem de prazer para o homem. Foi o
cristianismo quem, verdadeiramente, procurou elevar a
mulher ao nível de um ser humano, igualado ao homem em
direitos e deveres. Mas o cristianismo encarou sempre o
acto sexual apenas como tendo a finalidade da
procriação.
Ora esta posição, assumida por católicos e por grande
parte dos protestantes, tem no entanto sido contestada,
de há uns anos a esta data, por certos sectores, quer
católicos, quer protestantes. O prazer no acto sexual,
reconhecido apenas aos homens, foi nas duas últimas
décadas reconhecido também à mulher. Médicos, sociólogos
e psicólogos debruçaram-se sobre o assunto e divulgaram
ampla bibliografia sobre ele, dando a conhecer a toda a
gente como a mulher é um ser susceptível de extrair
prazer da ligação carnal, e que deve mesmo extrai-lo, se
a relação homem-mulher se processar como, ao fim e ao
cabo, a própria natureza manda. A abertura deste tema
contribuiu muito para emancipar a mulher, que passou a
exigir do acto sexual também a sua quota parte de
prazer, de felicidade. Em amor, espiritual ou físico,
cada qual deve dar e receber. Esta abertura facilitou a
expansão do mundo do sexo, como era natural, por
conduzir a um diálogo aberto entre homem e mulher, entre
rapaz e rapariga. Em certos países, como a Suécia, foi
mesmo oficializado o «casamento de experiência», findo o
qual, e só então, os noivos decidem se entre eles há, ou
não, afinidades de toda a ordem que justifiquem um
casamento definitivo. Paralelamente a tudo isto
desencadeou-se a exploração comercial, em grande escala,
não só da sexualidade como também do erotismo e da
pornografia, exploração que atingiu, hoje em dia, níveis
e aspectos nunca imaginados. E difícil se torna a uma
comissão de censura determinar qual é fronteira entre a
sexualidade e o erotismo, e entre este e a pornografia.
Na Suécia e na Dinamarca não há censura de costumes.
Cada qual pode fazer o que entender, ver o que quiser,
publicar o que desejar, contanto que não afecte a
liberdade alheia. A Holanda e a Inglaterra encaminham-se
também para tal alvo. Isto tornou possível a realização
na Dinamarca, em 1970, de uma exposição
internacional-feira de sexualidade, erotismo e
pornografia, a primeira do género, que atraiu visitantes
de todo o mundo, homens e mulheres, velhos e novos,
respeitáveis casais com os seus filhos. De resto, a
Dinamarca arrecada fartos proventos da exportação ilegal
de material de tais tipos, que entra ilegalmente nos
EUA, embalada em caixas de produtos comestíveis ou
outros. Também a Suécia se dedica a tal comércio. Na
Dinamarca é encarado como uma coisa perfeitamente
natural que raparigas estudantes liceais ou
universitárias, ou até mesmo respeitáveis senhoras
casadas e mães, ganhem uns cobres, em trabalho
«part-time», posando para fotografias ou filmes
pornográficos. Proliferam hoje na Dinamarca, Suécia,
Alemanha, França, Holanda, EUA, com tendências para
alastramento a outros países, pequenos estabelecimentos
comerciais tipo livraria, intitulados comumente «Sexshops»
ou «Pornoshops», onde o mostruário é completo. O sexo
invadiu as sociedades industrializadas. O cinema já não
é cinema sem cenas nuas. O teatro tem já os seus
espectáculos, tipo «Hair», em que os actores se despem
em pleno palco. Proliferam nos EUA e noutros países os «Swap
clubs», constituídos por casais que permutam os
conjugues entre si. Pratica-se também, e em grande
escala, o amor em grupo. O «amor livre», em todas as
suas modalidades, com todas as suas possibilidades,
exigido por rapazes e raparigas desinibidos, rompeu
todos os diques de convenções. Praticado em larga
escala, mas furtivamente, na época vitoriana, exibido
depois em transportes públicos e bancos de jardins em
França, o amor livre veio para a rua em todo o mundo e
adquiriu foros de intelectualidade. Propagou-se depois à
classe média, desceu aos adolescentes, sobretudo com os
Hippies, e tornou-se um dos componentes do grande amor
universal: o amor pelos outros, pela natureza, pela
droga e pelo sexo. A revolução sexual é um dos factores
responsáveis pela contestação actual, e também um dos
seus aspectos. A «Revolução de Maio», em França,
começou, pode dizer-se, a pretexto de os estudantes de
Nanterre pretenderem o livre acesso ao internato das
raparigas, de dia ou de noite, não obstante o inverso
ter sido já autorizado. Igual pretexto serviu de base a
graves incidentes verificados em várias universidades
americanas. E também em Portugal houve contestação
contra a discriminação sexual nas universidades,
traduzida na existência de instalações sanitárias
diferentes para rapazes e para raparigas.
A carência ou insuficiência das infra-estruturas
escolares.
O afluxo de estudantes a todos os níveis do ensino,
excedendo as previsões, criou problemas difíceis, e até
dramáticos, quer no plano didáctico quer no dos mais
altos níveis do planeamento e da decisão. Faltam salas
de aulas, faltam escolas, liceus e universidades.
Escasseiam os professores e piora a sua qualidade,
solicitados pela concorrência de outras actividades,
pela procura de cérebros.
Estabelecimentos escolares recém-inaugurados são, já ao
fim do 1.º ano, insuficientes. E isto por toda a parte,
em todo o mundo. As turmas passam a ser maiores, em vez
de menores. Queixam-se professores e alunos. O ensino
ressente-se. Geram-se conflitos, em que as autoridades
escolares, impotentes, apenas procuram impedir que os
descontentamentos se transformem em provas de força – o
que muitas vezes não conseguem, até mesmo porque há
interessados na agitação, na exploração de tais
carências, dentro e fora do meio estudantil.
A propósito dos acontecimentos de Maio-Junho de 1968 em
França, o estudante Cohn-Bendit declarou: «Não tínhamos
previsto nenhuma prova de força para a Primavera.
Segundo a nossa análise, tudo deveria passar-se na
próxima abertura das aulas. Nesse momento haveria uma
situação objectiva – falta de aulas e professores,
desorganização e ineficácia do ensino – que levaria os
estudantes a violências, uma vez que eles tinham podido
verificar, no ano anterior, como as greves e as
manifestações pacíficas não serviam para nada. A crise
teve lugar mais cedo porque o próprio Poder a
desencadeou (pedido de intervenção da Polícia pelo
reitor da Sorbonne). E, uma vez iniciada a escalada,
eram obrigados a prosseguir». Paralelamente com as
reivindicações quanto às instalações escolares, outras
se apresentam quanto às organizações circum-escolares,
às quais se exigem benefícios crescentes, e cujo
controlo é procurado pelas organizações estudantis de
carácter proeminentemente político.
A cristalização das instituições.
A guerra 1939-45 provocou uma sensível paralisação das
estruturas dos países nela implicados. Tudo foi
orientado para a guerra, uma guerra que exigia avultados
braços, cérebros e bens, uma guerra que obrigou a uma
conversão quase total da indústria. Finda a guerra, a
reconversão deu origem a uma renovação das estruturas,
que se cuidava que viessem a servir para largo tempo. O
mundo estava preparado para o Futuro, para as novas
gerações – contanto que um e outras não diferissem muito
dos anteriores. Mas o pior é que diferiram. A energia
nuclear, a aviação a jacto, a televisão generalizada, os
plásticos, o radar, a avalanche de electrodomésticos a
preço acessível, os antibióticos, o avanço da cirurgia,
a expansão do livro de bolso, o encarecimento
espectacular da mão de obra e a sua rarefacção, a
explosão do ensino, a China de Mao, Cuba, a Guerra Fria
– todo um mundo novo surgiu e, com ele, uma nova maneira
de ser e de viver. Ora esta evolução revolucionária não
foi acompanhada pelos pais, pelos dirigentes e pelos
estadistas. Não puderam aperceber-se, uns e outros, de
que as gerações nascidas no pós-guerra iriam viver num
mundo diferente, e que por isso teriam de ser
diferentes. Os corpos sociais – estados, organismos
profissionais, colectividades ideológicas ou religiosas,
etc. – constituem sociedades, e, como tal, estão
interessados na sua estabilidade, na sua continuação, na
sobrevivência da Ordem que exprimem. E, perante as
contestações, essas sociedades reagem de duas maneiras:
por um lado, rejeitando toda a contestação; por outro
lado, chamando a si certos elementos contestantes. No
primeiro caso se situa a reacção à contestação
estudantil, juvenil; no segundo, a reacção às
reivindicações de carácter social, e por vezes político,
dentro do princípio de que todo o homem tem um preço.
Quando, pois, a agitação juvenil tomou certo vulto, os
estadistas, pais e dirigentes, cuidaram tratar-se da
habitual «crise de crescimento». E as instituições
mantiveram a sua forma antiga, com a certeza de que os
filhos evadidos haveriam de voltar ao lar, quais filhos
pródigos. Mas eles não voltaram. Pior ainda, arrastaram
consigo novos fugitivos, em ritmo crescente. E quando se
deu por tal, já era tarde. A doença havia invadido todo
o corpo, todos os membros. As universidades têm sido, na
contestação, a grande arena de conflitos.
As universidades passaram a ter, desde o Séc. XVI, um
carácter aristocrático, oligárquico. O senado
universitário era um meio hermético, onde só penetravam
os parentes daqueles que já eram catedráticos, ou quem
caísse em graça. Não bastava, para se penetrar em tais
meios, ter as qualificações científicas, ter dado provas
suficientes. Era preciso, e não menos, ter-se condições
para integração no espírito existente. Por isso, e mais
do que em quaisquer outras instituições, as
universidades resistiram aos ventos da mudança,
resguardando em lugar seguro os seus pergaminhos. Por
outro lado a cátedra, muito para além de um meio de
vida, de um posto emissor de ciência, era muitas vezes
antes um «traje de luces», um brazão, uma porta aberta
para outras actividades mais lucrativas. Por isso o
catedrático reagiu sempre às tentativas para acabar com
este «part-time», alegando que os seus proventos de
professor eram insuficientes para assegurar o prestígio
social que tal posição deveria assegurar só por si. Face
à cristalização das instituições, em que, no entanto,
nos últimos anos têm sido introduzidas reformas de toda
a ordem, com vista a minorar as insuficiências, os
estudantes universitários reagem nos seguintes sentidos:
Reformas de ensino, com abolição dos exames finais e
remodelação das matérias; Autonomia universitária,
libertando-se as universidades de intervenções ou
influências e pressões exteriores; Autonomia e
representatividade das associações de estudantes;
Democratização do ensino, devendo entender-se por tal a
possibilidade de acesso a todos os jovens qualificados,
sobretudo os das camadas sociais menos favorecidas;
Transformação do ensino, passando do tipo «derramar
ciência» por parte do professor, para o tipo «diálogo
permanente». Estas exigências chegam ao extremo de
conduzir à criação de universidades-fantasmas,
contra-universidades, ou universidades críticas, com
professores designados e pagos pelas associações de
estudantes, como aconteceu em Berlim-Oeste, nos EUA e na
Espanha. Em Berlim-Oeste, por exemplo, perdido o fôlego
anti-comunista e face «a uma espada permanentemente
suspensa sobre as suas cabeças», os estudantes
resolveram interessar-se, de repente, pelos problemas da
sua universidade, que pretendiam ver resolvidos, sem
perda de tempo e à sua maneira. E assim foi criada a
Kritische Universitaat, com a ajuda de sindicatos
operários, e de cujo programa constavam matérias como: A
função da inteligência e da ciência na guerra do
Vietnam; O modelo de Cuba e o futuro da América Latina;
Marcuse: «O homem unidimensional» e a teologia;
Sexualidade e dominação; Etc.
O pacifismo, o antimilitarismo e o medo à guerra.
O nosso século assistiu já a duas guerras mundiais, que
levaram, quem as viveu, a um verdadeiro horror à guerra,
horror esse que se transmitiu às gerações seguintes,
acrescido de uma descrença na possibilidade de mais
guerras mundiais, provocada pelo equilíbrio das forças
em presença e sobretudo pela existência de armas
nucleares em poder de uns e outros. Mas a verdade é que,
apesar disso, a guerra, a ideia da guerra, a realidade
da guerra, têm estado sempre presentes em todo o mundo:
tumultos, barricadas, greves, atentados, golpes de
estado, terrorismo, guerrilha, poder negro, poder
branco, poder amarelo, guerra subversiva, guerra fria,
guerra quente, guerra psicológica!
Todos nos recordamos da Grécia, Coreia, Argélia, África
negra, Hungria, Checoslováquia, Vietnam, Camboja, etc,
etc. Tudo isto, acumulado, gerou a saturação da
incerteza no futuro e do medo do presente. A palavra
«Paz» tornou-se uma obsessão, e ainda mais quanto a
propaganda comunista dela se apossou e dela fez um
símbolo propagandístico, tal como antes havia feito com
as palavras «democracia», «democrático», etc. Nasceu ou
cresceu, pois um pacifismo por toda a gente acalentado.
Dentro deste quadro, a função do Exército (e nesta
designação se englobam todos os Ramos das Forças
Armadas), como defensor da integridade territorial, não
se ajusta já à mentalidade das novas gerações. Haver
alguém que tem por função específica «fazer a guerra»,
com tudo o que tal ideia tenha de excessivo ou de menos
verdadeiro, é coisa que muita gente, sobretudo muitos
jovens, já não compreendem, e que muitas outras pessoas
se esforçam por que não seja compreendido. O oficial do
Exército surge, assim, como um elemento para quem a
«sociedade de consumo» não encontra um trabalho de
interesse palpável e imediato, sociedade essa que não
compreende que possa existir alguém sem uma ocupação
efectiva de produção e rendimento. Tudo aquilo que não
produz, deve ser eliminado. E o Exército, pelo menos
aparentemente, não produz, só consome. Argumentam ainda
os antimilitaristas que, havendo pessoas que se dedicam
permanentemente ao estudo teórico da «arte de bem fazer
a guerra», quando esta surge, quem a vai fazer são, ao
fim e ao cabo, aqueles que, na vida civil, calmamente
desempenhavam as suas pacíficas actividades e preparavam
o futuro. Esta, claro, a maneira de pensar de quem vive
fora dos problemas e ignora ou faz ignorar que sem uma
estrutura previamente montada, e sem uma chefia
competente, qualquer país estaria à mercê de meia dúzia
de revoltados, dentro ou fora do território. Por outro
lado, o desenvolvimento tecnológico exige cérebros, que
são bem remunerados. Por tal motivo, a procura da
carreira das Armas tem sido progressivamente menor. Daí
resultou uma quebra quantitativa e qualitativa,
sobretudo para as chamadas «Armas Gerais», e
principalmente para a Infantaria. Ora as novas gerações
cresceram dentro de um espírito acentuadamente liberal e
anti-intervencionista. E toda esta massa informal,
desinibida e indisciplinada, reage contra tudo o que
signifique limitações a sua maneira de ser, aos seus
desejos, a sua liberdade: a gravata, o vinco das calças,
o cabelo cortado, a autoridade paterna, o formalismo
escolar, as forças da ordem e, finalmente, o serviço
militar. O aspecto formalizado do Exército, com os seus
uniformes, as suas formaturas, as suas hierarquias, a
sua disciplina, implica com as novas camadas, faz-lhes
medo, um medo que é alimentado não só por uma propaganda
antimilitarista a nível mundial, como também por certos
sectores da Imprensa que estão constantemente a chamar a
atenção para os aspectos menos favoráveis do serviço
militar e das instituições militares. Assim, a revista «LIFE»
tem publicado reportagens depreciativas do Exército
americano; a revista «PLAYBOY» publicou artigos
descrevendo violências praticadas por graduados contra
soldados americanos, etc. O sargento americano é já tido
como um bruto, atrasado mental e sádico; e a
propaganda anti-ocidental não se cansa de associar o
Oficial do Exército àquele Oficial tipo nazi, rígido,
empertigado, irrepreensivelmente fardado, de bota alta
muito luzidia, irritante, frio e cruel. As palavras que
se seguem, da autoria de um Hippy, traduzem bem este
pacifismo e este antimilitarismo: «Como é estúpido
batermo-nos por ideias que falam de pátria em perigo ou
qualquer outra coisa! Todos os jovens devem fazer a
greve da guerra. Responder a golpes com golpes é recusar
a evolução! Estou a ver uns senhores importantes, nos
seus gabinetes, consultando cifras e decidindo os
efectivos de jovens a enviar para o Vietnam. São uns
assassinos. Arrogam-se o direito de vida ou de morte, em
nome do capitalismo, dos interesses do Senhor X, ou em
prol de grandes ideias democráticas. Ora nós recusamos
esse direito. Os Hippies não têm chefe. Um soldado é um
traidor à humanidade, mesmo que aos olhos da sua pátria
seja um herói». A par deste pacifismo-antimilitarismo
existe ainda o medo de ir para a guerra, nos países em
que ela se verifica. Através da imprensa, do cinema e da
televisão, os jovens têm sido amplamente elucidados
sobre os horrores da guerra no Vietnam, a par de uma
propaganda amplamente orquestrada que mantém vivos os
mitos do nazismo e do fascismo e seus pretensos perigos
actuais e futuros. Fala-se a cada momento nos males que
a nossa guerra causa, mas não se fala nos males que a
guerra do outro provoca. Fala-se, por outro lado, na
triste sorte dos aviadores presos no Vietnam do Norte. E
tudo isto acentua o medo dos jovens, que vêem
aproximar-se a altura do serviço militar e só vislumbram
hipóteses negras: o sofrimento, a morte, o
estropiamento, ou, no mínimo, uma dramática paragem da
vida normal. Para esses, há toda uma máquina monumental
montada, incitando-os a desertar e fazendo a apologia da
paz. Nos EUA, e também noutros países, abundam os
cartazes coloridos, os «posters», com motivos pacifistas
e «slogans» do género: «Ban the bomb»; «Suppose they
gave a war and nobody carne»; «Peace-Love»;
«Make love, not war». Este último «slogan» pode também
ser visto em Portugal, com frequência. Nos EUA e na
Europa são distribuídas «listas de contactos civis», nas
quais se indica onde, ou com quem, se pode discutir a
guerra do Vietnam. Em França, a partir de 1966, grupos
de alunos liceais levaram a cabo uma acção militante
contra esta guerra. E, sobretudo desde 1967, o Vietnam
tem sido um catalizador comum das manifestações de
jovens em todo o mundo, até em Portugal. São
distribuídas publicações legitimando a insubmissão e a
deserção, procurando criar a ideia de que quem presta
serviço militar é que é desertor, e que quem deserta das
fileiras é um herói. Rádio Moscovo, num programa para o
nosso Ultramar, dizia aos soldados portugueses:
«Deserta! A tua família teria uma grande alegria se
soubesse que tinhas desertado! Dá essa alegria à tua
família! O soldado que não deserta é que é traidor!».
Por toda a parte onde há soldados americanos, são
distribuídas indicações sobre: A forma de contestar a
incorporação; Incitamento à deserção; Relação de pessoas
e localidades onde os desertores podem obter auxílio;
Indicação de advogados que estão prontos a defender os
desertores ou a aconselhá-los. Num cartaz distribuído a
estudantes americanos dizia-se: «Não deixes que te
mandem para o Vietnam! Podemos auxiliar-te a combater o
alistamento. Não estás sozinho. Assinado: A Juventude
contra a guerra e contra o fascismo». Sabe-se como a
Suécia tem sido um vasadouro de desertores americanos do
Vietnam ou da Europa. Na Holanda e noutros países da
Europa, e pelo que nos diz respeito, há organizações que
acolhem os nossos desertores e os amparam até terem uma
situação assegurada, sob condição de, então, passarem a
pagar uma percentagem dos seus proventos para a
Organização que os acolheu. O Vietnam por um lado, a
OTAN por outro, e a África meridional por outro,
tornaram-se os
vértices fundamentais de um polígono de propaganda
antimilitarista e pacifista que visa o desmantelamento
militar do mundo, mas que, ao fim e ao cabo, apenas está
a provocar o enfraquecimento do Ocidente, privando-o das
suas bases e das suas zonas de influência. O pacifismo e
o antimilitarismo, além de um denominador comum da
contestação juvenil, de um elemento de amalgamamento,
constituem um dos seus mais poderosos motores e
pretextos.
O espírito de cavaleiro do Jovem.
A Juventude – dizia o General Mac-Arthur – é um estado
de alma. É um estado de particular receptividade, de
particular sensibilidade a tudo quanto seja injustiça. E
o jovem de hoje, face a um mundo que, mais de 50 anos
volvidos sobre o termo de uma conflagração mundial, e
quase 30 após o termo de outra, se vê envolvido, todo
ele, em guerras de toda a espécie, com os seus
intermináveis cortejos de violências, sofrimentos e
despesas, revolta-se contra tal estado de coisas, cuja
culpa atribui às gerações anteriores, que não souberam
ou não quiseram pôr-lhe termo. E repudia os jogos nem
sempre limpos da política, em que os interesses
partidários, normalmente mascarando interesses
económicos ou ambição de poder, se sobrepõem a tudo. Não
compreende, não admite que as terríveis experiências do
passado, de um passado ainda recente, desde as
destruições de Coventry, Berlim, Estalinegrado ou
Hiroshima, aos campos de concentração de judeus, não
hajam aberto o caminho a um mundo melhor. Revolta-se
contra o que se gasta em armamentos ou em projectos
espaciais, e que, aplicado noutros campos,
proporcionaria melhores oportunidades a tanta gente
delas carecidas. Revolta-se contra o desiquilíbrio
crescente entre ricos e pobres, trate-se de pessoas ou
de países. Não tolera que haja regiões do mundo onde a
esperança de vida ultrapassa já os 70 anos, a par de
outras onde não vai além dos 30. Revolta-se contra a
burocracia, contra os convencionalismos estéreis ou
adulterados pelo tempo. Revolta-se, na América, contra a
situação dos Negros; revolta-se, na Hungria ou na
Checoslováquia, contra a tirania do poder; luta, na
Irlanda do Norte, contra o caciquismo
político-religioso. Revolta-se contra a hipocrisia, uma
hipocrisia que condena a sexualidade, tida pelo jovem
como natural, mas que permite a violência no cinema ou
na televisão, violência sob todas as formas, até
sádicas, que vai influenciar as crianças. Revolta-se
contra a hipocrisia que apregoa aos quatro ventos o
problema da droga dos jovens, esquecendo os problemas do
tabaco, do álcool ou dos barbitúricos entre os adultos.
A droga, que no Ocidente é proibida, é considerada de
uso natural na África e na Ásia. Em compensação, nos
países islamizados é proibido o álcool que tão graves
consequências tem no Ocidente, directamente (doenças) ou
indirectamente (acidentes de viação, etc.). O jovem
acaba por não se sentir bem em lado algum, porque em
lado algum encontra aquilo que procura. No mundo
comunista, como no mundo capitalista, solta brados de
liberdade. E nunca chega a encontrar o que deseja,
porque essa liberdade que procura é um impossível,
apenas vive no reino do ideal. Para fazer frente a todos
os obstáculos que entravam o seu caminho, o jovem só vê
um processo: a Revolução. E, tomando como modelos
figuras que foram, essencialmente, homens de acção, abre
caminho através seja do que for, cegamente e por vezes
fria e cruelmente, na esteira de Trotsky, Guevara,
Ho-Chi-Min ou Mao-Tsé-Tung. Torna-se revolucionário na
pura expressão do termo, lutando contra o capitalismo de
modelo ocidental ou contra o socialismo de modelo
soviético. Fanatiza-se, e troca tudo por mitos.
Considera-se um novo cruzado, lutando por sua dama, que
tem dois nomes: Justiça e Liberdade. Mas a vida vai
girando, e todos os jovens vão sendo ultrapassados. E
mesmo os mais radicais, os mais extremistas, descobrem,
a certa altura, que outros grupos nasceram, já de si
diferentes, ainda mais revolucionários, e que eles são,
para os jovens desses novos grupos, apenas uns
ultrapassados, uns reaccionários, uns estorvos para o
verdadeiro caminho da Liberdade, para o Mundo Novo.
A politização dos movimentos.
A bomba atómica tornou inviável a guerra do tipo
convencional entre grandes potências. Por outro lado, a
tentativa da antiga Sociedade das Nações de ilegalizar a
guerra como forma de resolução dos diferendos entre
estados foi retomada e ampliada pela ONU. Como, porém,
os antigos interesses prevaleciam, e outros nasceram a
reforçar aqueles, e, com uns e outros, as razões que
levavam às guerras, as grandes potências tiveram que
optar por novos rumos, tiveram que recorrer a guerras
que o não parecessem. E enveredou-se então, pelo caminho
das guerras quentes, mas limitadas, do tipo Coreia ou
Víetnam – em terreno alheio e sem o perigo de escalada
nuclear – e pelas guerras em que a violência -material
era mínima ou nula, como é o caso dos golpes de estado,
das revoltas militares e das guerras subversivas.
O que é uma guerra subversiva? É uma luta levada a cabo
no inferior de um território, por parte da população,
normalmente ajudada do exterior, com vista a derrubar as
autoridades de direito ou de facto estabelecidas, ou, no
mínimo, paralizar a acção delas. É perfeitamente
possível que tenha havido, ou haja, guerras subversivas
puramente locais. Normalmente, porém, as organizações
subversivas precisam de apoio externo, político e
material. Sem um território onde possam instalar os seus
órgãos e de onde possam partir para a luta armada, as
subversões não podem hoje vingar. Foi precisamente a
falta deste apoio externo que fez abortar as tentativas
húngara e checa. Foi o apoio externo, por outro lado,
que possibilitou a vitória da subversão na Argélia, em
Cuba, etc. A partir de 1945, a luta entre as grandes
potências colocou frente a frente o mundo comunista,
chefiado pela URSS, e o mundo ocidental, chefiado pelos
EUA. Enquanto, porém, a forma americana de proceder foi,
essencialmente, envolver o mundo comunista num anel de
bases militares, do Japão à Gronelândia, a posição
soviética foi a de abrir caminho
através da subversão, de forma a ir furtando ao Ocidente
as suas posições estratégicas (o Norte de Africa, por
exemplo), as suas fontes de matérias-primas e os seus
mercados. Dentro deste quadro, toda e qualquer subversão
que se esboce, ainda que esporádica, local, é
imediatamente detectada pelo Partido Comunista local,
que logo oferece a sua experiência e a sua organização.
Normalmente, porém, é o próprio comunismo quem fomenta a
agitação, aproveitando, para isso, as motivações
negativas das populações, os seus motivos de queixa.
Na guerra subversiva, cuja base é a propaganda (segundo
a Escola do Estado Maior do Exército da China
continental, a guerra é, hoje, constituída por 30% de
força e 70% de propaganda), as armas são as ideias e as
balas são as palavras. Ora um dos factos característicos
dos movimentos de juventude é a sua politização
imediata. Sabe-se como o comunismo, através dos seus
partidos nacionais, através da União Internacional de
Estudantes, que controla, tem manejado muita da agitação
ao nível estudantil. Esta politização é perfeitamente
nítida, por exemplo, no conjunto de manifestações e
iniciativas que por todo o mundo os jovens têm levado a
cabo, não contra a violência em geral, mas contra a
violência, ou sua presumível intenção, por parte de
países do Ocidente: a luta no Vietnam, o racismo
sul-africano, o colonialismo, as bases americanas no
Pacífico ou noutras regiões do mundo, o Pacto do
Atlântico, etc. Uma guerra subversiva processa-se
normalmente através de três formas: acções clandestinas
(organização), acções psicológicas (Informação,
Propaganda e Contra-propaganda) e acções violentas. As
acções violentas compreendem duas modalidades
fundamentais: umas a cargo de militantes da subversão e
outras a cargo da população. Entre as primeiras
contam-se as sabotagens, o terrorismo (selectivo ou
indiscriminado) e a guerrilha (emboscadas, golpes de
mão, etc.); entre as últimas contam-se as greves, as
assuadas, etc., em que as pessoas, impulsionadas por
agitadores que muitas vezes nem elas próprias sabem que
o são ou onde estão, acabam por tomar atitudes e
praticar actos cuja adopção nunca estivera na sua ideia.
O que se pretende, com estas manifestações populares, é
levar as forças da ordem a intervir, para que daí
resultem escaramuças, feridos, e, se possível, mortos,
que possam servir de símbolos e dar origem a novas
manifestações. Ora um dos objectivos da agitação no seio
da massa estudantil é, precisamente, promover a agitação
e criar situações irreversíveis que dêm origem a
violências mútuas, acirrando ódios, abrindo fossos
intransponíveis. "A subversão nasce do nada e por um
motivo qualquer" (Mao-tse-tung). A pretexto de tudo e de
nada, há reuniões, votações pretensamente democráticas,
manifestações de massa. Gera-se a confusão, e uns e
outros excedem-se. Então a «repressão», a «brutalidade»
das forças da ordem, são narradas, exploradas,
ampliadas; e cita-se o caso daquela rapariga que foi
barbaramente agredida, sem ter feito nada, – ela era,
até, apenas uma espectadora curiosa e inocente; e o caso
daquele rapaz que foi arrastado pela calçada como se
fosse um saco de batatas. Lançam-se apelos angustiosos à
generosidade, à solidariedade juvenil. E gera-se um
círculo vicioso, em que intervêm os que não queriam,
agravando a situação. E quando há vítimas, a agitação
atinge o paroxismo. Em Atenas e no Rio de Janeiro, dois
estudantes mortos em tumultos foram passeados por toda a
cidade, nos seus caixões, mortos como pessoas – mas
vivos, estudantes de vida como símbolos. Geralmente, a
iniciativa da agitação parte de pequenos grupos que, na
realidade, apenas agem como faísca que incendeia um meio
prestes a inflamar-se, e que o faz em momentos precisos,
nunca ao acaso, ainda que por vezes as coisas venham a
antecipar-se contra a vontade dos agitadores. E quando o
incêndio se declara, há uma tomada de posição
comunitária, em que razões diferentes levam a atitudes
iguais, transformando numa torrente de lava aquilo que
era apenas um fio delgado de água quente. Por outro
lado, procura-se que esta consciência comunitária se
amplie, chamando a si novos grupos humanos. Assim, nos
EUA tem-se associado à contestação os negros, com as
suas motivações próprias; na América Latina e na Europa
tem-se procurado promover a ligação com operários e até
camponeses – de que foi exemplo típico a «Revolução de
Maio», em França. Esta politização desenvolve-se,
finalmente, ao nível das organizações de estudantes.
Para defesa dos seus interesses, sobretudo no plano
social, foram criadas associações de estudantes,
associações académicas, cujas actividades se estendiam
por várias modalidades: inscrições e matrículas,
cantinas, desportos, grupos corais ou teatrais, etc. Os
recursos provinham de cotizações e a inscrição era
facultativa. Com a politização dos movimentos, deu-se,
primeiro, a infiltração de elementos esquerdistas nas
associações, e depois o controle destas, que se
transformaram em centros de subversão declarada. Mas os
ministérios da educação, dentro de uma mais ampla acção
de assistência social, têm dedicado verbas crescentes, e
avultadas, às organizações circum-escolares, o que
reduziu, de modo apreciável, a importância das
associações. Por tal motivo, vem-se assistindo em todo o
mundo a um movimento no sentido de um sindicalismo
estudantil, obrigatório. Isso teria a vantagem de
alargar o âmbito de acção no plano nacional e de
facilitar a ligação com sindicatos congéneres de outros
países, aumentando portanto as possibilidades de
telecomando. É frequente, hoje, os operários de um
determinado ramo de um país se solidarizarem com os de
um outro onde lavra a agitação social: quando na
Inglaterra eclodiu, em 1970, uma greve que imobilizou os
caminhos-de-ferro e os portos, os estivadores franceses
foram incitados a boicotar os navios que carregassem
para aquele país. A politização dos movimentos, de que
muitos jovens não se apercebem, ou de que se apercebem
quando já é tarde para travar a agitação, é grandemente
responsável pois pela agitação estudantil e juvenil que
grassa no mundo ocidental.
3. OS PROFETAS
São muito diversas, e por vezes exercendo-se em sentidos
contrários, as influências que é possível descortinar
nos vários movimentos ou atitudes da juventude actual.
De entre elas destacam-se as que se seguem, por se
considerar que são as mais nítidas. Mas outras há,
evidentemente. As personalidades citadas são
apresentadas por ordem cronológica de nascimento.
Buda (-560-480)
A figura de Buda é feita, em grande parte, de lenda, até
mesmo porque, havendo na religião budista um mecanismo
autónomo de recompensa e castigo, sem intervenção de
seres superiores – o que dá origem a que cada ser, ao
renascer, tome uma forma mais ou menos elevada, conforme
o modo como viveu a vida anterior – há, não um só, mas
vários Budas, ou um Buda que viveu vidas diferentes até
atingir a perfeição absoluta. Buda, filha do rei da
tribo dos Shakys, nascido, sem intervenção de progenitor
masculino, do flanco direito da mãe, sob uma chuva de
flores, aos 29 anos abandonou todas as riquezas que em
casa possuía, todo o conforto, todos os prazeres que lhe
eram proporcionados, para se entregar à meditação, em
busca da Verdade. E, crendo tê-la encontrado, ou
vislumbrado, retirou-se seis anos para uma montanha,
onde atingiu a Perfeita Iluminação (donde o seu nome,
dado que Buda significa «O que acordou», um acordar para
a Verdade, para a verdadeira Vida). Voltou mais tarde à
casa paterna, com a sua escudela de mendigo, e converteu
os seus pais. Não é um Deus, ou sequer um enviado de
Deus, como para os cristãos é Cristo; é apenas um Homem
que atingiu o mais alto grau da sabedoria, um ideal. De
entre as regras do budismo
salientam-se as seguintes: Não destruir nenhuma vida
(Não-Violência); Só receber o que lhe derem (Portanto,
dar o mais possível); Ser puro; Não mentir; Abster-se do
álcool e dos narcóticos (considerando-se o luxo e os
confortos materiais como fazendo parte destes). Os
Hippies foram buscar ao Budismo um conjunto de aspectos,
desde a simbologia das flores, à não-violéncia e ao
repúdio do álcool, mas pondo completamente de lado
outros aspectos, como a pureza e a proibição de
narcóticos (muito embora o seu abandono dos confortos
materiais seja um aspecto deste repúdio dos narcóticos).
De entre a simbologia deve destacar-se o facto de Buda,
como os Hippies, ter abandonado a casa paterna, em
procura da «Iluminação», que encontrou na meditação, no
isolamento e na castidade, e que os Hippies encontram,
ou dizem que encontram, na solidariedade, na droga e nas
práticas sexuais.
Platão (-427-347)
Platão concebeu uma República ideal, em que os filhos
deixam de pertencer aos pais para pertencerem à
sociedade. Neste conceito, o Homem-ideal é consagrado a
criação da Beleza, através dos filhos que tem, das obras
de arte que produz ou dos feitos nobres que pratica.
A Beleza é a contra-senha da imortalidade. Há
influências platónicas no viver dos Hippies, nas comunas
em que os filhos pertencem ao grupo, no culto da Beleza
– que se pode traduzir nas palavras de um Hippy: «Tudo o
que é belo tem um significado religioso».
Diógenes (-412-323)
Diógenes foi o fundador de uma escola filosófica
conhecida por «Os Cínicos». Anti-convencionalistas, os
Cínicos deixavam crescer a barba e o cabelo, não se
lavavam, rebaixavam o seu modo de viver até ao nível dos
irracionais. Desprezando qualquer autoridade
estabelecida, viviam voluntariamente a margem da
sociedade, dos literatos, dos artistas, dos oradores,
dos valores da época, troçando de uns e de outros,
acusando os governantes de canalhas e inúteis, usando da
agressividade e da obscenidade. Para mostrar o seu
desprezo pelo convencionalismo, Diógenes escolheu mesmo,
para dormida, um tonel. Foi, talvez, aquilo a que hoje
se chamaria o «Primeiro happening» da História. De
resto, os Cínicos dormiam onde e como calhava,
desprezando todas as comodidades. Há muitas facetas dos
Cínicos nos Beatniks e nos Hippies.
Cristo
Cristo faz parte da trilogia fundamental invocada pelos
Hippies, constituída também, para muitos, por Buda e
Gandhi. A fuga aos bens materiais, o amor ao próximo, a
túnica, a barba, etc., ajustam-se perfeitamente à
maneira de ser dos Hippies, que por isso declaram que
Cristo foi o primeiro Hippy – tal como os Comunistas
dizem que Cristo foi também um comunista.
S. Francisco de Assis (1182-1226)
Tal como Buda, S. Francisco abandonou o confortável lar
paterno e prescindiu de tudo quanto tinha, de todo o
conforto, para iniciar uma vida iluminada pelo amor e
pelo espírito de solidariedade. Mas um amor dedicado não
só a pessoas como também a animais irracionais, e até às
próprias coisas e forças da natureza («Bendito sejas tu,
ó Sol nascente!»). Todos, para ele, eram irmãos; o
homem, o lobo, as árvores, o Sol, etc., e sobre todos e
sobre tudo derramava ele o seu amor, um amor não apenas
passivo, mas também dinâmico, realizador, que se
traduziu, entre outras coisas, na fundação das três
Ordens: a 1.ª, ou dos Franciscanos; a 2.ª, das Irmãs
Claristas; a 3.ª, constituída por pessoas que, sem
abandonar o mundo, seguiam os princípios fundamentais da
vida franciscana. Na maneira de ser dos Hippies puros há
muito de franciscanismo, quer no abandono de toda a vida
anterior, quer na pregação do amor ao próximo e, de uma
maneira geral, a tudo quanto existe (são vegetarianos),
quer no espírito de solidariedade, quer ainda na
absorção de tudo o que de belo a Natureza pode oferecer.
É claro que, em outros aspectos, os Hippies se afastam
completamente do franciscanismo, como se afastam do
cristianismo ou do budismo. Mas isso faz parte da
estranha simbiose que é o mundo Hippy.
Thomas More, ou Morus (1478-1535)
Grande chanceler de Henrique VIII, pediu a demissão
quando o monarca abjurou o catolicismo. Foi depois
decapitado. A Igreja beatificou-o. Thomas More era
apologista das colectividades agrícolas, onde cada
pessoa trabalharia, num viver são, em permanente
contacto com a terra e com a natureza. Os Hippies de
Comuna inspiraram-se nos ideais de More.
Jean-Jacques Rousseau (1717-1778)
Em 1749, ao ler um problema posto pela Academia de
Dijon, sobre se o progresso das ciências e das artes
teria contribuído para purificar ou para corromper os
costumes, Rousseau sentiu-se de repente como que
iluminado. E escreveu então uma diabribe contra a
civilização e seus males, onde dizia: «O homem é
naturalmente bom; nasce com instintos que o conduzem
naturalmente ao Bem. Mas a civilização corrompe-o porque
desperta o luxo, a cupidez, o ódio. O progresso é
palavra vã. Para moralizar a sociedade deve regressar-se
ao estado natural, ao estado primitivo». Rosseau
tornou-se depois um verdadeiro revolucionário, vendo só
opressão e miséria na Ordem social, denunciando a
propriedade e hostilizando as convenções sociais.
Deve-se-lhe a remodelação do ensino, de modo a torná-lo
mais objectivo, intuitivo, colocando o aluno em contacto
com as coisas e com a vida, pela adopção de processos
didácticos atraentes. A geração revolucionária que
sobreveio proclamou-o seu mestre; e nunca, desde então,
deixou de ser um profeta dos movimentos de juventude
intelectual. Foi pode dizer-se, um precursor da
filosofia de Marcuse, que acusa a «Sociedade de Consumo»
de relegar para plano secundário a liberdade e a
felicidade verdadeira do homem. Muita da contestação
actual, sobretudo em França, tem as suas raízes, pois,
mergulhadas em Rousseau, que, de resto, é constantemente
citado. O apelo ao «regresso à natureza», por outro
lado, tem no movimento Hippy de comuna uma tentativa de
realização.
Hegel (1770-1831)
Segundo Hegel, se é verdade que não se pode encontrar
uma causa primeira para o mundo, pelo menos pode-se
encontrar uma razão para as coisas. A Vida é uma luta de
forças opostas, tentando combinar-se numa unidade mais
elevada, uma luta não só permanente como também
necessária. Cada situação (Tese) alberga circunstâncias
que se lhe opõem (Antítese), e do conflito entre uma e
outra nasce uma nova situação (Síntese) que reúne o
conteúdo de verdade que existia quer Tia Tese quer na
Antítese. Esta Síntese, por seu turno, cria novas
circunstâncias que se lhe opõem, conduzindo a nova
Síntese, mais rica, ainda, de conteúdo de verdade. E
assim, através de choques sucessivos, de luta em luta, a
vida vai progredindo. Da teoria de Hegel derivou a
teoria da luta de classes de Marx. E o marxismo é um dos
elementos inspiradores dos movimentos de juventude da
extrema-esquerda. Por outro lado, a palavra Luta
tornou-se um símbolo, utilizado em todos os documentos
contestatários da juventude, inspirados ou não no
comunismo.
Schopenhauer (1788-1860)
A filosofia de Schopenhauer é impregnada de pessimismo.
Para ele, toda a vida, toda a existência, é uma miséria,
um mal. A Vontade está sempre descontente, consome-se em
esforços que nunca conduzem a uma satisfação duradoura.
Cada fim alcançado não faz mais do que suscitar novos
fins, que nos fingem a felicidade da satisfação; logo
que alcançado esse fim, porém, sobrevêm desengano. O
progresso cultural faz os homens mais inteligentes e
mais refinados; mas não os torna mais felizes. Pelo
contrário, com um conhecimento superior sentem-se com
mais intensidade os males da existência. Só existe um
meio de escapar à miséria do universo; libertarmo-nos da
existência. A intuição estética dá-nos um começo de
sabor dessa libertação. A felicidade que a contemplação
estética, nos permite é, porém, de curta duração.
Negando-se a vida sob todas as formas (o que não se faz
por meio do suicídio, que é só a negação de uma forma
determinada individual de viver) acaba, com a vida
presente, a vida geral. E então penetramos no Nirvana, o
reino do repouso absoluto. Há na filosofia de
Schopenhauer aspectos comuns ao budismo e a Rousseau.
Esta negação da Vida tem sido encontrada, nos dias de
hoje, não só em certos aspectos dos Hippies, como também
em certos grupos contestários apologistas da violência.
Schopenhauer exerceu profunda influência sobre as
gerações que se lhe seguiram, de que é exemplo o caso
dos sonetos de Antero de Quental.
Proudhon (1809-1865)
Socialista, que influenciou os jovens revolucionários
que acorriam a Paris (entre os quais Marx). Escreveu um
livro intitulado «Qu'est-ce que la proprieté», em que
declarava que «a propriedade é um roubo». Era adverso do
princípio da autoridade e grande apologista da
descentralização do Poder. Foi quem primeiro usou a
palavra «Anarquia», para designar a mais alta perfeição
na organização social, assente no livre contrato e na
liberdade autodisciplinada dos contratantes. Considerava
que, graças ao progresso social, o governo sobre as
pessoas se viria a tornar desnecessário. «O governo do
homem pelo homem é sempre opressivo». A sua influência
exerceu-se não só através das ideias de Carlos Marx,
como também directamente. Por isso mesmo o seu retrato,
na agitação de Maio de 1968 em França, sobressaía nas
paredes da Sorbonne, ao lado dos de Lenine Suevara, Mao
e outros.
Carlos Marx (1818-1883)
Impregnado da filosofia hegeliana e do idealismo de
Proudhon, Marx considerou que a luta pela felicidade é
essencialmente uma luta de classes. Assim a Monarquia
Francesa, em luta com o Povo, conduziu à Revolução
Francesa, de que resultou o Império. E assim
sucessivamente. Para Marx, a Tese do seu tempo era o
Capitalismo, por ter traído os Proletários, a quem
explorava. O choque entre um e outros havia de dar
origem a Revolução, daí resultando, numa primeira e
demorada fase, a Ditadura ao Proletariado – demorada
pela necessidade de enfrentar as tentativas
revolucionárias – e, finalmente, o termo da luta, a
situação perfeita, o nivelamento social total, a
constituição de uma sociedade sem Estado, auto-governada,
todos recebendo igual paga, todos trabalhadores, ainda
que cada qual dentro
das suas aptidões. Para Marx, portanto, o Comunismo
viria a ser a Síntese final. Marx influenciou
profundamente os elementos que fizeram a revolução
bolchevista de 1917. Mas a sua influência tem-se mantido
viva, renovada, através de Lenine, Mao, Ho-Chi-Min,
Guevara e outros, e faz-se sentir fortemente em todas as
facções da extrema-esquerda dos movimentos operários e
estudantis.
Turguenev (1818-1883)
Por ter desagradado ao Czar, Turguenev foi forçado a
abandonar a Rússia em 1855, e foi viver em Baden e em
Paris. Em 1862 escreveu o livro «Pais e filhos», em que
o herói é o primeiro tipo de Nihilista, de novo estudado
em 1887 no livro «Terras virgens». Foi Turguenev quem
primeiro empregou esta palavra Nihilismo (do latim «Nihil»-Nada).
O Nihilismo era uma atitude filosófica já conhecida nas
velhas Ásia e Grécia, mas entendida apenas no campo da
teoria do conhecimento. Defendia a inacção, a negação da
Vida, a anulação do indivíduo, a sua dissolução no Nada.
Há, aparentemente, uma certa analogia com o Budismo.
Mas, neste, o indivíduo procura a sua dissolução no
Absoluto, para se integrar na verdadeira Vida, e não
para deixar de fazer parte integrante dela. Isto é:
enquanto no Budismo a dissolução é uma sublimação, no
Nihilismo é apenas uma negação, uma anulação, o Zero – e
não o Infinito. Atitude de inacção, o Nihilismo
apareceu, no entanto, no Séc. XIX, como posição moral no
campo das ideias políticas. Caracterizou-se,
inicialmente, por uma crítica pessimista da organização
social, dado que esta contrariava os direitos do
indivíduo e as tendências sãs da sua condição natural.
Da recusa sistemática de qualquer coacção exercida sobre
o indivíduo, à acção contra os presumíveis autores dessa
coacção, a distância era mínima, e depressa foi
franqueada. E, assim, a partir de 1875 havia já um grupo
terrorista que se intitulava Nihilista.Segundo o Prof.
Ronald Hingley, especialista em história russa, as
características de nihilista daquela época eram: ser
estudante, usar vestuário excêntrico, cabelos compridos
(os homens) ou curtos (as mulheres), preconizar e
praticar o amor livre, ser materialista, ateu, e crer na
felicidade da humanidade. É fácil encontrar muitos
pontos de contacto destes Nihilistas, quer com os jovens
contestastes de hoje, quer com os Beatniks e Hippies.
Dostoiewsky (1821-1881)
Dostoiewsky foi também considerado um dos precursores do
Nihilismo. Profundamente humano, integrando-se nos seus
personagens, cuja análise psicológica levava a grandes
profundidades, os seus livros são verdadeiras mensagens
cristãs, de amor ao próximo, de solidariedade para com
os que sofrem, para com os que erram – ele próprio muito
errou – e simultaneamente da condenação do gosto do
domínio. São suas as palavras: «A liberdade é a marca de
Deus no homem». Pela sua vida, impregnada de aventura e
dramatismo, e pela sua obra, Dostoiewsky influenciou
profundamente as gerações posteriores.
Tolstoi (1828-1910)
Tolstoi foi um revolucionário movido pelo amor ao
próximo, de que toda a sua obra está impregnada. Como
revolucionário, escreveu palavras cuja actualidade é
flagrante, como estas: «O estudante está no seu direito
de recusar as formas de educação que não satisfaçam os
seus instintos, já que a liberdade é o único critério».
A sua influência no dia de hoje é amplamente traduzida
no facto de haver uma comunidade hippie nos EUA que
adora Cristo, Gandhi e Tolstoi.
Nietzsche (1844-1900)
Nietzsche foi influenciado toda a vida pela fragilidade
da sua saúde, e, a partir de certa altura, por uma
desilusão amorosa. Segundo ele, o que assegura a Vida é
a Vontade de viver. Somente a vontade pode libertar o
homem. É a preponderância do espírito sobre o corpo,
sobre os males do corpo (fundamento, também, da
filosofia Ioga). Incumbe ao homem fazer uso da sua
vontade, para viver. A vontade da vida mais forte e mais
elevada, não encontra expressão numa luta miserável pela
existência, mas numa vontade de Guerra, de Poder, de
Conquista. Somente afirmando a sua vontade contra a
alheia dominação do Céu pode o homem, de direito
próprio, ser livre. E somente sofrendo as trágicas
consequências dessa afirmação pode desenvolver a força e
o valor da sua liberdade, pois a tragédia força a
vontade e transforma-a em poderoso instrumento do homem.
«Os apaziguadores, capazes de vender a sua humanidade em
troca de uma vida de resignação
complacente e falta de vontade» – devem ser
escorraçados. Na sua filosofia, Nietzsche divinizou o
homem olímpico, semi-deus, a cujos instintos naturais
nada se deve opor. O homem que vive para os outros é um
fraco, um degenerado. O ideal humano é o Super-Homem, o
egoísta assenhoreador que estende sobre os outros o seu
domínio. Nietzsche exerceu forte influência sobre o
nazismo, que nele assentou o seu princípio da «raça
eleita», perante a qual todas as outras se deveriam
curvar. Foi um demolidor, e dele se encontram vestígios
nos «gangs» juvenis tipo «Blusões Negros», «Anjos do
Inferno» ou outros, com as suas motos super-potentes que
passam por cima de tudo e de todos, e nos anarquistas
adulterados que vêem no anarquismo apenas uma forma ou
um pretexto de destruição.
Lenine (1870-1924)
Revolucionário nato, Lenine tentou pôr em prática as
doutrinas de Hegel e de Marx. Interpretando o conceito
de Clausewitz, segundo o qual «a guerra não é mais do
que a continuação da política por outros meios», Lenine
apresentou-o sob a forma: «A paz não é mais do que a
continuação da luta por outros meios». Veio a tornar-se
o grande doutrinador do comunismo, inicialmente limitado
à Rússia, mas, a breve trecho, orientado para todo o
mundo. Primeiro chefe do governo russo saído da
Revolução de Outubro, Lenine foi um idealista, mas ao
mesmo tempo um visionário e um homem de acção; aliando a
subtileza, a análise fria e um maquiavelismo acentuado.
Disse ou escreveu, por exemplo, o seguinte: «A Política
é uma ciência exacta»; «A ditadura do proletariado é uma
luta encarniçada e sangrenta, violenta e pacífica,
militar e económica, contra as forças e as tradições do
Velho Mundo»; «A nossa moral deve ser completamente
subordinada aos interesses da luta de classes. Para isso
é necessário estarmos prontos a usar todos os
estratagemas, a astúcia, os métodos ilegais, e decididos
a calar e a esconder a verdade. A moral comunista é tudo
o que serve os seus desígnios»; «Dentro de 50 anos, os
exércitos não terão mais necessidade de se bater. Nós
teremos minado suficientemente os nossos inimigos para
que não seja mais necessária a intervenção militar». O
programa subversivo e revolucionário de Lenine tem vindo
a ser integralmente cumprido, e é nítido, por exemplo, o
apodrecimento do Ocidente, ainda que por algumas razões,
também, que Lenine não visionou. Mas Lenine permanece
vivo como símbolo e como continuador de Marx. Daí o uso
da expressão marxismo-leninismo. A sua influência,
nítida nas revoluções chinesa, cubana e vietnamita, é
nítida, igualmente, nos grupos da extrema-esquerda de
hoje, em particular no nível estudantil. Os painéis com
a figura de Lenine figuram sempre em locais onde a
agitação estudantil atinge maior violência.
Gandhi (1869-1948)
Formado em Direito em Londres, Sandhi fundou em 1921 um
movimento, com vista a levar a Inglaterra a conceder a
autonomia à índia. Esse movimento tinha a designação de
Satyãgraha (Amor à Verdade): «A minha religião baseia-se
na verdade (Satyã) e na não-violência. A verdade é o meu
Deus, e a não-violência é o meio de alcançá-la.
Não-violência é um estado positivo do amor, de fazer o
bem mesmo àquele que pratica o mal. É a maior força
disponível da humanidade,mais poderosa do que a mais
poderosa das armas destrutivas». Em 1929 foi eleito
presidente do partido então formado, o Congresso
Nacional Indiano, que veio a conduzir o país à
independência, atrasada pela guerra 1939-45. Através da
não-cooperação, da desobediência civil, da resistência
passiva, do não pagamento de impostos, Gandhi
transformou numa força poderosa um movimento
não-violento. Fez voto de pobreza, envergando apenas uma
túnica branca grosseira e sandálias. E utilizou com
frequência o jejum como arma política. Foi morto em
princípios de 1948 por um fanático, talvez por ter
pugnado pela emancipação social dos Párias, dos
Intocáveis. Gandhi é um dos Profetas preferidos dos
Hippies, incluído na trilogia básica destes, que, como
se viu, inclui Buda e Cristo.
Trotsky (1879-1940)
Tal como Lenine, foi um revolucionário nato. Após a
morte de Lenine, a sua velha rivalidade com Estaline
intensificou-se, e levou-o a exilar-se no México, onde
foi vítima de um atentado em 1940. Trotsky simboliza
hoje o revolucionário puro, imaginativo, dinâmico e
generoso. E o seu exílio e a sua morte trágica
reforçaram o seu valor como símbolo. Nos movimentos da
extrema-esquerda da juventude de hoje há sempre grupos
que se intitulam trotskistas – que se opõem aos Partidos
Comunistas, associados à ditadura estaliniana, símbolos
do monolitismo, da intolerância e da falta de ideal.
Jean-Paul Sartre (1905 a .)
Marxista convicto («Para nós, o marxismo não é somente
uma filosofia; é a atmosfera dos nossos dias, o meio em
que nos alimentamos»), assumiu sempre posições políticas
que normalmente provocavam conflitos com o PC Francês.
Filósofo, escritor, dramaturgo, professor, foi o autor
da filosofia conhecida por Existencialismo Ateu. Segundo
esta doutrina filosófica, o homem não é mais do que o
que ele próprio se faz. Deus não existe, e portanto tudo
é permitido. Não há desculpas para o homem. Escolher ser
isto ou aquilo é afirmar ao mesmo tempo o valor do que
escolhemos. E o que escolhemos é sempre bom para nós; e
nada pode ser bom para nós sem que o seja também para
todos. Só há realidade na acção. O homem não é senão o
seu projecto, só existe na medida em que se realiza; não
é, portanto, mais do que o conjunto dos seus actos. Por
outro lado, o homem não está fechado dentro de si mesmo,
mas sempre presente num universo humano. É procurando
sempre fora de si que o homem se realiza como ser
humano. O homem é a existência no momento presente.
Sartre influenciou fortemente intelectual e
politicamente, as gerações do após guerra, dada a sua
múltipla qualidade de intelectual, filósofo, político,
professor e herói da Resistência. As suas ideias
filosóficas conduziram ao clima de sofistificação que
teve o seu centro nos cafés e caves de Saint Sermain-des-Prés,
onde se juntavam os jovens intelectualizados que foram
os precursores dos Beatniks, vestindo à vontade, usando
cabelos compridos e cantando canções diferentes, num
ambiente saturado de fumo de cigarros e ensimesmamento.
Em toda a agitação estudantil em França, Sartre tem
procurado, por um lado, manter-se a par da evolução da
situação, enriquecendo a sua experiência de professor e
filósofo, e, por outro lado, manter a sua influência,
misturando-se com os contestatários, apoiando-os,
estabelecendo diálogo público com eles. Mas é
considerado ultrapassado pela grande massa da nova
esquerda.
Herbert Marcuse (1898 a .)
Alemão de origem judaica, formou-se em Filosofia, tendo
a sua tese versando Hegel. No ano em que se formou
deu-se o advento do nazismo, o que o levou a fugir para
a Suiça, onde exerceu o magistério durante um ano. Em
1934 foi para os EUA, e de então para cá tem exercido o
magistério de Filosofia, Sociologia e Economia Política
em universidades americanas, alternando com alguns
períodos em Paris e 10 anos na Secção da Europa Oriental
do Departamento do Estado. Publicou em 1941 o livro
«Razão e revolução: Hegel e a teoria social», em que
estabelece a ligação entre a filosofia hegeliana e a
Revolução Francesa (ligação entre a Filosofia e a
Política). Nas suas obras posteriores, sobretudo em
«Eros e a civilização» (1955) e em «O homem
unidimensional» (1964), fez uma reinterpretação de
Freud, depois uma correcção às teses de Marx, e
finalmente uma crítica aquilo a que chamou a «Sociedade
de Consumo». Publicou, ainda, outros trabalhos e livros,
como «O fim da utopia» (1968). Segundo Marcuse, o homem
deve libertar-se na pureza inicial dos seus instintos,
já que está determinado constitucionalmente pelo
princípio da Vida (Eros) e pelo da Destruição (Thanatos).
Toda a moral, social ou individual, que não seja a plena
satisfação de tais impulsos, terá um carácter
repressivo. Por outro lado, e ao contrário de Marx, o
qual declarava que a transição da vida social e da
sociedade para a felicidade eterna da liberdade total
teria que ser feita sob a lei de uma ditadura
temporária, Marcuse proclamou a necessidade de uma
liberdade imediata de acção, e por isso nega a
necessidade de uma fase intermédia, ainda com leis e
governação.
Segundo Marcuse, e ao contrário também do que Marx
afirmava, já não é a classe operária a designada pelo
destino, na sua qualidade de oprimida, para levar a cabo
a Revolução. Os operários dos países industrializados
foram arrastados pela miragem dos bens de consumo e
constituem hoje uma burguesia. Portanto, só podem fazer
a Revolução aqueles que são excluídos deste mundo de
motores e de conforto, ou que a si próprios se excluem:
as massas miseráveis dos países subdesenvolvidos, as
minorias intelectuais, os negros americanos. A
tecnologia das sociedades avançadas permitiu-lhes
eliminar a luta de classes, pela assimilação de todos
aqueles que em anteriores formas de sociedade forneciam
as vozes e as forças de contestação. Satisfazendo o
homem, as suas razões de protesto são removidas, e ele
torna-se o instrumento do sistema dominante. A Sociedade
de Consumo, portanto: Satisfaz necessidades que, de
outra forma, levariam a protestos; Identifica as pessoas
com a Ordem estabelecida. O usufruto dos confortos
materiais tende a enfraquecer quaisquer impulsos com
vista à autodeterminação. A felicidade que o homem passa
a usufruir não é, pois, a verdadeira felicidade, porque
o limita, porque o amarra, ao passo que a verdadeira
felicidade é a libertação total. Há necessidades reais e
necessidades falsas. As falsas são as que são impostas
ao indivíduo por interesses particulares interessados na
repressão dele. É o caso das vantagens materiais. Mas as
pessoas não são, necessariamente, elas próprias, os
árbitros daquilo que realmente precisam. Numa sociedade
como a nossa, as pessoas não são livres. E portanto não
são felizes, ainda que julguem sê-lo. Neo-freudiano,
marxista, beneficiando da sua dupla posição de europeu e
americano, de professor no Velho e no Novo Mundo,
Marcuse, não obstante as suas teorias serem discutíveis,
tornou-se um verdadeiro profeta de certas facções da
juventude actual, sobretudo universitária, e serviu de
base a agitadores juvenis que actuaram em Berlim, em
França e nos EUA. Nos incidentes de Maio de 1968 em
França, e na própria filosofia dos Hippies, há muitos
traços da filosofia marcuseana, quer no que respeita à
crítica da sociedade dos países industrializados, quer
no que se refere à intenção de transformar os estudantes
numa nova classe social, em detrimento da classe
operária. Os críticos de Marcuse acusam-no de «aliar
maquiavelicamente Freud e Marx».
Henry Miller (1891 a .)
As suas obras, impregnadas de sexualidade, erotismo e
pornografia, recheadas de palavras obscenas,
influenciaram poderosamente as gerações das décadas de
50 e 60, e de um modo muito especial os Beatniks.
John dos Passos (1896-1970)
Escritor anticonvencionalista, quer na forma de escrever
quer na de apresentar os seus textos, alternando o texto
com desenhos cheios de humor, modificando o tamanho e o
tipo das letras conforme o impacto que pretendia criar,
tornando mais vivo o texto, John dos Passos deu um passo
decisivo para a libertação das peias convencionais.
John Steinbeck (1902-1968)
Escritor dos humildes, dos alienados da sociedade,
Steinbeck marcou uma posição indiscutível na literatura
americana e até mundial, não só pela sua apologia dos
deserdados, visando minorar a sua situação material,
como foi o caso do seu livro «As vinhas da ira», como
também pelo carinho, pela ternura como traçou esses
pobres, os alienados, por vezes os anormais,
apresentando-os como seres profundamente humanos e
cheios de interesse – caso dos seus livros «Pastagens do
Céu», «Bairro de lata», «Um dia diferente», etc.
Steinbeck foi um Charlot da prosa, fazendo surgir a luz
do sorriso e até do riso na escuridão do drama pungente.
O seu inconformismo atraiu sobre si a atenção das
gerações de 50 e de 60, influenciando-as no sentido de
um espírito de solidariedade para com os marginalizados.
Che Guevara (1928-1967)
Nasceu em Buenos Aires, de família rica. O pai era
arquitecto. Matriculou-se em Medicina, mas, não se
conformando com a atmosfera política do país,
abandonou-o, propondo-se percorrer toda a América do Sul
em bicicleta. Em 1954 estava na Guatemala, e tomou
parte, ao lado dos operários, no golpe de estado que
depôs o presidente. Refugiou-se depois no México, onde
veio a conhecer Fidel de Castro, o qual preparava a
invasão de Cuba e com o qual se ligou fortemente com
vista à realização de tal empresa. Dedicou-se, então, ao
estudo teórico e prático da técnica de guerrilhas, e em
Dezembro de 1956 fez parte do grupo de 80 homens que
desembarcaram em Cuba e se tornaram o fulcro dos
elementos que, com base na Sierra Maestra, vieram a
derrotar o governo e a apossar-se do poder. Foi, depois,
presidente do Banco Nacional e Ministro da Indústria,
chefiando ao mesmo tempo o partido único oriundo da
revolução. Incompatibilizando-se, então, com Fidel de
Castro, deixou Cuba, passando a levar uma vida errante e
misteriosa. E em Março de 1965 desapareceu, tornando-se
uma figura lendária sobre cuja morte ou cuja vida
corriam as mais desencontradas versões. A verdade é que
procurava levar a Revolução a toda a América latina. Em
1967, localizado na Bolívia com um grupo de
guerrilheiros, foi ferido, capturado e depois morto.
Opondo-se ao conceito soviético, segundo o qual a luta
armada só deve ter lugar, se tiver, depois de uma
adequada mobilização e doutrinação das massas, Guevara
defendia o ponto de vista de que as massas não têm,
hoje, possibilidades de se opor às forças da ordem, e,
por isso, haveria que organizar grupos de guerrilheiros
muito mentalizados, muito bem armados e resolutos, que
levassem os habitantes hesitantes, temerosos ou apáticos
a decidirem-se a apoiar a luta.
A sua actuação no continente sul-americano valeu-lhe o
afastamento da Rússia e até da China, pelo que se
encontrava isolado quando morreu. Homem de ideal e de
acção, com um aspecto jovem, Guevara entrou na lenda
mesmo antes de morrer. E, pela sua vida romanesca, pelo
seu esforço infatigável, pela sua ousadia, pela sua
valentia, até pelas circunstâncias da sua morte,
tornou-se um ídolo e um profeta da juventude ligada às
esquerdas ou extremas-esquerdas, e o seu retrato, em
cartazes enormes, está difundido por todo o mundo.
Rudi Dutzschke (1943 a .)
Nasceu em Berlim-Este, filho de um carteiro prussiano.
Aos 17 anos ingressou nas «Juventudes comunistas», mas
no ano seguinte (1961), não se conformando com o
alistamento obrigatório para o serviço militar, fugiu
para o sector ocidental, e resolveu estudar Sociologia.
Marxista, mas desligado de Moscovo e de Pequim, fundou
em Berlim-Oeste a «Liga Socialista dos Estudantes»,
apenas com 3000 membros, mas muito activos. Os seus
adeptos tinham como grito de guerra: Ho-Che-Du (De
Ho-Chi-Min, Che Guevara e Du Tzschke). Fomentador da
agitação estudantil no sector ocidental de Berlim,
entrou em conflito declarado com o jornal Das Bild (4
milhões de ex.), exigindo a nacionalização deste e a sua
transformação em cooperativa operária. Este jornal
condenava a carácter violento da contestação estudantil.
Na Páscoa de 1968 Rudi (conhecido entre os seus
adversários por "Rudi-O-Vermelho" foi alvo de um
atentado a tiro, por parte de um jovem da
extrema-direita. Atingido com 3 balas, foi internado no
hospital. E entrou na lenda. Tornou-se um mártir, um
herói, um símbolo. O seu retrato passou a enfileirar com
os de Guevara, Mao, etc. No dia seguinte ao do atentado,
o edifício do jornal foi saqueado por estudantes
enfurecidos, que durante mais de uma semana se
dedicaram, depois, a manifestações violentas. Rudi foi
depois para a Inglaterra, a pretexto de tratamento. Mas
só foi autorizado a permanecer neste país com a condição
de não participar em actividades políticas. Terminado o
tratamento, foi autorizado a matricular-se em Cambridge.
Não respeitou, porém, as condições impostas e por isso,
em Janeiro de 1971, foi considerado indesejável pelo
Governo inglês, e convidado a abandonar o país. Rudi
argumentou que o debate público de problemas políticos
não constituía actividade política, mas os seus
argumentos foram rejeitados e a sentença mantida. Em
meados de Fevereiro seguinte mudou-se para a Dinamarca,
onde foi autorizado a permanecer temporariamente e a
exercer, até, as funções de assistente em uma
universidade. É fervoroso adepto das teorias de Marcuse,
denunciando ferozmente a «Sociedade de Consumo» e as
«Glórias Estabelecidas». Palavras suas: «Trata-se, para
nós, de não aceitar mais um mundo que fala de paz mas
tolera a guerra, um mundo que fala de liberdade mas
aceita as hiprocrisias do Capitalismo, que fala de
progresso mas suporta a asfixia da burocracia
comunista».
Daniel Cohn-Bendit (1945 a .)
Nasceu em França, de um casamento franco-alemão.
Matriculou-se em Sociologia na Faculdade de Nanterre,
perto de Paris, onde era tido como um aluno brilhante.
Organizou um grupo da extrema-esquerda, muito activo,
mais tarde chamado «Movimento do 22 de Março», por
analogia com o movimento que levou Fidel de Castro ao
poder em Cuba. E escreveu então, entre outras coisas, um
panfleto que advogava a violência como única forma de
procedimento. São palavras suas: «Há 3 temas
permanentes: a luta contra a repressão, contra a
autoridade e contra a hierarquia. E como estes três
fenómenos se encontram tanto a Este como a Oeste, a
minha oposição às formas de organização das sociedades
de Este e de Oeste é total»; «A tese de Mao sobre os
camponeses foi sempre uma tese anarquista. Mas agora
fizeram de Mao um mito, e não me interessa dialogar
sobre o mito de Mao, sobre o livrinho vermelho, etc»;
«Marcuse é, para nós, um ponto de apoio»; «Sartre é o
após-guerra. Nós estamos já noutro estádio»; «Rousseau é
um pensador que nos influencia»; «Os trabalhadores, os
camponeses, formam uma classe e têm interesses
objectivos. As suas reivindicações são claras e
dirigem-se ao patronato, aos representantes da
burguesia. Mas os estudantes? Quem são os opressores
senão o Sistema? O Sistema é que é violento, a Sociedade
é que é violenta». Os objectivos de Cohn-Bendit são:
Construir um estado social que não reconheça governo,
exército ou religião; Abolir o casamento, civil ou
religioso; Eliminar todas as fronteiras entre países.
Cohn-Bendit foi o elemento preponderante da «Revolução
de Maio» em França, e deslocou-se a vários países da
Europa, em missão de agitação estudantil. Escreveu,
entre outras obras panfletárias, um opúsculo intitulado
«O esquerdismo, remédio da doença senil do Comunismo»,
em oposição a um opúsculo de Lenine intitulado
«Esquerdismo, doença senil do Comunismo». Cohn-Bendit,
tal como Rudi Dutzschke, ultrapassou já as fronteiras da
idolatria para se tornar um profeta da juventude da nova
esquerda.
4. CARACTERÍSTICAS DE VÁRIOS MOVIMENTOS
Os Beatniks
A palavra Beatnik tem a sua origem, segundo parece, em
«Beaten»-Batido; segundo alguns, no entanto, deriva de
«Beat»-Bater; finalmente, outros consideram-na uma forma
contraída da palavra Beatitude. Talvez resulte, mesmo,
do conjunto de todas estas ideias, em que o «Beaten» tem
um sentido activo, como foi, por exemplo, o caso dos
nossos «Vencidos da Vida». O movimento Beatnik nasceu
nos EUA após a 2ª guerra mundial, talvez em Nova York,
por volta de 1950, pela mão de jovens veteranos do
exército americano inspirados nos existencialistas de
Paris.
Foi um movimento intelectualizado de protesto contra os
convencionalismos, no período de distensão e da
reconstrução do após-guerra. Não tinha carácter político
ou de reinvindicações sociais. Os seus elementos eram
artistas revoltados contra a «standardização» da
sociedade americana. Amalgamavam os preceitos do Ioga, a
não-violência de Gandhi e os princípios do Evangelho,
mas modificando-os a seu modo, por forma a justificarem
os excessos sexuais e o uso de drogas. Anti-racistas,
apóstolos da não-violência, e, como tal, partidários da
paz, um pouco contemplativos, um pouco vagabundos,
descalços, barbudos, de cabelos compridos, vestindo
«blue-jeans» e de guitarra a tiracolo, corriam o mundo
expondo e vendendo as suas pinturas, fortemente
influenciadas pelo expressionismo abstracto, onde
predominava a cor negra. Pelo seu vestuário e hábitos,
em contradição permanente com os usos da época presente,
tinham a preocupação de exprimir o seu profundo
desacordo com uma civilização que, a seu ver, apenas
considera o indivíduo em função do seu poder de compra –
influência nítida das teorias de Marcuse.
Tinham uma mentalidade cinzenta, que se exteriorizava
num «jazz» progressista, cerebral, frio, introvertido.
Foi, a princípio, uma contestação idealista. Com eles
nasceu a palavra «Happening». O «happening» é algo que
desconcerta: tomar banho numa fonte pública, instalar
uma cama no meio da rua, etc. Não há cenário. A coisa
«acontece», produz-se, e tanto pode acontecer no meio de
uma sala como no meio da rua ou à beira-mar. Os
intervenientes fazem qualquer coisa, pouco importa o
quê, mas provocante, que se transforma num acontecimento
real. Os Beatniks foram divididos pelos estudiosos em
três correntes diferentes.
Up Beatniks: Protestam de maneira construtiva contra a
ordem actual, contra o sistema, as inibições e as
proibições ultrapassadas, as maneiras de agir
tradicionais, os interesses limitados, a adesão a normas
estéticas estereotipadas, etc. São jovens que pretendem
de facto explorar novos meios de expressão, tanto na
música como na dança, no teatro ou nas artes
decorativas. Buscam um novo tipo de relações entre os
homens. Procuram antecipar uma vida futura mais
interessante, mais variada, mais satisfatória. Muitos
são bastante inteligentes e de cultura vasta. Gostam de
entrar em debate. Incomodam geralmente o poder
constituído, mas a sua seriedade é indiscutível e a sua
acção tem possibilidades de resultar.
Down-Beatniks: Mais arrogantes, mais negligentes quanto
à higiene e forma de vestir do que os anteriores,
protestam mas não de maneira construtiva, porque não
sabem definir soluções de alternativa. Protestam por
puro espírito de contestação.
Off Beatnicks: São as «ovelhas ronhosas»: refugiam-se no
álcool, na droga e no vestuário extravagante.
Algumas frases de Beanicks: «A palavra Beat define um
estado de espírito privado de tudo quanto não é
essencial, receptivo a tudo quanto o cerca, mas alérgico
a toda a obstrução trivial. Ser «Beat» é estar no fundo
da sua alma, na espectativa»; «Se existe um Deus, não é
por certo uma máquina»; «Estamos convencidos de estar
integrados numa alma que participa de todo o Universo».
Os Beatniks foram fortemente influenciados por Rousseau,
John dos Passos, Steinbeck, e sobretudo por Henry
Miller.
Os Hippies
No Séc. XVII, os membros de uma seita religiosa
intitulada «Diggers» decidiram viver com os primeiros
cristãos, em comunidade, abolindo o dinheiro, sendo
afáveis para todos e fazendo da filantropia um
objectivo. Mas a sociedade puritana da época reagiu e o
chefe da seita foi queimado. Emmet Grogan, um dos mais
populares «Gurus» dos Hippies, disse: «Nós, os Diggers
de hoje, não teremos o mesmo fim porque os tempos são
outros». Esta palavra «Diggers» é aplicada hoje na
acepção de cadeias de solidariedade que nos EUA e no
Canadá ajudam os Hippies. Por alturas de 1960, Timothy
Leary, então professor da Universidade de Harvard, deu o
nome de Psicadélica ao conjunto dos efeitos coloridos
proporcionados pelo uso de uma droga designada
abreviadamente por LSD, droga que ele aconselhava aos
seus alunos. Daí a alcunha que lhe foi dada de «Avô da
LSD». Estas visões coloridas alargaram-se depois a
outros âmbitos: vestuário, pintura, cinema, etc. Leary,
preso e condenado, evadiu-se depois da penitenciária
onde cumpria a sua pena e encontra-se actualmente
[meados de 1971] na Argélia.
Os Hippies dos anos 60 são, pode dizer-se, os
descendentes directos dos Beatniks dos anos 50. Não
obstante, porém, as grandes diferenças entre uns e
outros e a metamorfose sofrida de um movimento para o
outro, certas características dos Beatnicks
mantiveram-se, como o pacifismo, o anticonvencionalismo,
a predilecção pela droga, as práticas sexuais livres, a
vagabundagem e um acentuado pendor para o misticismo
oriental. Pode dizer-se, talvez, que a divulgação do
movimento Beatnick pelos meios de comunicação com a
massa abriu o caminho à expansão da ideia e à sua
assimilação pelos jovens da classe média, dando origem
ao movimento Hippy. Na Primavera de 1965 assinalou-se a
deslocação a Londres de Allen Ginsberg, o poeta e
profeta oficial dos Hippies americanos, o qual fez uma
conferência no Royal Hall que se considera como tendo
dado início ao movimento Hippy na Inglaterra. Em 1966
reaiizou-se em S. Francisco o primeiro festival Hippy,
um festival-piloto que iria abrir o caminho a muitos
outros. Em Dezembro desse mesmo ano, e em resposta a um
apelo «Natal em Katmandu», lançado de Paris, cerca de
200 Hippies, idos de todo o mundo afluiram à capitai do
Nepal, onde nunca mais deixaram de estar. Mas a grande
arrancada deu-se no dia 15 de Janeiro de 1967. Na manhã
deste dia, uma cadeia de rádio de S. Francisco
transmitiu um apelo no sentido de os jovens comparecerem
no parque de Golden Safe, levando consigo trajos e
ornamentos exóticos e crianças. E juntaram-se para cima
de 10.000 (40.000 segundo certas versões), envergando
vestuários matizados, lenços ou fitas à volta da testa,
como os ciganos ou os índios americanos, flores,
campainhas, penas, colares, guizos, pandeiretas,
flautas, etc. Misturaram-se todos na relva, partilharam
a comida, agitaram bandeirolas, contemplaram as
brincadeiras das crianças ou dos cães, queimaram paus de
incenso, ouviram música e palavras do «Avô da LSD», do
«profeta Ginsberg», e ainda versos de Leonnore Kandei,
uma poetisa cujo livro «The love book» continha poemas
tão cheios de palavras obscenas que veio a ter todos os
exemplares confiscados. Em 17 de Junho realizou-se o
primeiro encontro de Hippies em Londres, a favor do
livre consumo da droga. Em 8 de Outubro estava previsto
o primeiro encontro de Paris. Impedidos de o fazer os
Hippies marcharam para a embaixada americana, em frente
à qual, silenciosamente, manifestaram a sua
solidariedade para com as vítimas do Vietnam. Não
obstante as tentativas de universalização do movimento,
os Hippies constituem, fundamentalmente, um fenómeno
americano, pois só nos EUA se reúnem as condições ideais
para isso: um clima favorável (Califórnia), uma
sociedade suficientemente rica para poder auxiliar quem
nada faz, uma industrialização de alto nível, um
problema racial grave, e uma guerra (Vietnam) a servir
de polarizador. Por outro lado, e não obstante o
movimento ter tido início, segundo se crê, em Nova York,
depressa deslocou o seu centro de gravidade para a costa
do Pacífico. E hoje são os Hippies da Califórnia que dão
o tom. O epicentro é o bairro de Haight Ashhury, em
pleno coração de S. Francisco, em cuja área já havia, em
fins de 1967, cerca de 50.000 Hippies.
O que caracteriza basicamente o movimento Hippy? As
seguintes atitudes: A negação de uma sociedade que se
baseia no trabalho («Trabalhar para viver e não viver
para trabalhar!»), na situação estabelecida e no poder
(«Abandona! Deixa a sociedade, tal como a conheceste!»);
O pacifismo, e, como corolário, a oposição ao serviço
militar («A guerra é deles, não nossa!»); A alegria de
viver, com base na recriação de um novo tipo de homem: o
que não possui nada, que vive em contacto com a
Natureza, com a qual se funde, e para quem tudo e todos
são irmãos; A criação de uma religião em que se caldeiam
todas as religiões, com um certo predomínio do
misticismo asiático e da filosofia contemplativa
budista; Proselitismo, cada Hippy deve catequizar os
outros («Liberta todos os burgueses que encontrares»); O
uso de drogas («Por meio da droga morre-se e
ressuscita-se»); A Psicadelia; A vida comunitária,
expressão máxima da solidariedade; A liberdade sexual, o
amor físico é uma coisa natural e como tal deve ser
encarado e praticado; A liberdade total, quer no aspecto
da propriedade («Nós somos como os ciganos: o que nós
queremos é não estar amarrados a nada!») quer no aspecto
das atitudes («Faz o que te apetecer, onde te apetecer e
quando te apetecer»); Indiferença total em matéria
política. A negação da sociedade em que viveram é feita
pelo desprezo dos seus costumes e dos seus códigos
morais. Os Hippies afastam-se de tudo o resto, tornam-se
ou consideram-se expatriados morais que permaneceram no
país. Tudo o que vestem ou usam deve obedecer a um
critério: nada deve parecer-se com o que os pais usam.
Daí as túnicas, os modelos de peles-vermelhas
americanos, os colares exóticos, até mesmo o uso de
antigas fardas da Guerra de Secessão, etc.
Em fins de 1967 os Hippies americanos começaram a
abandonar em grande número as cidades e a emigrar para
zonas rurais, adoptando, muitos deles, um modo de viver
privado de tudo aquilo que significasse conforto
material. Organizaram-se, segundo uma forma tribal
copiada dos índios americanos, em comunas rurais.
Reaprenderam, dessa forma, a viver em sociedade, mas
fora das leis que regem a sociedade oficial americana. E
assim nasceram muitas aldeias ou comunas rurais, «Drop
Cities», do Canadá ao México, abrangendo, em breve,
cerca de 600.000 jovens, na sua maioria oriundos da
classe média. Nessas comunidades cultivam vegetais,
adoptam um regime vegetariano e dedicam-se ao
artesanato. Para os Hippies que continuaram a viver em
cidades (em S. Francisco chegaram a ser 300.000 em 1967)
criou-se um conjunto de cadeias de solidariedade, os
Diggers, com aspectos que as situam entre o «Farrapeiro
de S. Vicente de Paula» e a «Sopa dos pobres». Por outro
lado, os grupos de música «rock» criaram um fundo comum
que permite manter restaurantes, mini-mercados e casas
de artigos de vestuário onde tudo é grátis para os
Hippies. Finalmente, abriram numerosas clínicas
gratuitas para socorro dos Hippies e foram criados até
mesmo serviços de apoio judicial para os Hippies em
dificuldades com a justiça. Os Hippies de Cidade
agrupam-se em casas que mais parecem colmeias, onde cada
qual entra ou sai sem dar contas a ninguém. Para seu
sustento, estes Hippies de cidade valem-se de processos
como: Neo-artesanato; Trabalho em part-time, em
correios, decorações, etc.; Mendicidade; Busca de restos
onde quer que os haja, sobretudo nas latas de lixo dos
mercados e restaurantes (em Amesterdão, Londres ou nos
EUA podem ver-se Hippies revolvendo estas latas).
As deficiências de toda a ordem que rodeiam a vida de
grande número de Hippies deram origem a um considerável
acréscimo de doenças, como a tuberculose, hepatite,
doenças venéreas, etc. Tal como se viu com os Beatniks,
não há um tipo uniforme de Hippy. Eles constituem uma
massa heterogénea que compreende jovens idealistas
pacifistas, jovens fugidos de lares destruídos,
desertores universitários, falhados do mundo do
espectáculo, neo-místicos, partidários do amor livre,
exibicionistas, actores de uma comédia da vida e
finalmente aqueles que se esquivam ao trabalho. Podem
considerar-se, de uma maneira geral, os seguintes tipos
de Hippies:
Hippies de rua: espécie de vagabundos, andam
constantemente à procura de qualquer coisa de
interessante, de uma sensação nova, e experimentam tudo:
drogas, sexo, inacção. Não têm filosofia bem definida, a
não ser a da negação. Sabem, no entanto, o que não
querem: a vigilância dos pais, os regulamentos
escolares, as intervenções da polícia, etc.
Hippies sedentários: são geralmente mais maduros, são já
capazes de formular a sua filosofia e as razões por que
se tornaram o que são. – Hippies de tribo: gostam de
pensar que criaram uma ramificação da sociedade
americana, tomando por modelo o índio americano do Séc.
XIX. São geralmente criadores, inteligentes e
instruídos. Têm em média 3 anos de universidade. Começam
geralmente por ser Hippies de rua, mas o seu talento e o
seu poder criador levaram-nos a fugir à vida de
ociosidade. São elementos de acção.
Há, por outro lado, Hippies de cidade e arredores, que
só em tal ambiente se sentem realizados; Hippies de
praia, de campo, de montanha, de deserto ou de rio; há
ainda Hippies isolados e Hippies de grupo. Há,
finalmente, Hippies permanentes e Hippies acidentais, ou
«de plástico», isto é, Hippies de momento, de
fim-de-semana, de férias, e que constituem uma grande
massa flutuante. Há grandes diferenças, além disso,
entre Hippies americanos da costa atlântica e da costa
do Pacífico. Os longos Invernos da costa oriental não
encorajam a vida ao ar livre, ao passo que a costa
ocidental é um verdadeiro hino à vida natural, com o seu
sol e a suavidade do seu clima. Este facto dá origem a
que, enquanto os Hippies californianos são
essencialmente excêntricos, os da costa oriental são
mais do tipo intelectual. De uma maneira geral os
Hippies são brancos, jovens entre os 14 e os 25 anos, e
oriundos da classe média. A sua idade, porém, tem vindo
a descer, e há uma verdadeira fuga ao lar, quase um
êxodo, por parte de jovens liceais, rapazes e raparigas,
apesar de lancinantes apelos por parte dos pais.
Os Hippies pregam o altruismo, o misticismo, a
honestidade, a alegria e a não-violência. Fazem tudo
quanto lhes agrade, apenas com a ressalva de não
prejudicarem ninguém. Buscam sensações e para isso
saturam-se de cor, de música, de ritmo, de luz, de
movimento, de sexo, até que os espíritos, com um
circuito eléctrico sobrecarregado, produzam uma
descarga. Condenam praticamente todos os aspectos da
vida americana, desde a política aos valores morais.
Revoltam-se contra a tradição ocidental e a sua maneira
de pensar, orientada para a produção, para o consumo,
para a solução prática dos problemas, para a obrigação
de haver uma finalidade para tudo. Eles entendem que
viver, simplesmente viver, é já uma finalidade
suficiente. Algumas frases de Hippies: «é preciso sentir
nas entranhas que os valores da classe média são todos
falsos, exactamente como a América enuncia a falsidade
do sistema comunista»; «A nossa revolução não é
violenta. É uma revolução de pensamento, da maneira de
viver e de conceber a existência. Revoltamo-nos contra
as máquinas e contra a tirania que nasce da utilização
delas. Queremos o regresso à Natureza total, aos
alimentos sãos e simples, ao campo»; «Antes de ser
presidente ou funcionário, é preciso ser Homem»; «Já não
se confunde conforto e felicidade. A religião
transformou-se num rito. A política é um jogo»; «Creio
que os meus pais foram bons para mim. Davam-me tudo o
que eu queria. Até um automóvel. Mas tudo me soava a
falso. Tudo girava à volta do dinheiro. A escola era
demasiado enfadonha. Eu tinha boas notas, mas tudo isso
me tolhia. Então um dia mandei tudo aquilo à fava». A
palavra-chave do Hippy puro é: Amor, Amor à vida, à
natureza, aos outros, à droga, ao sexo. Os Hippies
identificam-se com o sub-poder, o estropiado, o
criminoso, a reserva de caça. Adoram livros como o
«Robinson Crusoe», «As Aventuras de Tarzan», e outros.
Não admitem a existência de chefes: «Desconfiai dos
chefes, dos heróis, dos organizadores. Os bons chefes
não valem mais do que os maus. Quem quer que seja que
procure dirigir os outros é perigoso. Não existem bons
chefes». Têm, no entanto, os seus ídolos, os seus
profetas, os seus «Gurus» – como eles dizem. Têm, até,
os seus mártires. Todas as pessoas que, através da
História, contribuíram para mudar a ordem estabelecida
são Hippies honorários: Buda, Cristo, S. Francisco,
Lincoln, etc. E, assim, dizem por exemplo: «Jesus Cristo
foi o primeiro Hippy»; «Cristo era o tipo mais Hip do
Mundo. Tudo o que Ele fazia era Amor. Os Hippies apearam
Cristo do Seu pedestal, e vivem com Ele»; «Cristo e Buda
eram Hippies».
Mas os «Gurus» mais próximos são o «Avô Leary», Allan
Ginsberg – o poeta e filósofo oficial do movimento Hippy
americano – e Bob Dylan, intérprete de baladas de
contestação. E não deixa de ter interesse a síntese que
precisamente Ginsberg fez do movimento Hippy: «É uma
afirmação de Deus pela experiência individual do sexo,
das drogas e da loucura».
Um dos aspectos mais característicos do movimento Hippy
é o uso de drogas. As drogas tinham largo consumo nos
bairros negros americanos, como antídoto para as suas
condições sociais degradantes. A partir de 1950, porém,
a droga estendeu-se, em larga escala, aos brancos,
principalmente aos jovens, passando a constituir um
problema nacional, não só nos EUA como também entre os
combatentes americanos no estrangeiro, sobretudo no
Vietnam. Por que razão se drogam os jovens? Ouçamo-los
explicarem-se. «Achamos que a nossa parte interior,
espiritual, é muito mais importante que a física. É por
isso que a nossa atenção está sempre voltada para dentro
e não para fora. Estudamos a nossa mente; o corpo não
nos interessa. Por isso, muitas vezes somos obrigados a
usar a droga, para acelerar o tempo, para chegar mais
depressa. Poderíamos, de facto, atingir os nossos fins
sem utilizarmos a droga, mas seriam precisos 30, 40
anos. E não podemos esperar tanto. Basta um pouco de
Marijuana para, em meia hora, experimentarmos aquilo que
um homem santo hindu leva uma vida inteira a alcançar».
«Com a LSD as relações simbólicas mudam. Olhamos para a
nossa mão e ela parte em todas as direcções, perde os
contornos. As cores tornam-se maravilhosas, descobre-se
que o mundo é perfeito, mas que na maior parte do tempo
não podemos avaliar». «Nós tomamos a droga porque
gostamos e porque é uma maneira de dizer ao mundo adulto
que vá para o inferno». «O Ácido (LSD) é o caminho mais
curto para a realidade». «Os que tomaram a LSD a
princípio, sacrificaram-se. Mas estávamos de tal modo
atrelados ao materialismo, à loucura dos orçamentos e à
respeitabilidade, que se tornou necessária a LSD para
estilhaçar tudo isto e redescobrir o Amor». O «Avô
Leary» sintetizava os seus conselhos para o uso da
droga, da seguinte maneira. «Sede aquilo que sois. Se
não sabeis o que sois, descobri-o!». As drogas conduzem
as pessoas a mundos diferentes. Certas drogas, como a
LSD, provocam visões coloridas, psicadélicas. Daqui
nasceu a «filosofia psicadélica», que crê profundamente
que as ervas, grãos e sementes, assim como os compostos
químicos, conhecidos da humanidade desde a pré-história,
mas totalmente estranhos à sociedade ocidental, têm o
poder de revelar o indivíduo a si próprio e de
desenvolver as suas faculdades intelectuais,
diferentemente de estimulantes como a nicotina ou o
álcool. O uso de drogas tornou-se, para os Hippies, um
rito de purificação e de libertação: «A LSD é um
detergente do espírito. Remove as imundícies que estão
acumuladas no nosso cérebro. Temos a eternidade a nossa
frente». «Sinto pulsações planetárias nas profundezas de
mim próprio quando tomo a LSD». «Tudo o que ilumina é um
sacramento: a LSD, as cores, o sexo». «O nosso Deus, ou
a nossa noção de Deus, limpos de manchas do passado,
serão atingidos pela droga». A droga é, acima de tudo,
um pretexto, uma forma de procurarem o «país onde nunca
se chega», o reino do total esquecimento de si próprio,
uma espécie de Shangri-Lá do «Horizonte Perdido» de
James Milton. Sob o signo do Amor ou da droga, cada qual
transcende o seu próprio Eu, adquire uma consciência
cósmica, sente-se iluminado, funde-se com o Universo; é
o Universo. O apelo ao «Natal em Katmandu»,
anteriormente referido, atraiu numerosos Hippies ao
Nepal, crentes de que este país era uma espécie de
coração do Budismo, onde tencionavam ínformar-se sobre a
filosofia budista. Acontece, porém, que o Nepal é um
país essencialmente hindu, mas com uma minoria budista
que foi fortemente influenciada pela filosofia de uma
seita dissidente, a dos Tântricas, os quais revelam uma
analogia muito grande com os Hippies: também eles se
revoltaram contra a ordem estabelecida e renegaram a
sociedade; pregavam o uso da droga (Haxixe) para entrar
em transe; tinham relações sexuais livres; e procuravam
em si próprios uma espécie de poder interior. Ali se
fixaram muitos Hippies, e outros vão e vêm, seguindo a
«estrada do haxixe», com paragens em sítios como Argel e
Cabul (Afeganistão), vivendo de pouco, mas adquirindo a
droga por baixo preço (35$00 dão para uma semana).
Mendigam, repartem tudo entre si, vestem roupa imunda,
nunca cortam a cabelo, etc. Uns fixaram-se ali, outros
derramaram-se pela índia e vivem, por exemplo, nas
praias de Soa; outros, porém, adoecem gravemente, de
corpo ou de espírito, e são repatriados pelos
respectivos serviços consulares. Os que morrem são tidos
como «homens santos». A vida em grupo conduziu, em
muitos casos, à desinibição sexual absoluta. O sexo
acontece onde, como e com quem calha. Impregnam-se de
sexo, assim como se impregnam de droga. Os cartazes e os
slogans eróticos surgem por toda a parte, por vezes
associados a outras ideias, como em «Make love, not
war», já referido. Em muitas comunidades, os filhos não
pertencem aos pais, mas à comunidade, o que conduziu à
dissolução total da instituição Família de modelo
ocidental. A música psicadélica sofreu um impulso muito
forte com os Beatles, que, para além do seu aspecto
exibicionista, aproveitaram ritmos e harmonias da música
hindu, que estudaram em profundidade e que associaram à
vulgarização de um instrumento também hindu, a sitar.
Mas os Beatles eram ingleses. E os Americanos, desejosos
de fazer voltar para o Novo Mundo o testemunho do
movimento psicadélico, lá nascido e que sempre fora
essencialmente americano, ergueram em S. Francisco dois
verdadeiros «templos psicadélicos», o Fillmore
Auditorium e o Avalon Ball Room. Nestes «templos» há um
estímulo múltiplo e simultâneo dos vários sentidos:
ritmo, música, efeitos de luz e cores, queima de incenso
e sândalo, um fundo onde passam filmes eróticos ou com
colagens do mesmo tipo. Fuma-se Marijuana ou LSD. Há um
êxtase colectivo. Toda a gente «entra em órbita», se
funde, se transforma em cores, em sons, em aromas
penetrantes. Todos se sentem dissolvidos num cosmos
comum em que não há distinção entre o material e o
imaterial, entre o real e o imaginário. Os Hippies
dizem-se apolíticos, do mesmo modo que não aceitam
nenhuma das religiões existentes, só por si. E dizem: «A
religião tornou-se um rito; a política, um jogo. É o
vácuo moral total. A nossa civilização ocidental apenas
desenvolveu o plano material. Perdeu a sua alma». «Nós
não somos comunistas, porque o comunismo não é gratuito:
confisca a liberdade, em troca do que dá».
Como não-violentos que são, opõem-se à guerra, quaisquer
que sejam as razões que a originem. São, por isso,
contra a guerra no Vietnam. Partem do princípio de que
se toda a gente se recusar a fazer a guerra deixa de
haver guerra. No seio deles, porém, infiltram-se falsos
Hippies, neo-esquerdistas que procuram activar a massa
Hippy e politizá-la proclamando que «o poder das flores
não é capaz de deter o poder fascista». E tem havido,
por vezes, recontros com a Polícia, precisamente por
causa disso. Outras vezes formam-se grupúsculos
violentos de Hippies degenerados, como foi o caso de
Manson, ligado à morte trágica da actriz Sharon Tate.
Normalmente, porém, as grandes reuniões de Hippies não
acarretam problemas de ordem. A princípio, os polícias
americanos consideravam os jovens Hippies uns
desordeiros em potência, subversivos, e, na primeira
oportunidade, carregavam sobre eles. Mas não encontravam
resistência, e até mesmo, atónitos, verificavam que os
pretensos desordeiros opunham aos bastões ramos de
flores. Por tal motivo a atitude das forças da ordem
foi-se modificando, rumo a uma
melhor compreensão, na certeza de estar perante algo
muito diferente dos «gangs» destruidores ou de
manifestações contra a ordem.
Os Hippies americanos têm uma emissora própria que
difunde música continuamente. Publicam, igualmente,
jornais, como o «Free Press» de Los Angeles, o «Barb» de
Berkeley, o «Oracle» de S. Francisco, o «Avatar» de
Boston, etc. Os Hippies de Londres publicam por seu lado
o «International Times», que tem uma tiragem de 25000
ex. Periodicamente realizam-se grandes reuniões com uma
duração, normalmente, de 3 dias, a que acorrem Hippies
de todos os cantos do mundo. Em 1969, por exemplo,
realizou-se uma em Hide Park, na Inglaterra (120 000),
outra próximo de Nova York (250 000) e outra em Bethel,
também no estado de Nova York (400 000). Depois disso
houve grandes reuniões na Ilha de Wight, na Inglaterra
(200 000), em Roterdão, na Holanda, em Bath, também na
Inglaterra (150 000), em Monterey, na Califórnia, em
Woodstock, perto de Nova York, etc. Estas reuniões
realizam-se a pretextos vários. Assim, a de Bethel por
exemplo, destinou-se a «comemorar o advento da Idade do
Aquário». (Os Hippies debruçam-se muito sobre a
Astrologia). A de Woodstock teve em vista assinalar o
reaparecimento de Bob Dylan, após um grave desastre de
viação que o ia vitimando, etc. De resto, nestes
festivais são sempre apresentados os grandes ídolos
musicais dos Hippies, que se fazem pagar
principescamente, na ordem dos milhares de contos, cada
um. Estes festivais têm-se caracterizado pela ausência
de violência. Parte da assistência, porém, é constituída
sempre por curiosos ou por «Hippies de plástico». A
organização de tais espectáculos assenta numa exploração
comercial em grande escala, em que só os direitos de
filmagens ou de exploração jornalística são suficientes,
muitas vezes, para cobrir as despesas – restando aos
organizadores os lucros das entradas, das bebidas,
«sandes», cartazes, etc. Os Hippies criaram uma gíria
própria, ou adoptaram gíria já pertencente aos Beatniks,
a qual entrou na conversação do dia-a-dia americano.
Desse vocabulário se salientam, por exemplo: Be-In,
grande reunião de Hippies; Love-In, reunião durante a
qual se escutam prédicas e se pratica o amor livre;
Smoke-in, reuniões durante as quais se fuma droga;
Park-In, misto de piquenique e celebração; Happening,
reunião durante a qual «se passa qualquer coisa»; Hip,
Iniciado; Drop-City, Localidade comunitária de Hippies;
Digger, Organização de beneficiência Hippy; Vape, Estado
atingido depois da droga fazer efeito; Partir em Vape,
entrar em órbita, estar atingido pelo efeito da droga,
levantar voo, desembraiar, ir à Lua; Trip, viagem,
período durante o qual a droga faz efeito; Grass, erva,
marijuana em folha; Tea, chá, marijuana em líquido; Pot,
cigarro de Marijuana ou de Haxixe; Acid, ácido, LSD;
Guru, elemento que os Hippies tomam por modelo, mestre,
profeta, ídolo. Os Hippies têm sido motivo de acesas
controvérsias quanto ao perigo que são ou poderão vir a
ser. Para uns, são o sinal, de alarme de uma civilização
em decadência; para outros, são uns novos cristãos
primitivos, simbolizando, ainda que imperfeitamente, uma
nova civilização purificada. Segundo o Bispo da
Califórnia, por exemplo, «há nos Hippies qualquer coisa
de bom, uma doçura, uma tranquilidade, um interesse, que
os faz seres de qualidade». Em qualquer dos casos, pesam
já na vida americana, são algo de que se fala
constantemente e por isso susceptível de aglutinar
jovens. «Não-violentos apaixonados pela Vida», como se
dizem, o seu movimento alia, no entanto, certos aspectos
comuns a outros movimentos violentos de juventude, e por
isso a sua ingénua atitude apolítica vai favorecer,
muitas vezes, os movimentos neo-esquerdistas. Por outro
lado, os Hippies não manifestam qualquer intuito de
assumir o comando da máquina social. Marginalizaram-se,
apenas. Os mais inteligentes assim o reconhecem, mas
dizem que o movimento está ainda nos seus primórdios,
que procura abrir caminho e que depois se verá. Na
Europa, fora de Londres, Paris, Amesterdão, uma ou outra
cidade alemã e os países nórdicos, o movimento não tem
aderentes em número significativo. Os estudiosos do
movimento admitem o seu desmembramento em três
correntes: A primeira, resultante da decomposição na
vagabundagem e na droga, e constituída por infelizes de
olhar vago, alma vazia e roupa imunda; A segunda,
derivando para a revolta política, misturando o seu
comportamento habitual com actos de guerrilha urbana
ligados aos movimentos marxistas-leninistas; A terceira,
finalmente, vindo a constituir talvez um padrão
original, através de tentativas e experiências comunais,
aliadas a um sector neo-artesanal.
Os Provos
Em Amesterdão, na Holanda, nasceu um movimento misto de
Beatnicks e Hippies – os Provos (abreviatura de
«Provocadores»). Eram inicialmente jovens escritores,
intelectuais, estudantes, mais ou menos contra tudo e
contra todos. O seu programa era: Abolição da monarquia
na Holanda; Proibição da bomba atómica; Criação de zonas
sem fumo (não poluídas) e preservação dos edifícios
antigos; Atribuição à Polícia de novas funções (uma
espécie de assistência social, mais nada). Opunham-se,
segundo diziam, «ao Capitalismo, ao Comunismo, ao
Fascismo, ao Militarismo, ao Dogmatismo, à Propriedade,
à Burocracia, aos Automóveis e aos Pais». Protestando
por tudo e por nada, fumando Marijuana, escondendo
menores fugidos de casa, roubando discos, sujando as
praças públicas, os Provos procuravam, acima de tudo,
inventar as piores coisas para provocar as autoridades,
como, por exemplo, quando ameaçaram atirar ratos brancos
aos cavalos do cortejo real para a abertura do
Parlamento holandês, o que lançou as autoridades em
pânico. Dentro da sua maneira de ser, os Holandeses
aceitaram os Provos como uma corrente de opinião e até
mesmo um deles foi eleito, em Fevereiro de 1966, para o
Conselho Municipal de Amesterdão. Foi ele quem sugeriu
que fosse criado um serviço de bicicletas públicas,
pintadas de branco, que cada qual utilizaria e
abandonaria depois de utilizar. Foi criado para eles um
centro social, para convívio, para o qual as autoridades
contribuíram com meio milhão de francos. Foi-lhes ainda
dado um cinema e uma velha barcaça. O cinema foi
estreado com uma campanha de peças de carácter
contestatário e revolucionário; a barcaça foi incendiada
após uns incidentes. Os Provos provocam zagaratas de
tempos a tempos, atacando habitantes e destruindo o que
encontram. Assim, em Junho de 1966, numa manifestação em
que se propunham apoiar reivindicações de operários,
cometeram toda a casta de violências, desde partir
vidros de montras a incendiar automóveis. Nos fins de
1970 deram origem a uma forte reacção por parte dos
fuzileiros navais holandeses, que sobre eles carregaram
violentamente.
Os «Gangs»
Certo número de movimentos caracterizam-se pela sua
actuação em grupo, em bando organizado, e pela sua
aversão à ordem estabelecida, aos burgueses, e de um
modo muito especial aos polícias. A posição dos
elementos destes «gangs» é a de que «tudo é desprezível
nesta mundo podre. Por isso é preciso destruir tudo,
inclusive nós próprios, se necessário». Com violência,
insolência, desprezo pelo próximo, uma sensação de
solidão que só a vida em bando atenua, os «Gangs» de
jovens brotaram um pouco por toda a parte, criando
problemas a sua volta. Há, nos seus jovens componentes,
um misto de olimpismo e de desespero, de recusa da
sociedade e de fúria de viver essa mesma vida que
condenam ou que dizem condenar. Estes bandos têm nomes
vários em países vários, como: Teddy-Boys (Inglaterra,
Portugal, etc.); Ruckers, Mods (Inglaterra); Blusões
Negros (França); Hipsters (EUA); Vitteloni (Itália);
Halbstarken (Alemanha); Skinknute (Suécia); Anderumper
(Dinamarca); Nozum (Holanda); Houligans (Polónia);
Trostis (África do Sul); Stilliague (U.R.S.S.). Estes
«Gangs» aderem a tudo quanto seja
alteração da ordem pública ou agitação de jovens,
estudantes, operários, etc. Assim, durante a agitação em
Maio de 1968 em França, numerosos «Blusões Negros»
agregaram às barricadas. E quando lhes foi perguntado
porque o faziam, responderam: «Os Polícias, a vocês,
chateiam-nos só de vez em quando; a nós, é sempre. Não
se pode fazer nada sem os termos a perna. Hoje há muita
gente no barulho e por isso pode-se fazer-lhes frente!»
Os elementos destes bandos variam de qualidade, indo
desde os «meninos-bem», que formam os grupos de
«Teddy-Boys», aos filhos de lares desfeitos ou
infelizes, ou marginalizados por qualquer razão. Alguns
dos bandos têm como símbolos motos super-potentes, que
muitas vezes conduzem depois de se terem drogado, tal
como fazem os «Anjos do Inferno». Costumam também
misturar drogas diferentes e até combiná-las e
reforçá-las perigosamente com o álcool. Não são
crianças, ainda que pela idade o pudessem ser e o
devessem ser. São elementos normalmente precoces,
totalmente desajustados à sociedade e que transitaram
directamente de crianças a adultos. Entre os vários
«Gangs» apareceu até um, na Inglaterra, que hostiliza os
Hippies. São os «Skinheads», ou «Cabeças Rapadas». Usam
a cabeça rapada, botas de biqueira metálica,
«blue-jeans» muito justos ou calças de couro ou
bombazina, com suspensórios vermelhos, camisas de
algodão sem colarinho e samarra. O movimento nasceu no
Estado de Londres e é constituído por fracassados na
escola ou no trabalho. As poucas raparigas que delas
fazem parte usam o cabelo curto para manifestarem a sua
adoração pelo homem. Odeiam oficialmente os Hippies, a
quem agridem barbaramente quando encontram. Este
sentimento nasce de um ódio colectivo ao mais fraco, do
que não se defende ou não se pode defender: o operário
estrangeiro receoso de conflitos que conduzam à sua
expulsão; os imigrados de cor; os homossexuais; as
mulheres solitárias; os velhos. Desprezam as drogas, em
geral, mas exaltam o alcoolismo.
Outros movimentos
Foi já referido que por vezes se incrustam em núcleos
Hippies elementos que pouco ou nada têm de comum com
eles, elementos apologistas da violência, enfeudados a
grupos políticos da extrema-esquerda. O assassinato de
Sharon Tate e de seis outras pessoas, em Agosto de 1969,
foi obra de um grupo de falsos Hippies, chefiado por
Charles Manson, um fanático que conseguiu atrair para a
sua órbita um grupo de raparigas dispostas a tudo. Há
que não confundir estes elementos, estes grupos, com os
verdadeiros Hippies.
5. A DROGA
Glorificada no teatro («Hair», «Oh Calcutta!»), no
cinema («Easy Rider») e em inúmeras canções «rock», a
droga é, quase, um dos elementos da vida não só dos
Hippies como também de grande número de jovens
americanos. Calcula-se, por exemplo, que cerca de 6
milhões de estudantes americanos (30 a 50% da
totalidade) experimentaram já as drogas e o seu número
aumenta verticalmente, até mesmo porque os que o não
fazem se sentem marginalizados, tal como as raparigas
que não concedem liberdades aos rapazes com quem saem.
As drogas consumidas pelos jovens podem ser divididas em
quatro grandes grupos: Estimulantes simples;
estimulantes psicadélicos ou alucinogéneos; sedativos,
tranquilizantes e barbitúricos; e produtos voláteis
obtidos de hidrocarbonetos.
Estimulantes simples são fundamentalmente: Heroína,
alcalóide obtido do ópio, que aparece sob a forma de pó
solúvel em água, calcula-se que existem, só nos EUA, 100
000 viciados, entre os quais muitos jovens; Anfetaminas,
são estimulantes; Metadrina, droga conhecida entre os
jovens por «Speed», que poderemos traduzir por
«Acelerador»; Dexedrina, estimulante semelhante ao
anterior. Estimulantes psicadélicos ou alucinogéneos:
Cânhamo, drogas extraídas do Cânhamo (Cannabis sativa),
planta da família do lúpulo, têm um efeito que varia
conforme aquilo que se extrai da planta – o líquido ou
resina das flores femininas, das folhas, dos troncos,
das raízes, etc. – e conforme as condições climáticas da
região onde a planta se desenvolve; conhecem-se, pelo
menos, seis compostos que a planta contém e cuja
actividade provoca anomalias fisiológicas (torpor) e
psíquicas (desvios delirantes). O cânhamo era venerado
pelos Hindus, que lhe atribuíam um carácter sagrado,
pela sua acção inebriante. Com ele se teciam os cordões
da casta dos guerreiros. Queimado, produzia um fumo pelo
qual o deus Siva, responsável pelo poder destruidor e
regenerador, era ávido. E os Hippies têm procurado
manter este carácter sagrado da droga. O cânhamo, ou as
drogas dele extraídas, têm nomes diferentes conforme a
região ou o país donde provêm: Marijuana na América do
Norte, Maconha no Brasil, Haxixe no Norte de África e no
Médio Oriente, Ganja na índia, Liamba em Angola, etc. A
estes nomes correspondem características diferenciadas.
Pode dizer-se que, de uma maneira geral, o cânhamo se
encontra em todo o mundo. O seu uso na Ásia data, pelo
menos, de há 2.500 anos. Os índios da América do Sul,
designadamente os Incas, faziam largo consumo desta
droga. Vamos considerar apenas a Marijuana e o Haxixe,
por serem as formas mais vulgares entre a juventude
ocidental. Marijuana. Acarreta estados de angústia e
outras perturbações graves. Por outro lado, está provado
que os viciados de Heroína começaram por Marijuana.
Provoca «viagens» de 3 a 4 horas. Foi já obtida em
síntese, o que irá facilitar muito a vida dos fumadores,
por deixar de haver indícios reveladores, tais como
cinzas, pontas de cigarro, etc. A droga necessária para
25 a 30 cigarros (1 onça) custava 12 dólares em 1969 e
20 em 1970. Todos os Hippies usam Marijuana e estima-se
que 50% dos estudantes universitários da costa do
Pacífico, bem como muitos estudantes liceais, a usam
também. Conheceu também grande expansão entre os
militares americanos no Vietnam. Haxixe, é a pasta
concentrada, sem impurezas, e por isso muito mais
poderosa. Obtém-se normalmente através do Norte de
África. LSD é uma droga extraída do fungo do centeio,
provoca «viagens» de 8 a 12 horas e tem efeito sobre o
organismo mesmo depois deste ter eliminado a droga. A
certa altura da «viagem» torna-se difícil distinguir
entre controlar e ser controlado – sensação muito
familiar a orientais, africanos e índios americanos.
Actua sobre os cromossomas e influência os caracteres
hereditários. Foram já detectados casos de crianças
anormais nascidas de mães que se drogaram durante a
gravidez. É de fabrico fácil e pode ser obtida também
por síntese. 250 mg, suficientes para uma «viagem» de 1
dia, custam 2,5 dólares. Entra fraudulentamente nos EUA
via México, Inglaterra ou Checoslováquia, mas admite-se
que seja também produzida nos EUA pelos Hippies, que a
usam em grande escala. Tem efeitos desastrosos, mesmo em
quantidades mínimas. O governo americano tem feito ampla
divulgação dos efeitos perniciosos desta droga, reais ou
possíveis, o que tem dado origem a que os jovens, uma
vez experimentada a LSD, procurem agora outras drogas.
Mescalina é um alcalóide poderoso extraído de um cacto
mexicano, a Peyote, utilizado largamente pelos Incas. É
uma droga mais branda do que a LSD. Existe já em
síntese. É muito popular entre os Hippies e outros
jovens. DMT é um dos mais recentes alucinogéneos. Produz
efeitos semelhantes aos da LSD, mas com «viagens» de 15
minutos apenas. Tem um efeito rápido. Sob o seu efeito
os objectos parecem feitos de estanho esmaltado ou de
plástico, e por isso esta droga é conhecida também por
«boneca de plástico». Psilocibina é extraída de certos
cogumelos do México. É menos poderosa que a LSD, e com
«viagens» mais curtas. Dom ou STP, a designação mais
vulgarizada, nasceu da analogia com um aditivo de
gasolina. Os jovens traduzem estas iniciais STP por
«Serenidade, Tranquilidade e Paz». Vinhetas com estas
iniciais podem ser vistas em centenas de
automóveis, até em Portugal. É a mais recente e mais
poderosa das drogas psicadélicas, e uma só dose provoca
«viagens» de 3 dias. Não tem tido grande aceitação.
Sedativos, tranquilizantes e barbitúricos compreendem,
entre outros: Seconal, Nembutal, Luminal, Amital,
Fenobarbital. Estas drogas são normalmente mortais
quando absorvidas com bebidas alcoólicas. Calcula-se
existirem nos EUA 200 000 viciados de barbitúricos, além
de 25 milhões de pessoas que usam normalmente drogas
deste tipo.
Produtos voláteis extraídos de hidrocarbonetos. Os
jovens americanos procuram sensações através de inalação
de produtos tendo coma base, sobretudo, os
hidrocarbonetos voláteis, como benzina, gasolina de
isqueiro, acetona, dissolventes vários e sobretudo cola
sintética, utilizada na construção de modelos de aviões,
entre outras coisas. Em Maio de 1969, o chefe de uma das
equipas de prospecção sanitária de Montreal, no Canadá,
verificou que 13% dos jovens que lhe eram confiados
usavam regularmente a cola («glue») para se intoxicarem.
O arsenal de drogas de uso corrente ultrapassa já o meio
milhar e todos os dias surgem drogas novas ou formas
inovas de drogas antigas. Sobretudo produtos sintéticos.
As drogas simples são muito usadas, em grande
quantidade, por desportistas – é o conhecido «Dopping» –
estudantes em altura de exames, músicos – sobretudo os
de grupos «rock» – etc.
6. A AGITAÇÃO ESTUDANTIL NO MUNDO
Muito embora ao longo da História tenham existido
diversos períodos de desassossego juvenil, podem
considerar-se como marcos deste tipo de agitação os
acontecimentos seguintes:
Na Alemanha em 1848, estudantes de quase todas as
universidades alemãs revoltaram-se contra a ordem
estabelecida e fundaram «corporações», no seio das quais
se formou, um agrupamento cultural completamente novo,
constituído por jovens, com uniforme e terminologia
próprios, e adoptando determinadas posições sociais.
Esta revolta fez cair os regimes de várias dezenas de
reinos e ducados germânicos. Ainda na Alemanha, e após a
derrota de 1918, gerou-se em todo o país uma agitação
juvenil que congregou jovens alemães e austríacos. Tinha
em vista manifestar, inicialmente, uma viva desaprovação
do modo de viver que, a seu ver, teria levado à derrota.
Os jovens rebeldes adoptaram um certo número de
ideias-chave e de modos de vestir: música folclórica,
com a reaparição da viola, o desejo da paz, vestuário
especial, relaxamento de costumes sexuais, etc. Este
movimento possuía uma profunda corrente filosófica que
ia do socialismo utópico ao misticismo vegetariano.
Na Rússia os estudantes foram a chave de toda a agitação
anti-czarista, impregnada de idealismo e de
generosidade, que abriu o caminho à revolução
bolchevista.
Na Argentina em 1918, os estudantes da universidade de
Córdoba difundiram uma «mensagem aos homens da América
do Sul», que preconizava reformas sociais, políticas e
culturais, as quais só poderiam ser obtidas pela unidade
dos estudantes e trabalhadores, bem como pela
solidariedade dos países da América Latina. Algumas das
reivindicações, então formuladas, foram: Participação
dos estudantes no funcionamento das universidades;
Ausência de pressões políticas e religiosas sobre o
ensino; Transformação da sociedade, a fim de permitir
uma melhor ordem social que assegurasse o acesso de toda
a população à cultura.
Nos três exemplos referidos, entre muitos outros que
poderiam também ser citados, encontram-se semelhanças
flagrantes com aspectos da agitação estudantil de hoje.
Desde o fim da guerra 1939-45, porém, houve uma
verdadeira escalada da agitação – que se tornou global e
tem hoje o nome de contestação. A agitação juvenil, que
tinha fundamentalmente a forma de ausência ou não
participação, salvo em casos especiais, tornou-se hoje
uma vontade de intervir, o que explica o facto de grande
número de jovens se dizerem «chineses», maoistas,
castristas, «katangueses», etc, e renderem um verdadeiro
culto à figura de Che Guevara. Esta contestação tem
assumido as formas mais diversas e invocado os mais
variados pretextos, como por exemplo:
Turquia Dez67 – Manifestações contra a OTAN.
Bélgica Fev68 – Oposição dos estudantes flamengos à
existência de uma secção de língua francesa na
Universidade de Louvain. Queda do Governo.
Alemanha Ocid Ago62 – Depois da Polícia ter dispersado
um grupo de música rock, desencadearam-se em Munique
motins que duraram uma semana; Ago67 – Manifestações
contra a visita do Xá da Pérsia e, mais tarde, do
Vice-Presidente dos EUA.
Holanda Dez67 – Greve da fome de jovens, durante a
quadra do Natal, como protesto contra as festas
demasiado alegres, quando grande parte da humanidade
vive subalimentada. Cartazes dizendo: «Glória a Deus,
com peru no forno!»
França Nov67 – «Rallye contra a fome», como protesto
contra a fome no Terceiro Mundo.
Hungria Out56 – Resolução do Comité Central das
Organizações das Juventudes Comunistas, pedindo a
abolição do ensino obrigatório do marxismo-leninismo nas
universidades.
Checoslováquia Jun56 – Panfletos reivindicando a
liberdade de imprensa e a supressão das aulas
obrigatórias de marxismo-leninismo nas universidades.
Inglaterra – Manifestações contra a África do Sul,
contra a guerra no Vietnam, etc. Em 1964, actos de
vandalismo e lutas entre bandos juvenis, do género da
«West Side Story».
Suécia Dez56 – Durante vários sábados, grupos de jovens
entregaram-se a destruições na principal artéria de
Estocolmo.
União Indiana Dez69 – Manifestações violentas de jovens
contra a adopção do Hindi como língua oficial do país,
em substituição do Inglês.
Nos países africanos de recente independência –
Confrontação entre os que se bateram pela independência
(geração de heróis, militares ou políticos) e os que não
participaram dela e consideram aqueles ultrapassados.
EUA – Durante uma reunião de 10 000 professores do
ensino liceal, o Secretário do Estado para a Educação
declarou que os liceus americanos estavam em vias de
colapso, cujos sintomas, por demais conhecidos, eram a
violência, as greves e a droga. Só no ano de 1969
verificaram-se em liceus americanos 6000 incidentes
diversos: raciais, políticos, escolares, etc.
Seguem-se alguns dados que revelam, de forma clara, a
extensão dos incidentes ocorridos em todo o mundo
durante o último trimestre de 1967 e o primeiro semestre
de 1968, que culminaram com a «Revolução de Maio», em
França. Países onde se verificaram incidentes graves:
Europa (Alemanhas Oriental e Ocidental; Áustria;
Bélgica; Checoslováquia; Dinamarca; Espanha;
Grã-Bretanha; Grécia; Holanda; Irlanda; Itália;
Jugoslávia; Luxemburgo; Polónia; Portugal; Suécia;
Turquia; URSS; Vaticano). África (Argélia; Rep.
Centro-Africana; Camarões; Congo-Kinshasa; Daomé;
Egipto; Etiópia; Marrocos; Mauritânia; Senegal;
Tunísia). América (Argentina; Bolívia; Brasil; Chile;
Canadá; Colômbia; Cuba; Rep. Dominicana; Equador; EUA;
Guadalupe; Guiana; Haiti; México; Nicarágua; Peru;
Uruguai; Venezuela). Ásia (Afeganistão; China; Coreia do
Sul; União Indiana; Indonésia; Israel; Japão; Líbano;
Palestina; Síria; Tailândia; Vietnam do Sul). Pacífico
(Austrália; Filipinas).
O período 03Mai-18Jun68 correspondeu ao auge da agitação
em França.
7. A «REVOLUÇÃO DE MAIO» EM FRANÇA – 1968
Em Nanterre, nos arredores de Paris, num descampado
alternando com bairros de lata, foi construída (início
em 1963) a Faculdade de Letras e Ciências Humanas,
subordinada à Sorbonne, que, pouco após a sua entrada em
funcionamento, contava já 12 000 alunos. Os estudantes
de Psicologia e Sociologia, ao contrário dos outros, não
viam à sua frente um futuro definido, após o termo das
estudos, por se tratar de cursos novos. Estes factos,
aliados à própria natureza das matérias, deram origem a
uma apreciável irrequietude por parte dos estudantes dos
cursos referidos. Nesta Faculdade, um grupo de 300 a 400
estudantes da extrema-esquerda, grandes admiradores de
Fidel de Castro e de Che Guevara, participavam de um
movimento contra a «opressão da sociedade sobre a
juventude», sob a chefia de um estudante franco-alemão,
Daniel Cohn-Bendit, que num panfleto escrevia: «Nós
sabemos que toda a contestação global e coerente não
pode ser realizada senão pela violência: Comuna de 1871,
Outubro de 1917, Guerra de Espanha, Negros Americanos,
etc.». Na altura da inauguração da piscina da
Faculdade, em Jan67, Bendit havia dito ao Ministro da
Educação e Juventude, que ali se deslocara: «Eu li o seu
livro branco sobre a juventude: 600 páginas de inépcia.
O Senhor nem sequer falou dos problemas sexuais dos
jovens!». Em Novembro desse mesmo ano registou-se na
Faculdade uma greve feroz, enquanto na Faculdade de
Ciências a polícia era chamada a intervir, por causa de
300 estudantes que haviam bloqueado o Director no seu
gabinete. O «cavalo de batalha» oficial dos
contestatários de Nanterre teve como pretexto o facto de
o regulamento escolar proibir o acesso de rapazes aos
internatos das raparigas, muito embora não houvesse a
proibição inversa. Os contestatários exigiam, no
entanto, o direito de acesso aos internatos femininos, e
a qualquer hora do dia ou da noite. Tal pretexto, de
resto, não era inédito, pois que já havia sido invocado
para incidentes em universidades americanas. A dupla
nacionalidade de Bendit havia-o já tornado sensível aos
movimentos estudantis da Alemanha, que em 1967 haviam
conduzido à criação, em Berlim-Oeste, de uma
universidade rebelde, a «Universidade Crítica», e que,
na Páscoa de 1968, deram origem a uma verdadeira
revolta, após os incidentes em que esteve envolvido Rudi
Dutzschke. O primeiro objectivo de Bendit era a
politização da universidade, para que, em caso de
intervenção policial, ela servisse de fortaleza, de
reduto defensivo, como veio a acontecer. O Director de
Nanterre, herói da Resistência e esquerdista convicto,
concedeu então aos contestatários o direito à expressão
pública, no interior da Faculdade; e as paredes e
corredores encheram-se de jornais de parede, à maneira
chinesa, onde se atacava tudo quanto não fosse anárquico
ou da extrema-esquerda incluindo o próprio Partido
Comunista Francês (PCF). Foi igualmente autorizada a
cedência de salas e anfiteatros para reuniões de
carácter político, os quais seriam atribuídos dentro das
possibilidades e mediante pedido prévio. Mas os
revolucionários – pois que já então o eram
verdadeiramente – declararam que, quando tivessem
necessidade de uma sala, a ocupariam, mesmo que nela
estivesse a funcionar uma aula. Eles não queriam
concessões; queriam, sim, ser eles próprios a tomarem as
coisas por suas mãos. Tinha um impacto político
diferente.
Em 20 de Março os membros do MAU (Movimento de Acção
Universitária), da extrema-esquerda, ocupam abusivamente
um anfiteatro, para um debate, sem pedirem as chaves.
Acabam por sair, porém, sob pressão de enviados do
Director. Mas dois dias depois é posto a circular o
boato segundo o qual o Director havia elaborado e
distribuído listas negras com os nomes dos estudantes
mais rebeldes, a fim de serem reprovados pelos
professores. O Director desmente, mas em vão. De acordo
com a palavra de ordem de Bendit, segundo a qual «A
acção é a única forma de dominar a dispersão dos
estudantes em mini-grupos», bandos de jovens
extremistas, a si próprios chamados «enragés», armados
de paus e barras de ferro, atacam e ocupam os gabinetes
da administração da Faculdade. O Director chama a
Polícia, que restabelece a ordem. O movimento estudantil
muda então de nome, e passa a chamar-se «Movimento do 22
de Março», designação do género do movimento castrista,
em Cuba.
Em 26 de Abril um deputado comunista, convidado a falar
pela União dos Estudantes Comunistas, organização do PCF
no mundo estudantil, é impedido de o fazer, e expulso,
por extremistas da esquerda, que acenam com o livrinho
vermelho de Mao. Num outro anfiteatro, um professor é
impedido de falar por um revolucionário. Intervém
Cohn-Bendit, que restabelece a ordem a pretexto de o
professor em questão ser «um dos deles». O poder já está
nas mãos dos estudantes.
Em 29 de Abril, o Director da Faculdade oficia ao Reitor
da Sorbonne, solicitando que Bendit e 6 outros
estudantes sejam presentes ao Conselho Disciplinar. E 3
dias depois encerra a Faculdade. Pode dizer-se que foram
estes, no plano estudantil, os antecedentes de toda a
agitação que se seguiu, e que veio a tomar um carácter
insurreccional, e revolucionário, com a transferência do
centro de gravidade da agitação de Nanterre para a
Sorbonne. Em 2 de Maio, data em que, como se disse, foi
encerrada a Faculdade de Nanterre, o Reitor da Sorbonne
proíbe uma reunião em que deveriam falar estudantes
alemães, italianos e espanhóis.
No dia seguinte [03Mai68] Bendit discursa no pátio da
Sorbonne, inflamando a assistência, já então muito
excitada. E de Nanterre chegam estudantes armados de
paus e capacetes, que começam a partir o mobiliário.Às
15h30 o Reitor pede à Polícia que restabeleça a ordem e
o pátio é evacuado sem problema de maior. Mas a partir
das 19h20 os estudantes começam a manifestar-se nas
ruas, a pretexto da entrada da Polícia na Universidade
(o que já sucedera 17 vezes nos últimos 50 anos, sem que
daí resultassem manifestações na rua). Gera-se luta
entre estudantes e polícias e são presos 4 estudantes. A
Sorbonne é encerrada.
Em 6 de Maio, os 4 estudantes presos são condenados a
alguns dias de prisão, uma pena puramente simbólica, mas
que serviu de rastilho para a agitação. Todos os dias
afluem, agora, estudantes armados, a pedido dos chefes
da agitação. Nas casas da especialidade, as vassouras
esgotam-se. Os cabos delas eram excelentes armas.
Em 9 de Maio, o Conselho Escolar decide reabrir a
Universidade, mas o Ministro retarda o cumprimento da
decisão, o que serve de pretexto para a eclosão de novos
e graves motins, no dia seguinte. Há um círculo vicioso
permanente de agitação que dá origem a medidas
preventivas ou de repressão, e de aproveitamento
imediato destas medidas para agravar a agitação.
Utilizando compressores e outros processos, estudantes
levantam o pavimento e erguem 60 barricadas, onde cerca
de 10 000 rapazes e raparigas fazem a guerra toda a
noite. As barricadas chegam a atingir 3 metros de
altura, e nelas são colocadas viaturas, às quais os
rebeldes deitam fogo para retardar as cargas da Polícia,
ou que ardem em resultado das granadas lacrimogéneas ou
ofensivas lançadas pelos agentes da ordem. Não chega a
haver luta corpo a corpo, mas contam-se 367 feridos.
Numa viatura, dois chefes das minorias activas tentam
parlamentar com a Polícia: Alain Geismar, professor
assistente de Física e Secretário-Geral do Sindicato
Nacional do Ensino Superior, chefe da organização
maoista «A Esquerda Proletária»; e Jacques Sauvageot,
licenciado em Direito, Vice--Presidente da União
Nacional dos Estudantes Franceses, o sindicato
estudantil da extrema-esquerda. Por outro lado, Sartre e
Aragon manifestam o seu apoio aos jovens. Mas o primeiro
não encontra auditório e o segundo é vaiado. Na previsão
dos incidentes, os estudantes haviam criado um serviço
de saúde próprio, para evitar que os seus feridos fossem
levados para a Polícia e identificados.
Em 11 de Maio, Pompidou, regressado do Afeganistão,
ordena a libertação dos 4 estudantes condenados e bem
assim a reabertura da Universidade para 13. Mas as
organizações estudantis haviam já lançado uma ordem de
greve geral para esse mesmo dia, com a participação de
organizações operárias. A agitação vai agora estender-se
ao operariado, sobretudo fabril. Tal como a agitação
estudantil havia tido início em Nanterre, uma Faculdade
nova, isolada, onde o estudante sentia a força do seu
número, também a agitação operária vai ter como centro
principal a Secção de Montagem de Caixas de Velocidades
da Renault, em Cléon, também nos arredores de Paris,
também em local ermo, onde trabalhavam 4500 operários,
cuja idade média oscilava pelos 29 anos e onde imperava,
não a Confederação Geral do Trabalho (CGT), de
comandamento comunista, mas um sindicato novo, a CFDT,
que em pouco tempo se havia colocado à esquerda da CGT e
do PCF.
Em 13 de Maio realiza-se a prevista manifestação gigante
de estudantes e operários, compreendendo muitos
estudantes liceais, empunhando a bandeira negra da
anarquia, e jovens operários de Cléon. E, ao som da
Internacional, ostentando uma profusão de bandeiras
vermelhas e negras e cartazes, uma multidão desfila,
levando à frente, de braço dado, Cohn-Bendit, Alain
Geismar e Jacques Sauvageot. Esta manifestação
assinalava o início da greve geral. Os operários
dispersam depois calmamente. Mas Cohn-Bendit e Geismar
arrastam alguns milhares de estudantes até ao Campo de
Marte, onde o primeiro lança a sua nova
palavra-de-ordem: prosseguir a greve, ocupar as
faculdades e boicotar os exames. Ao mesmo tempo, Geismar
declara: «A Revolução está na rua. É preciso
continuá-la!»; «A violência é o único meio de fazer
admitir as nossas ideias!». E, como escreveu a revista
Paris-Match, «a Comuna de Paris, Cuba, a Revolução
Cultural e o Happening instalaram-se na Sorbonne». Mas
não apenas na Sorbonne, porque também o velho Teatro
Odeon é ocupado pelos estudantes e transformado em
tribuna permanente. Entretanto aumenta a tensão em
Cléon, onde os operários que exigem a greve se opõem aos
que a não querem.
E à meia-noite de 14-15 de Maio, quando o turno de
pacíficos sai, os revolucionários ocupam a fábrica,
barricam-se dentro dela e prendem o director e mais seis
colaboradores deste, que são libertados horas depois,
ante uma ameaça de greve da fome. E quando ao romper do
dia os novos turnos de pacíficos se apresentam,
encontram os portões fechados. Delegados de Cléon
deslocam-se nos dias seguintes às outras fábricas da
Renault em Flins e em Boulogne-Bilancourt, a fim de
incitar estas também à greve. A situação deteriora-se
rapidamente, a partir de então.
Em 17 estão já em greve os ferroviários, o
metropolitano, a aviação comercial, os táxis e os
operários da Sud-Aviation em Nantes. A CGT e a CFDT
(Cléon), que procuram a todo o custo manter a situação
sob seu controlo, não o conseguem, e não vêem outra
alternativa senão embarcar no comboio da agitação e da
paralisação do trabalho, dando ordem aos seus filiados
para se colocarem à testa do movimento, nos sectores
respectivos. Procuram ser elas a mandar no operariado, e
não os estudantes. Por isso mesmo, quando as
organizações estudantis convocam os estudantes e
operários para uma manifestação em frente à Televisão,
também já em greve, a CGT determina aos seus filiados
que de forma alguma o façam. Renunciando então a tal
projecto, um milhar de estudantes converge para a
fábrica de Boulogne-Bilancourt, para confraternizar com
os operários grevistas, mas deparam com os portões
fechados. A CGT assim o ordenara, para isolar os
operários dos estudantes. «Fraternidade, sim, mas cada
qual em sua casa!».
Em 20 de Maio havia já 2 milhões de grevistas, desde os
64 000 operários da Renault (Cléon, Flins, Mans,
Boulogne) a muitas outras actividades, agora também
bancos, correios, construção civil, etc. Não era, já,
uma acção estudantil e operária, mas também do
funcionalismo.
Entretanto a Sorbonne, reaberta oficialmente mas ocupada
por estudantes, transforma-se num vasto anfiteatro de
discussão. Há jornais de parede por toda a parte.
Constituem-se comités, que se instalam nas várias salas,
gabinetes e anfiteatros. Desses comités, um destina-se à
ligação Estudantes-Operários, o outro à ligação
Estudantes-Camponeses. Pelas paredes, cartazes e
fotografias de Lenine, Mao, Fidel, Guevara, Proudhon,
etc. Evoca-se Rousseau, Marcuse e outros. Proclama-se o
marxismo-leninismo. Editam-se jornais e panfletos
revolucionários. Discutem-se temas de ensino e outros a
eles alheios, como por exemplo: O artista na sociedade
capitalista; O publicitário e a Revolução; As teses de
Marcuse; Etc. Há elementos franceses e estrangeiros,
sobretudo alemães e espanhóis, que circulam entre as
várias universidades, desenvolvendo uma verdadeira
guerra subversiva. As greves continuam a alastrar e toda
a França acaba por ficar paralisada. Há já 9 milhões de
grevistas. Escasseia a gasolina e há uma fuga
hemorrágica de capitais. De Gaulle, de visita à Roménia,
não se manifesta. E, em França, os partidários da
esquerda planeiam já a futura República sem De Gaulle.
Mas não se entendem. O PCF pretende aproveitar a ocasião
para comandar a situação política, mas esbarra com igual
intuito por parte dos Socialistas.
Em 21 de Maio o Ministério do Interior publica um
comunicado dizendo que Cohn-Bendit, que entretanto se
havia deslocado à Alemanha, não é autorizado a regressar
a França. À noite, 30 000 estudantes universitários e
liceais, respondendo a palavras de ordem da UNEF e do
SNE, marcham sobre a Assembleia Nacional, onde acabara
de ser derrotada uma moção de censura ao Governo, e
sobre o Senado. A meia-noite dão-se os primeiros choques
com a Polícia, que se prolongam até às 4 horas da manhã.
No dia seguinte juntam-se 10 000 manifestantes. A UNEF
ordena que se dispersem e se juntem no dia seguinte na
gare de Lyon, mas ao cair da noite a situação volta a
deteriorar-se e, pela segunda vez, são erguidas
barricadas. Intervém a Polícia e luta-se até às 05h00.
No dia 23, a divergência entre a CGT e as organizações
estudantis toma o seguinte aspecto: CGT:
«Reivindicações!»; Estudantes: «Não se trata de
reivindicações, mas de Revolução!»
Em 24, 15 000 estudantes manifestam-se na gare de Lyon,
sob as ordens da UNEF. São difundidas gravações de
palavras de Cohn-Bendit feitas na Alemanha. Realiza-se
uma marcha sobre a Bastilha. A Polícia intervém e novas
barricadas se levantam agora reforçadas com abatizes.
Luta-se dos dois lados do rio. Os operários também
tinham feito a sua manifestação, mas a CGT providenciou
no sentido de estudantes e operários não se encontrarem.
Luta-se toda a noite de 24-25. Ardem viaturas. A Polícia
faz uso de bulldozers para levantar as barricadas. Os
estudantes abrem as bocas de incêndio para reduzirem o
efeito dos gases lacrimogéneos e afiram pedaços de
chumbo ou esferas de aço com fisgas. Ensaia-se uma
tentativa de incendiar a Bolsa («templo do
capitalismo»). Entre os jovens mais agressivos contam-se
numerosos «Blusões Negros», vindos dos arredores. Os
resultados dos últimos dias de luta são: Feridos 1054
civis e 1233 polícias. Morto um homem. Em Lyon, morto um
bombeiro, num incêndio. Presas 795 pessoas. Arderam 90
carros particulares, 7 da Polícia, e dois comissariados
(esquadras).
Entretanto De Gaulie, regressado da Roménia, anuncia a
realização de um referendo. Ao mesmo tempo Pompidou,
então 1.° Ministro, propõe a realização de negociações
com os dirigentes e que culminam com o «Protocolo de
Grenelle». A CGT e a CFDT encaminhavam-se para uma
solução com o Governo. À saída, os dirigentes da CGT
declaram aos jornalistas que acabavam de assinar a ordem
para que a greve terminasse, após concessões mútuas de
patrões e CGT, e retirando às reivindicações todo o
carácter político. Mas este desfecho não interessava aos
extremistas estudantis e operários.
E dois dias depois, em 27 de Maio, Sauvageot acusa a CGT
de formular reivindicações ridículas. No estádio de
Charlety, os dirigentes dos estudantes e do PSU (partido
da extrema-esquerda que o PCF não via com bons olhos)
incitam à Revolução. A CGT não estava presente. Assistiu
Mendès-France, que nos bastidores era indigitado para o
cargo de 1.º Ministro do futuro Governo da República
chefiada por Miterrand. Mas não falou. Face à
agressividade dos estudantes e à desilusão dos
operários, que contavam com mais amplas concessões, o
PCF, receoso mais uma vez de se ver ultrapassado e
perder o controle da situação, esforça-se por retomar a
iniciativa. Os seus militantes manifestam-se na rua,
exigindo a demissão de De Gaulie, enquanto os seus
dirigentes procuram a todo o custo estabelecer um acordo
com os partidos da esquerda, para a formação de um
Governo de coligação. A CGT decide voltar atrás, e não
só ordena uma nova manifestação para o dia seguinte como
também formula agora reivindicações políticas, exigindo
a demissão do Presidente e do Governo.
No dia 29 de Maio, de manhã, De Gaulie anula a reunião
do Conselho de Ministros trinta minutos antes da hora
marcada e parte, supondo-se que para a sua aldeia natal.
No entanto, antes de lá chegar, visita, secreta e
rapidamente, o QG da «Force de Frappe» e, na Alemanha, o
QG das forças francesas, comandadas pelo General Massu.
Em face do total apoio que lhe é assegurado, De Gaulie
põe de parte toda e qualquer ideia de retirada que
porventura tivesse. Mas as notícias da partida do
General e da sua demora em chegar a Colombey começam a
ser conhecidas em Paris. Circulam todos os boatos,
designadamente o da demissão do General. À tarde, 300
000 manifestantes, operários da CGT, precedidos de
dirigentes da CGT e do PCF, percorrem o centro de Paris,
ostentando cartazes e soltando gritos de «demissão!»
Miterrand e Mendès-France preparam tudo para assumirem
as rédeas do poder, sem os comunistas. E estes rompem
com a esquerda não comunista e lançam a palavra de ordem
de «Governo Popular!».
No dia 30, De Gaulle regressa inesperadamente a Paris e
anuncia que não só não tenciona demitir-se como também
que está decidido a continuar conduzindo a nave com
pulso firme. Depois de ter falado, realiza-se uma
manifestação em massa a favor do General, estimada em
mais de 1 milhão de pessoas, de todas as idades (muitos
estudantes) e categorias, desde ministros a antigos
combatentes (que desempenharam um papel de relevo no
plano da contra-subversão). A população parisiense
começava a sentir-se cansada da agitação e preocupada
com a sorte do País. De Gauile dissolve a Assembleia e
marca eleições gerais para 23 e 30 de Junho, com o que
concordam a CGT e o PCF, também desejosos de uma
revolução, sim, mas nos bastidores, feita por eles,
controlada por eles, e não nas ruas, por estudantes. O
trabalho e a ordem são retomados lentamente.
Em 3 de Junho o Governo ordena a ocupação da Televisão,
ainda em greve. E em 4 a CGT ordena o recomeço do
trabalho. Delegados seus vão de grupo em grupo convencer
cada qual de que os outros já estavam de acordo,
dividindo deste modo os recalcitrantes. Mas os
extremistas reagem.
E em 6 de Junho, na Renault-Flins, depois de 80% dos
operários terem decidido, em votação secreta, retomar o
trabalho, piquetes de grevistas impedem-no. A direcção
da fábrica decide actuar e, com a ajuda da Polícia, os
200 grevistas (entre 10 000 operários) rebeldes são
expulsos. Por causa disto, os estudantes do «Movimento
do 22 de Março», de Nanterre, decidem enviar emissários,
para levarem os operários a revoltarem-se contra a
«táctica eleitoral de traição à Revolução, adoptada pela
CGT». Esta fábrica reabre no dia seguinte, estando
presente todo o pessoal de escritório e 25% dos
operários. Mas mais de mil estudantes rodeiam a fábrica
e desenvolvem intensa actividade sobre os operários
ainda não regressados ao trabalho, sobretudo os mais
novos. Presentes, Alain Geismar e outros. E gera-se um
clima de verdadeira guerrilha nos campos em volta, entre
revolucionários e a Polícia. Há tentativas de
transportar jovens de outros locais para Flins, e
Sauvageot fala à multidão e incita à revolta. Mas a
massa operária não se deixa levar ao rubro.
E por fim, no dia 9, a Polícia e os sindicatos chegam a
acordo: os grevistas retiram os seus piquetes de greve,
e a Polícia os seus agentes. A fábrica fica a ser
«território neutro». A Polícia continua, no entanto, a
patrulhar os arredores, onde estudantes se ocultam entre
a população, prontos a recomeçar a luta. Mas a grande
oportunidade tinha passado e os estudantes belicosos vão
regressando às suas casas, deixando o campo. Dois
incidentes, porém, vão ainda contrariar a tendência para
a normalização que já claramente se verificava.
Quando em 10 de Junho a Polícia perseguia, em Flins, um
pequeno grupo de estudantes rebeldes que comiam a beira
rio, e de cuja presença tinha sido informada, alguns
estudantes atiraram-se ao rio, e um deles morreu
afogado, não obstante todos os esforços feitos pela
Polícia para o salvar. Tinha 17 anos, era aluno de
Liceu, e pertencia às «Juventudes marxistas-leninistas».
Era o primeiro «mártir» da Revolução; e logo que a
notícia chega a Sorbonne, todo o Bairro Latino começa a
ser percorrido por grupos de estudantes que gritam:
«Eles mataram o nosso camarada!». Gera-se novo clima de
efervescência, que se agrava rapidamente. O outro
incidente deu-se na Peugeot de Sochaux, entre grevistas
e polícias requisitados pela direcção da fábrica. Dois
operários são mortos – o 2º e o 3º «mártires» da
Revolução. Mas a CGT intervém, e a situação é
restabelecida localmente. Mas estas três mortes vão
servir de pretexto para uma derradeira tentativa
insurreccional.
A noite, em Paris, mil jovens manifestam-se gritando:
«Eles mataram os nossos camaradas!»; «De Gaulle ao
Sena!»; «Eleição, Traição!».
Reaparecem as barricadas e gera-se novo clima de
batalha. Os revolucionários assaltam várias esquadras.
São presos 1000 jovens. Mas a população acusava, cada
vez mais, saturação e inquietação. Nas últimas noites,
em algumas ruas, houve mesmo civis armados a guardarem
os seus carros e a dispararem sobre os jovens. A
população defendia-se. Por outro lado, a brecha entre a
CGT/PCF, por um lado, e os grupos da extrema esquerda,
por outro, constituídos por marxistas-leninistas,
maoistas, trotskistas, anarquistas, etc, alargava-se
cada vez mais, transformava-se num fosso intransponível.
Finalmente, também, na Sorbonne, que durante um mês
vivera como se fosse uma fortaleza, o ambiente era de
cansaço, de saturação física e moral. O número de
«enrágés» decrescia de dia para dia, estava já reduzido
apenas a uma escassa centena. Durante um mês, a Sorbonne
servira de abrigo não só a estudantes revolucionários
como também a toda a espécie de marginalizados, desde
«clochards», instalados nas caves, a um grupo de 27
homens e mulheres que, agregados às barricadas e
baptizados de «katangueses» pela brutalidade que os
caracterizava, em meados de Maio se haviam instalado
também na universidade – de onde foram expulsos depois
pelos estudantes.
Por isso, quando em 16 de Junho a Polícia apareceu para
parlamentar, o clima era já de capitulação. E a
evacuação dos últimos rebeldes ocorreu com fraca ou nula
resistência. Mas, na rua, um cordão de polícias impedia
a aproximação de agitadores, entre os quais se contava
Sauvageot.
Em 18 de Junho a Renault regressa totalmente à
normalidade. Na Citroen, porém, o regresso ao trabalho
foi mais demorado. Com um suspiro de alívio, a França
regressa à normalidade. E quando, em 31 de Junho, se
realizam as eleições gerais, de Gaulle alcança uma
retumbante vitória, fruto do temor à desordem, à
insurreição, à falta de autoridade, ao comunismo. Um
balanço breve e muito limitado da Revolução de Maio
permite extrair as seguintes conclusões: A agitação
lavrou entre alunos de determinados cursos não técnicos,
como Sociologia e Psicologia, para os quais não havia
ainda futuro assegurado; A localização isolada da
Faculdade de Nanterre e bem assim a da fábrica de Flins
facilitou a criação de uma maior consciência de grupo;
As deficiências, insuficiências e incertezas, escolares
e post-escolares, serviram de pretexto a organizações
políticas da esquerda e da extrema-esquerda, agrupando
minorias, mas bem organizadas e fortemente agressivas,
para fomentarem e comandarem uma verdadeira guerra
subversiva com carácter insurreccional; A agitação
inicial, política ou imediatamente
politizada, foi encontrando eco progressivo entre toda a
massa estudantil, graças ao sábio aproveitamento das
características desta, sobretudo a sua tradicional
hostilidade à Polícia – que serviu de elemento
catalizador para uma precária unidade que, no entanto,
enquanto se manteve, foi suficiente para perturbar a
vida do país, de toda a França; O PCF, através das suas
organizações de estudantes e operários, tentou
aproveitar a oportunidade para provocar a queda do
Governo, com vista a apossar-se das rédeas do Poder. Os
acontecimentos, porém, ultrapassaram todas as previsões
e o PCF acabou por sabotar a Revolução, procurando o
regresso à normalidade para obstar à formação de uma
frente estudantes-operários fora do seu controlo;
conforme disse Sartre numa entrevista: «Se os estudantes
falharam, isso deve-se em parte ao facto de o PCF, com a
sua concepção rígida do marxismo e as suas respostas par
tudo, baseadas num ou noutro texto de Lenine, ter
refreado o movimento»; A uma agitação com base em
reivindicações escolares, e depois também operárias,
juntaram-se outras agitações de carácter social,
político, racial, etc. Assim, no bairro de Belleville,
em Paris, houve luta entre Árabes e Judeus; e, dentro da
Sorbonne, um «Comando» palestiniano tentou provocar
estudantes judeus. Houve, pois, agitações dentro da
agitação. Soltaram-se todos os impulsos reprimidos, a
todos os níveis sociais. E a desordem generalizou-se.
Foi criado um verdadeiro clima de guerra subversiva, com
todas as características: acções clandestinas, acções
psicológicas e acções violentas. Circulou entre os
estudantes das várias universidades francesas, por
exemplo, um «Manual da Insurreição» que, entre outras
coisas, preconizava: A ocupação das Faculdades; A
incineração pública de bandeiras nacionais; O incêndio
de automóveis na via pública; O uso de capacetes de
motociclista para protecção; O fabrico de «Cocktails
Molotov»; Como reduzir o efeito das granadas
lacrimogéneas; Como erguer barricadas; Como montar um
sistema de primeiros socorros; etc.
O grupo humano estudantes revelou-se como uma verdadeira
classe social, tendendo a arrebatar da classe operária o
facho da Revolução que esta tradicionalmente empunhava;
A agitação estudantil beneficiou do apoio de um certo
número de professores e assistentes ligados à esquerda
ou a extrema-esquerda. Beneficiou, igualmente, e até
certa altura, de outros que, não sendo políticos,
procuravam impulsionar a evolução das estruturas do
ensino; As tentativas de resolução dos problemas dos
estudantes esbarraram, sistematicamente, com a total
oposição das organizações extremistas, a quem
interessava, não a resolução dos problemas, mas sim, e
apenas, a Revolução.
8. A «REVOLUÇÃO CULTURAL» NA CHINA CONTINENTAL
A Revolução Cultural chinesa foi levada a cabo,
essencialmente, por jovens estudantes liceais entre 14 e
15 anos. Constitui um caso especial, e foge às normas
tradicionais da História, visto não ter havido uma linha
divisória nítida entre revoltosos e autoridades. Estas
aparecem, até, como tendo tido uma parte activa no
desenrolar da revolta, ou antes, a revolta revelou-se o
instrumento de uma facção dos participantes no Poder
contra outros elementos desse mesmo Poder, sem que para
isso a Administração se tenha tornado totalmente
ineficaz. Constitui uma espécie de guerra civil
desenvolvendo-se numa relativa legalidade. Foi um ajuste
de contas, em que revolucionários eram apeados a cada
momento, caíam em desgraça, eram transportados de forma
degradante pelas ruas, a pé ou em carroças, com cartazes
ao pescoço, obrigados a fazerem autocrítica, para depois
serem mortos. O afluxo de milhões de jovens a Pequim,
apoiados por Mao-Tsé-Tung, gerou uma situação muito
especial, em que os jovens pareciam ser a chave de tudo
no país. Toda a China, e em especial a sua capital,
estavam cobertas de cartazes e de jornais de parede,
através dos quais se ia fazendo uma pálida ideia do que
ia acontecendo. Mas a economia foi severamente atingida.
Por isso, a partir de certa altura, foi dada ordem de
regresso. E os jovens regressaram. Não se pode fazer uma
ideia do que foram ou serão as consequências políticas e
ideológicas desta Revolução, que muitos observadores
interpretaram como sendo uma manobra de diversão de
problemas internos ou de desaires internacionais que o
país tinha sofrido no plano político. Mas há uma
estatística curiosa que permite avaliar a extensão
daquela revolução de jovens: 1 milhão de crianças
nascidas daquele período de euforia dos jovens. Por
outro lado, esta Revolução encontrou grande eco entre os
jovens de todo o mundo ocidental, que procuraram adoptar
certos procedimentos dos jovens chineses, como foi o
caso dos jornais de parede, na Sorbonne.
9. EM PORTUGAL
A agitação estudantil em Portugal caracterizou-se,
durante largo tempo, apenas por manifestações muito
limitadas, quer em extensão quer em profundidade. Não
havia motivações caracteristicamente portuguesas, e
sobretudo não havia uma consciência colectiva, salvo em
Coimbra. Com excepção desta última cidade, onde qualquer
pequeno facto ocorrido era um caso, em todo o resto do
País os estudantes perdiam-se entre a multidão. Houve,
no entanto, problemas de âmbito político ao nível
professores, que levaram ao afastamento compulsivo de
figuras como Bento de Jesus Caraça (1935), Rui Luís
Gomes, etc. Fora do âmbito académico verificaram-se
numerosos casos de «teddyboyismo», por grupos
constituídos fundamentalmente por «filhos de família»
que provocavam destruições públicas, etc. No plano
puramente escolar verificavam-se incidentes esporádicos,
mas eram apenas, ou fundamentalmente, manifestações de
vitalidade, conflitos locais com a Polícia, etc.
Acidentalmente havia greves ou manifestações, ou ainda
abaixo-assinados, por causa de um aumento de propinas ou
outros factos do género. Em Lisboa, porém, foi edificada
uma cidade universitária, com centro de convívio,
restaurante, etc. E isso permitiu reunir, numa área de
certo modo pequena, grande número de estudantes, o que
modificou o panorama. Passou a haver uma maior
consciência de grupo, mais amplas oportunidades de
encontro, precisamente quando a politização do meio
estudantil começou a ser feita com mais intensidade.
Estas circunstâncias facilitaram um certo número de
factos verificados em 1965, em que pela primeira vez
foram desrespeitados publicamente professores, e até o
próprio Reitor da Universidade Clássica. Como resultado
desta agitação, que tinha já características políticas,
foram afastados alguns professores e expulsos alguns
alunos. Durante cerca de 3 anos verificou-se, depois,
uma relativa acalmia, que no entanto era apenas
aparente, porquanto durante ela se deu uma séria
infiltração de elementos esquerdistas nas direcções das
associações académicas, sobretudo em Coimbra e em
Lisboa, infiltração essa que abriu o caminho a tudo
quanto depois se veio a verificar. Com vista a atrair os
estudantes às associações, estas procuraram oferecer
maior número de serviços. Mas tal intuito foi
dificultado, e por vezes contrariado, pela criação ou
melhoria das organizações circum-escolares, por parte do
Ministério da Educação Nacional: cantinas, lares,
instalações desportivas, teatros, etc. Em virtude disto,
os dirigentes das associações procuraram combater o
isolamento ou amorfismo das massas estudantis através de
um trabalho de sensibilização das mesmas, quer aos
problemas universitários, quer aos problemas nacionais,
entre os quais a partir de certa altura avultava o do
Ultramar, ao qual os estudantes eram particularmente
sensíveis em virtude da sua possível mobilização no fim
do curso, ou até mesmo antes disso. Ao mesmo tempo, e
face à limitação progressiva da acção das associações,
outra linha de acção foi traçada e seguida: a
reivindicação de um movimento associativo estudantil do
tipo sindical, visando não somente a defesa dos
interesses mais imediatos dos seus membros, mas também
defender esses interesses «integrados numa perspectiva
global, numa política de conjunto, firme e
progressista». Este sindicalismo permitiria a sua
integração em organizações internacionais de estudantes,
em especial a União Internacional de Estudantes,
dominada pelos comunistas, conduzindo portanto a um
telecomando futuro mais fácil e mais eficaz. No
princípio do ano lectivo 1968/69, a agitação irrompeu de
novo, mas em força, em Coimbra. E em Novembro
reuniram-se naquela cidade alguns milhares de estudantes
das três universidades do País. Dessa reunião saiu uma
Comissão Nacional de Estudantes Portugueses, e uma
Declaração de 8 pontos, de carácter reivindicativo, a
apresentar ao novo Presidente do Conselho, Prof. Marcelo
Caetano. Esta Declaração exigia: Imediata demissão das
Comissões Administrativas existentes (nomeadas após
tentativas de controlo das respectivas Direcções) na
Associação dos Estudantes da Faculdade de Ciências de
Lisboa e na AA de Coimbra; Imediata legalização de todas
as Comissões Pró-Associações; Revogação de «toda a
legislação anti-associativa e anti-estudantil»;
Participação dos estudantes, democraticamente eleitos,
no governo da Universidade e na gestão dos Serviços
destinados a estudantes; Intervenção das Associações de
Estudantes, na qualidade de únicos representantes dos
estudantes, em todas as questões e instâncias onde se
decida da vida e da reforma da Universidade e do ensino
em geral; Legalização das Federações de Estudantes de
Lisboa e Porto, e da União Nacional de Estudantes
Portugueses; Amnistia de todos os estudantes expulsos e
presos, e reintegração de todos os professores
afastados; Livre acesso aos órgãos de informação.
Em 8 de Dezembro [08Dez68] são suspensas as actividades
da A. E. do Instituto Superior Técnico, e bem assim os
respectivos corpos gerentes, depois de se ter verificado
que os fundos da Cantina, então administrada por
estudantes, haviam sido utilizados na impressão de
cartazes e panfletos de índole extremista, em que se
defendia a liquidação da Família como instituição, a
liberdade sexual (traduzida, entre outras coisas, na
exigência do termo da descriminação das instalações
sanitárias por sexos), se fazia a apologia do marxismo e
se condenava a luta no Ultramar. No dia imediato foi
ocupada a Cidade Universitária pela Polícia, e encerrado
provisoriamente o edifício de Convívio. A oposição à
guerra no Ultramar, apoiada pelo Partido Comunista
Português [PCP] e pelos Socialistas [ASP] – que em
Portugal, e ao contrário do que se passa no resto da
Europa, vivem em simbiose com os Comunistas – não
revestiu nem reveste uma forma puramente de pacifismo,
de ausência de violência, mas sim, e muito para além
disso, a forma de propaganda política das próprias
organizações contra as quais lutamos no Ultramar. Mas
não de todas, pois que apenas se fala naquelas
organizações que estão a soldo do comunismo ou se
confundem com ele, como sejam o PAIGC da Guiné, o MPLA
de Angola e a FRELIMO de Moçambique. As outras
organizações terroristas que enfrentamos não são nunca
citadas, e até mesmo chegam a ser combatidas. Em
vésperas de datas ligadas aos movimentos terroristas
referidos – início do terrorismo, etc. – são difundidos
panfletos e cartazes de apologia a esses movimentos,
convidando ao mesmo tempo os estudantes a
manifestarem-se contra a guerra no Ultramar, convites
esses que são feitos, quase textualmente, por Rádio
Moscovo e pelos órgãos clandestinos do PC português,
como o «Avante», etc.
Quando em 3 de Fevereiro de 1969 morreu o presidente da
FRELIMO, vítima dos elementos pró-chineses ou
pró-soviéticos do partido, o seu retrato apareceu
exposto em faculdades de Lisboa. O fulcro da agitação,
que se situava então em Lisboa, foi transferido, após 4
meses de certa acalmia, para Coimbra.
Em 17 de Abril inauguravam-se em Coimbra as novas
instalações do edifício de Matemática da Faculdade de
Ciências, e o Chefe de Estado presidiria às cerimónias.
O presidente da AAC pretendeu usar da palavra na
cerimónia, mas tal lhe foi recusado pelo Reitor. Já no
decorrer da cerimónia, novo pedido foi feito no mesmo
sentido, recusado desta vez pelo Chefe do Estado, por
não constar do programa. Dentro de um plano
indiscutivelmente premeditado, quando o Chefe do Estado
abandonava o edifício foi alvo de apupos e de palavras
ofensivas por parte de estudantes. Em consequência
disto, o presidente da AAC e outros oito dirigentes
foram suspensos de todas as suas actividades. É
decretado luto académico e são canceladas pelos
estudantes as festas da Queima das Fitas. Estabeleceu-se
depois um vai-vem de agitadores e de agitação entre
Coimbra e Lisboa, de que resultou, em princípios de
Maio, o encerramento das duas universidades e dado por
findo o ano lectivo.
Em 28 de Maio, uma Assembleia Magna de Coimbra decretou
a abstenção aos exames. E, quando a altura destes
chegou, vivia-se na cidade um clima de grande tensão,
dado que, além de haver piquetes de grevistas a impedir
o acesso aos estudantes que quisessem fazer exames,
foram exercidas violências sobre estudantes e até sobre
pessoas da família dos mesmos, incluindo uma senhora
grávida, que foi selvaticamente agredida em sua própria
casa. A Polícia montou um serviço de transporte e
protecção aos estudantes que quisessem ir a exame, o que
foi aproveitado, em panfletos, para dar a entender que
esses estudantes iam a exame por violência policial.
Apenas 14% dos estudantes se apresentaram a exame na 1.ª
época. Na 2.ª época, no entanto, e não obstante toda a
propaganda feita no sentido da continuação da abstenção,
o afluxo foi quase normal.
Em 11 de Julho, o Governo alterou a Lei do Serviço
Militar, passando a concessão do adiamento do serviço
militar a depender do comportamento escolar dos
estudantes. Em virtude disso foram convocados alguns dos
principais implicados. Entretanto, e no meio de
panfletos clandestinos e cartazes sem conta, saí a lume
uma Declaração de reivindicações sindicalistas, em que a
certa altura se dizia: «Os estudantes portugueses
declaram, perante a Universidade, perante a Nação
Portuguesa e perante a comunidade internacional de
estudantes, que prosseguem a via de um sindicalismo
estudantil, como a mais adequada à sua etapa histórica e
às necessidades mais profundas da vida nacional». Os
princípios gerais difundidos pelos movimentos estudantis
eram: Neutralidade política e religiosa – uma
neutralidade que mais deveria chamar-se neutralismo, do
tipo de países, como a Jugoslávia, Egipto, União
Indiana, etc., que na realidade alinham sistematicamente
contra Portugal; Os interesses de todos os estudantes
devem ser defendidos por uma associação única, que não
se limite apenas a sócios, associação essa do tipo União
Nacional de Estudantes; Eleição democrática dos
dirigentes associativos; Reforma global do ensino;
Co-gestão universitária e circum-escolar; Atribuição de
remuneração aos estudantes. Vamos ver, quanto a pelo
menos duas destas reivindicações, como os agitadores se
contradisseram posteriormente.
Em Outubro de 1969, realizaram-se as eleições para
deputados à Assembleia Nacional, em que a liberdade de
discussão, até mesmo do problema ultramarino, foi
amplamente aproveitada para a criação de um clima de
agitação que alguns pretendiam encaminhar para a
insurreição. E, muito embora a Oposição perdesse as
eleições em todos os círculos, pôde, no entanto, montar
estruturas, como a CDE, que lhe permitiram, com forte
apoio do PCP, continuar a sua acção. Dado que o ano
lectivo não havia ainda começado, não foi possível aos
estudantes criar nas universidades um ambiente de
agitação, paralelo ao que se verificava cá fora. Mas o
desejo de o criar estava latente, e manifestou-se Ioga
que as aulas abriram. E o pretexto surgiu perto do fim
do ano, quando no Teatro Gil Vicente, em Coimbra, se
realizava uma sessão promovida por estudantes da
extrema-direita, em que deveriam falar, entre outros, o
antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros, Embaixador
Franco Nogueira. A reunião havia sido solicitada ao
Reitor, autorizada, e inseria-se no plano de reuniões
iguais havidas em outras cidades, com vista a chamar a
atenção do povo português para a subversão reinante e
latente. Mas o Reitor, assediado por estudantes das
esquerdas, considerou que seria perigoso, talvez,
realizar tal reunião; e determinou que ela fosse
interrompida, já quando havia sido iniciada. Houve forte
reacção por parte dos presentes. E como na praça em
frente se haviam reunido muitos estudantes esquerdistas,
que aproveitaram a ocasião para vaiar os presentes à
sessão, gerou-se grave conflito que obrigou a Polícia a
intervir. Registaram-se vários feridos, e correu mesmo o
boato de que havia sido morto um estudante, o que não
foi verdade, mas que os mais extremistas desejavam, para
que houvesse finalmente um «mártir», um «herói».
A agitação promovida pelas organizações esquerdistas
propagou-se imediatamente à Universidade de Lisboa. E o
resto do ano lectivo decorreu num equilíbrio instável,
como se verificou pelo facto de os estudantes de Coimbra
terem decretado mais uma vez luto académico e a anulação
das festas da Queima das Fitas. Em Lisboa esta
instabilidade verificou-se não só em faculdades várias
como também nos institutos Comercial e Industrial – que,
de resto, já do antecedente vinham a ser alvo de
acentuada agitação.
Previa-se que o ano lectivo 1970/71 seria crucial, não
só dentro da evolução da situação anterior, como também
porque a orquestração internacional da propaganda
anti-portuguesa atingia o seu máximo de sempre, e ainda
porque o novo Ministro da Educação Nacional, depois de
ter tomado, logo desde o início, um conjunto de medidas
tendentes a resolver graves problemas, sobretudo
universitários, no campo da carência de professores e
assistentes, anunciou ainda ser seu propósito
apresentar, antes de um ano, um projecto de reforma
global do ensino.
Pelos motivos expostos, pois, a agitação redobrou de
intensidade, e o pretexto invocado foi a situação no
Instituto Industrial de Lisboa. Os Institutos Industrial
e Comercial de Lisboa vinham a registar, do antecedente,
grave agitação. Assim, em Maio de 1970 registou-se no
Instituto Comercial uma greve que obrigou à intervenção
da Polícia, e de que resultou a instauração de vários
processas, mais tarde todos arquivados.
Em Outubro seguinte, agora no Instituto. Industrial,
foram aplicadas penas de suspensão a seis alunos
acusados de incitamento à indisciplina. E entre 24 de
Novembro e 11 de Dezembro houve várias tentativas de
reunião, e intervenções policiais.
Em 2 de Dezembro foi iniciado o ano lectivo no novo
edifício do Instituto Industrial. Logo a seguir foram
instaurados processos a 4 alunos surpreendidos a
convocar colegas para uma reunião. Suspensão dos 4
alunos e agitação consequente. Suspensão das aulas e
encerramento do edifício. Um grupo de alunos, porém,
arrombou as portas, e um deles içou uma bandeira
vermelha na fachada do edifício. Era, já, uma nítida
tentativa de revolução.
Em 5 e 6 de Dezembro realizou-se no Instituto Superior
Técnico uma reunião de representantes das várias
associações académicas, para apoiar as pretensões dos
alunos do ensino médio superior. Estas pretensões eram,
fundamentalmente, o restabelecimento das Associações
Académicas dos I. Industrial e Comercial, suspensas, a
primeira, desde 1969, e a segunda, desde 1967/68.
A Faculdade de Direito de Lisboa vinha-se revelando,
agora, aquela onde a agitação assumia particular
gravidade. Nas paredes abundavam os panfletos
subversivos; os alunos exigiam que nas aulas se
discutisse, por exemplo, um Relatório enviado à ONU por
Amílcar Cabral, Secretário Geral do PAIGC. etc. No
início do ano lectivo houve eleições para os órgãos
sociais da Faculdade, e candidataram-se duas listas. A
primeira tinha como divisa «Luta pela Universidade do
Povo», e estava ligada ao PCP e aos elementos deste no
IST; a outra tinha como divisa «Ousar lutar, ousar
vencer». A primeira lista perfilhava «uma concepção do
movimento associativo como um movimento sindical,
democrático e progressista», e entendia a democratização
do ensino como «a sua colocação ao serviço das classes
trabalhadoras». Mais concretamente, esta lista
propunha-se realizar: «Luta pedagógica baseada na
análise crítica e teórica do ensino ministrado (formação
de grupos de trabalho, intervenção permanente nas aulas,
criação de cursos livres abertos a todos); Funcionamento
do conjunto das secções das Associações de Estudantes na
base de iniciativas determinadas, mobilizadoras das mais
amplas camadas de estudantes (sindicalismo, reformas,
etc.); Consideração especial da situação dos estudantes
trabalhadores (voluntários); Elevação do nível cultural
dos estudantes; Informação constante e crítica sobre a
realidade nacional e internacional». A outra lista, de
objectivos mais moderados, orientava-se para um mais
fácil acesso aos cursos, reformas de ensino, etc. Esta
lista, porém, e em virtude de pressões sobre ela
exercidas, acabou por desistir. E ficou na liça apenas a
outra lista, conduzindo portanto a uma coordenação da
acção subversiva com o IST e o PCP. Entretanto haviam
sido arquivados, a pedido do Ministro da Educação
Nacional, os processos instaurados contra os estudantes
de Coimbra implicados nos acontecimentos da inauguração
do edifício de Matemáticas, e ficou sem efeito,
igualmente, a convocação militar dos mesmos. Isto foi
anunciado em Coimbra como uma vitória estrondosa da
oposição estudantil, como a consequência de uma enorme
pressão da opinião pública nacional e internacional.
Em 3 de Dezembro de 1970, realizou-se na Cantina
Universitária de Lisboa uma reunião subordinada ao tema
«Policiamento e isolamento». Na sequencia disto foram
interrompidas as aulas nas Faculdades de Direito e de
Letras. Em 11, foi boicotado um baile promovido pela
comissão de finalistas de Direito, com o fundamento de
que os bailes não eram mais do que «formas inferiores de
convívio», censurando-se «a actuação infantilista de
minorias inconscientes». A situação deteriorava-se
rapidamente.
Em 14, foi interrompida uma conferência de um
catedrático brasileiro de Direito, numa aula do 3º ano,
por este «pertencer à guarda avançada da ditadura
fascista brasileira». Poucas horas depois era forçada a
porta da sala do 5º ano da mesma Faculdade, e
interrompida a aula.
Em 15, foi interrompida uma aula do 1º ano. O Director
ordena a evacuação imediata da Faculdade, o que foi
feito sob dispositivo policial. Vários alunos dirigem-se
à Faculdade de Letras, onde interrompem aulas. Daqui
foram para a Cantina, onde discutiram problemas e onde
foi convocada uma reunião inter-associações (RIA). A
situação continuava a deteriorar-se. Haviam já ocorrido
actos de violência sobre instalações, com destruição de
mobiliário, quadros e outro material.
No dia seguinte, é encerrada a Faculdade de Direito e
imposta a identificação à entrada da Faculdade de
Letras. E são encerradas depois, sucessivamente, as
várias Faculdades. Pairava um clima de perigosa tensão
nas Universidades e Institutos de Lisboa, tensão essa
que se propagou, ainda que em menor escala, a Coimbra,
onde se verificaram também actos de violência sobre
instalações escolares, e em menor escala, ao Porto.
Entretanto, o Ministro da Educação Nacional anunciou as
directrizes gerais de uma reforma global do ensino, a
iniciar já no ano lectivo 1971/72, e para a qual
solicitava o parecer de todos, sobretudo de professores
e alunos. Este projecto encontrou ampla aceitação em
todo o país, não obstante haver naturais divergências,
como seria inevitável em matéria de tamanha
transcendência. Mas, ao contrário do que muitos
esperavam, não se verificou abrandamento imediato da
agitação estudantil. Houve, mesmo, um agravamento, em
que, numa reunião plenária, os estudantes universitários
de Lisboa se propunham discutir o procedimento futuro,
encarando-se o alargamento das greves aos liceus. E, no
regresso de uma reunião em massa em frente ao
Ministério, para entrega de reivindicações ao Ministro,
um grupo de estudantes apedrejou a embaixada americana.
Mas os acontecimentos tinham ido além do suportável.
Havia já protestos em toda a Imprensa e na Assembleia
Nacional contra a violência e intencionalidade da
agitação estudantil. Deu-se um movimento da grande
«maioria silenciosa» a que o Ministro se dirigira. E,
nas Universidades, surgiram estudantes a pretender
discutir o projecto ministerial. Mas a tal desiderato se
opunham ferozmente as facções que não queriam que tal
fosse feito, que não queriam evolução, mas revolução.
Em face da continuação do clima de agitação, sobretudo
em Lisboa, o Ministro determinou, por seu Despacho de 21
de Janeiro, que não só fossem tomadas medidas
disciplinares severas contra os estudantes que
desrespeitassem professores, como também medidas
judiciais contra aqueles que praticassem destruições.
Por outro lado, as associações académicas ficavam
expressamente proibidas de discutir assuntos que
ultrapassassem o âmbito escolar. Paralelamente, o
Ministro da Defesa avisou os estudantes de que o
adiamento do serviço militar só poderia ser compreendido
no âmbito de estudantes que estudassem, e nunca para
estudantes que fossem profissionais da agitação.
Tudo isto conduziu a um progressivo abrandamento da
tensão e da agitação, e a uma progressiva normalização
aparente da situação, sempre susceptível, no entanto, e
a cada pretexto, de se agravar.
Assim, em meados de Fevereiro, e tendo sido anunciado na
Imprensa o breve início de um julgamento em que iriam
responder alguns estudantes de Coimbra detidos por
estarem implicados em ligações com o MPLA, a direcção da
AA de Coimbra mandou executar e distribuir panfletos
convocando reuniões para discussão do caso, e, não
obstante o Reitor da Universidade ter feito saber que o
Ministro havia proibido a intervenção de estudantes em
política, dentro de instalações escolares, foram
realizadas reuniões ilegais, conforme comunicado
publicado pela reitoria na Imprensa. Por outro lado, a
difusão de panfletos nos estabelecimentos de ensino
manteve-se em elevado grau, visando fomentar ou manter a
agitação, invocando todos os pretextos, abrindo já o
caminho para um futuro boicote dos exames, etc.
Era esta, pois, a situação em meados de Março, de 1971.
A agitação estudantil em Portugal, como em Espanha ou em
França, tem tido um carácter essencialmente político,
ou, quando assim não acontece inicialmente, os
movimentos são depressa politizados. Em Portugal, como
em França em 1968, são minorias da extrema-esquerda ou
da esquerda que têm comandado toda a acção, realizando
um trabalho de subversão que vai já contaminando, de
forma sensível e preocupante, a juventude liceal. Mas as
contradições denunciam o carácter político dos
movimentos. Assim, e entre as exigências do Manifesto de
1969, contavam-se, como se viu: A reforma global do
ensino; Remuneração a atribuir aos estudantes. Ora
quando o Ministro da Educação Nacional anunciou o
projecto de uma reforma global do ensino, certas facções
de estudantes recusaram-se a discutir ou sequer deixar
discutir este projecto.
Por outro lado, e ainda em Janeiro de 1971, uma
assembleia de estudantes de Lisboa determinou que os
alunos das Academias militares não poderiam participar
dos campeonatos desportivos universitários, por
receberem vencimento e não serem, portanto, estudantes.
Para além, pois, de todas as razões que assistam aos
estudantes portugueses, desde as carências de
instalações às insuficiências de material didáctico e de
professores, à burocracia, ao imobilismo, ao caciquismo
dos senados universitários, a movimentação da massa
estudantil portuguesa tem tido um carácter
essencialmente político, cuja motivação fundamental é,
hoje, a luta no Ultramar.
10. PALAVRAS FINAIS
Nos movimentos juvenis há, quer elementos permanentes,
inseparáveis das condições de jovem e de estudante, quer
elementos ocasionais, específicos de cada época, cada
país ou cada núcleo populacional ou escolar, isto é, das
respectivas condições sócio-económicas e culturais. A
fronteira entre uns elementos e outros é imprecisa, e
por isso somos muitas vezes levados a tomar como
pertencentes a um grupo, manifestações que, na
realidade, pertencem ao outro. Transcendendo o plano das
reivindicações puramente escolares, os movimentos
estudantis transformaram-se num protesto em massa, não
só contra a organização, os métodos e os objectivos do
ensino, como também, e agora principalmente, contra a
sociedade em geral. A contestação passou, assim, do
plano teórico para o plano prático. O jovem de hoje
pretende ter o seu lugar, não ao sol, mas na sociedade;
e a massa em que se integra dá-lhe força para se impor.
E uma massa, como a sua, em estado dinâmico, é lúcida,
imaginativa, audaciosa e intuitiva. Hoje, basta ser novo
para ter razão. E muita coisa se orienta no sentido de
lhe dar razão, pelo menos aparentemente. O jovem é hoje
adulado, procurado, pelo industrial, pelo comerciante,
pelo dirigente político, pelo mentor religioso.
Habituado, pois, a ser escutado e procurado, o estudante
esquece a sua imaturidade, ou considera que o
aceleramento do progresso o amadureceu mais depressa do
que as gerações anteriores. E desenvolve um apurado
espírito de crítica, que se manifesta em tudo. Já não
vai à universidade ou ao liceu para escutar, como
dantes, mas para perguntar, para discutir. Por outro
lado, deseja aprender coisas concretas que sirvam em
determinada formação, e não se interessa pelo que se
afasta dos seus propósitos pessoais. Por isso desafia
brutalmente os mais velhos em tudo aquilo que
pessoalmente lhe diga respeito: vestuário, trabalho,
comportamento sexual, serviço militar, etc. Rejeita,
assim, a ideia de se sacrificar pela Pátria, porque a
sua ideia de servir está ligada directamente à ideia do
seu bem-estar. Este estado de espírito pode ser
traduzido com certa felicidade pelos versos seguintes de
uma canção do cantor brasileiro Roberto Carlos: «Quero
que você me aqueça neste Inverno, E que tudo o mais vá
para o Inferno». Por outro lado, sendo a juventude a
idade mais receptiva e mais influenciável pelo meio
ambiente, são os jovens quem mais fortemente reflecte a
instabilidade, a incoerência e a trepidante evolução do
nosso tempo. Eles são os Bárbaros do nosso tempo, porque
têm costumes diferentes, porque falam, até, uma língua
diferente. Só nunca tinha acontecido serem os Bárbaros,
não um povo diferente, mas uma geração diferente, e a
fronteira entre uns e outros estar marcada, não no
espaço, mas no tempo.
Os jovens estão, económica e socialmente, em equilíbrio
instável. Como poderiam deixar de o estar também
politicamente? Procuram, pois, formas novas de falar, de
amar, de viver a existência quotidiana. E, dentro de uma
universalidade de todos os problemas, hoje corrente, já
não aceitam estar fechados em quadros, estruturas,
células ou partidos, recusando portanto as fronteiras
geográficas, ideológicas e políticas. Toda esta
instabilidade material, mental e emocional dos jovens de
hoje é, no entanto, facilmente canalizável, explorável
por elementos que joguem com o espírito generoso e com a
impulsividade do jovem, que por isso é tantas vezes
arrastado sem disso se aperceber, ou convencido de que
segue o seu rumo.
Em 1968, no espaço de 3 dias, agitações provocadas por
estudantes desencadearam-se simultaneamente na América
do Sul, na Europa e na Ásia. Em toda a parte se gritaram
os mesmos slogans, se ostentaram os mesmos cartazes, se
formularam as mesmas reivindicações, se utilizaram as
mesmas técnicas de subversão, ou pelo menos de agitação.
E difícil se torna admitir que países tão diferentes e
tão distantes como a Bolívia, a França ou o Japão
tivessem todos que resolver, ao mesmo tempo e com
urgência, os mesmos problemas universitários. Os jovens
diferem uns dos outros, de país para país e até dentro
do mesmo país. Mas são, todos eles, circuitos em
ressonância. Quando um vibra, os outros vibram. E
gera-se uma unidade que, não sendo real, acaba, às
vezes, por conduzir a situações como aquela que se
verificou em França em Maio-Junho de 1968, e que, com
variantes mais ou menos acentuadas, podem verificar-se
em qualquer país. Em Nanterre, durante este período
conturbado, um dístico colado numa parede dizia: «Sejam
razoáveis! Peçam o impossível!». Esta piada, que se
situa entre a graça pura e a palavra-de-ordem política,
foi excitar, por isso, grupos diferentes, um
não-político e o outro político, amalgamando-os
temporariamente.
É precisamente este amalgamento temporário, é esta
ressonância colectiva, que constituem hoje o grande
perigo da Contestação, pois vão gerar outras reacções em
cadeia, conduzindo ao desconhecido.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
Combats Étudiants dans le Monde – Ed. Seuil, Paris
La Rebelion Estudiantil – Charlton Th Craig (Ed. Plaza Y
Janes)
As Revoltas dos Jovens – J. Sousselin (Ed. União
Gráfica)
Maio e a Crise da Civilização Burguesa – António José
Saraiva (Ed. Europa-América)
A Revolta de Maio em França – Cadernos D. Quixote, N.º
11
Os Hippies. Quem os Conhece? – Cadernos D. Quixote, N.º
29
A Revolta dos Estudantes – Ed. Delfos
Os Hippies – Ed. Europa-América
Marcuse – Alasdair Maclntyer (Ed. Fontana Modern
Masters)
Eros e a Civilização – H. Marcuse (Ed. Zahar)
One Unidimensional Man – H. Marcuse (Ed. Sphere, London)
O Fim da Utopia – H. Marcuse (Ed. Seuil, Paris)
Colaboração diversa em jornais, revistas e outras
publicações
Enciclopédias: Portuguesa e Brasileira; Verbo