.

 

Início O Autor História A Viagem Moçambique Livros Notícias Procura Encontros Imagens Mailing List Ligações Mapa do Site

Share |

Brasões, Guiões e Crachás

Siga-nos

Fórum UTW

Pesquisar no portal UTM

Livros

TRABALHOS, TEXTOS SOBRE OPERAÇÕES MILITARES ou LIVROS

 

 

Estado-Maior do Exército

Português

 

Direcção de História e Cultura Militar

 

 

2ª Rep. do Estado-Maior do Exército (edições do SPEME)
 

Cadernos Militares

 

Elementos cedidos por um Veterano

 

14 - "Problemas da Juventude" (71p. ); Lisboa, Mar71

 

Caderno Militares 14 gr
14 - "Problemas da Juventude" (71p. ); Lisboa, Mar71

 

"Problemas da Juventude"

Índice
1. Introdução

2. Aspectos Principais do Problema
O conflito de gerações
A aceleração da maturidade dos jovens
O aumento da população estudantil
O deperecimento da instituição Família
A insatisfação
A juventude, mercado novo
Os novos ídolos e os novos idólatras
O regresso à Natureza
A ânsia do sensacionalismo
A revolução sexual
A carência ou insuficiência de infra-estruturas escolares
A cristalização das instituições
O pacifismo, o antimilitarismo e o medo à guerra
O espírito de cavalaria do jovem
A politização dos movimentos

3. Os Profetas

4. Características de Vários Movimentos
Beatniks
Hippies
Provos
Gangs
Outros movimentos

5. A Droga

6. A Agitação Estudantil no Mundo

7. A "Revolução de Maio" em França - 1968

8. A "Revolução Cultural" na China Continental

9. Em Portugal

10. Palavras Finais

1. INTRODUÇÃO
A Juventude é um problema.
Conflito de gerações? Há, na problemática actual, elementos que ultrapassam largamente tal âmbito, além de que a agitação dos jovens é, muitas vezes, apoiada por adultos, desde professores universitários a «jovens de 50 anos» que se juntam até aos Hippies.
Problema social? Mas um dos aspectos do problema é, precisamente, o voltar costas aos confortos que o dia de hoje oferece, aspecto em que tal contestação se afasta grandemente das reivindicações operárias, que procuram uma melhoria progressiva das condições de vida, desde menos horas de trabalho a maiores salários.
Problema político? Mas a contestação é feita hoje, quer contra os regimes capitalistas quer contra os socialistas. Durante a agitação de Maio de 68 em França, o PCF e a CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores) por ele dominada aliaram-se praticamente ao Governo, contra os estudantes rebeldes.
Insatisfação? Mas como se compreende que esta insatisfação tenha produzido frutos tão opostos como a não-violência dos Hippies e a violência dos «Blusões Negros»?
Há um conjunto enorme de circunstâncias que conduziram à actual situação. No capítulo seguinte, considerar-se-ão as que se julgam mais importantes. Essas circunstâncias interpenetram-se, e torna-se muito difícil distinguir, por vezes, umas das outras. Mas foram consideradas separadamente por se julgar que deveriam ser individualizadas. Recorreu-se, para a elaboração deste trabalho, não só às obras indicadas na Bibliografia consultada, como também a inúmeros artigos publicados em jornais e revistas. De uns e de outros se extraíram, com frequência, conceitos e maneiras de dizer, tidos como expressivos.

2. ASPECTOS PRINCIPAIS DO PROBLEMA
O conflito de gerações.
Interpreta-se muito o conflito de gerações como um «Complexo de Édipo» prolongado no tempo de vida das pessoas, e alargado a grupos humanos. O Complexo de Édipo, estudado por Freud, recebeu tal nome com base na lenda segundo a qual o rei de Tebas foi informado pelos sábios de que havia de morrer às mãos do primeiro filho que tivesse. Quando Édipo nasceu, mandou seu pai que fosse amarrado a uma árvore, em local ermo, onde morreria à fome ou devorado pelas feras. Mas a criança foi encontrada, salva e recolhida por uns pastores, que a criaram. E mais tarde, num encontro acidental e por motivos acidentais, matou o seu pai. O Complexo de Édipo verifica-se quando a criança, entre os 3 e os 5 anos, ou até antes, experimenta impulsos e afectos diferentes para com os progenitores, os rapazes inclinando-se para a mãe, as raparigas para o pai. E, no desejo de superar o pai nos afectos maternos, o rapaz experimenta um inconsciente desejo parricida, como modo de afirmação do Eu, o mesmo acontecendo à rapariga em relação à mãe. Este complexo, dilatado, explicaria a hostilidade crónica entre gerações contíguas, os filhos pretendendo superar os pais ou libertar-se da sua tutela, os pais vendo nos filhos uns concorrentes, até uns rivais.
Neste conflito de gerações, curioso é verificar a aproximação que se verifica entre as gerações alternadas – o avô apoiando o neto na sua rebelião contra o pai, movido, consciente ou inconscientemente, pelas dificuldades que ele próprio experimentou com o filho, agora pai do neto. Por outro lado, no decorrer das últimas gerações a sociedade transformou-se radicalmente, pelo aumento do número de jovens e de velhos. A esperança de vida em França, por exemplo, que em 1950 era de 55 anos, ultrapassava em 1969 os 72 anos. Ora os velhos tendem a segregar os novos, e a aceleração da História tende a diversificar os comportamentos dos diferentes grupos de idade, os mais velhos procurando assegurar a continuidade e a estabilidade, os mais novos lançados em novas experiências. Outrora, a maior parte dos adolescentes trabalhava, e portanto participava nas experiências e reacções dos mais velhos; eram assinalados peio mundo destes. Hoje, porém, os jovens são mantidos em relativa juventude por largos anos, e têm uma maturidade intelectual e uma amplitude de observação que os distinguem cada vez mais. Não são assimilados pelos mais velhos, e, como tal, idealizam e querem construir por si próprios. Para os jovens de hoje, os valores antigos, pese embora à utilidade que porventura possam ter tido, estão gastos, é inútil referi-los. A História toma um novo significado. A História é movimento, é luta. E, portanto, todo o conservadorismo deve ser rejeitado, posto de parte. Por isso os movimentos estudantis rejeitam as estruturas sociais e políticas actuais, sejam elas capitalistas ou socialistas. Consideram-nas, a todas, ultrapassadas, anquilosadas. Esta visão reformadora torna-se também, por vezes, demolidora, e o conflito orienta-se não só contra a geração anterior, mas também contra todas as gerações anteriores, contra o passado, de que é exemplo típico a hostilidade aos museus, que chega a tomar o aspecto de destruição de objectos culturais testemunhas de tempos antigos. Assim, os jovens «Guardas Vermelhos» da Revolução Cultural chinesa destruíram peças preciosas de museus; e, nos EUA, um grupo de estudantes da associação «Black Masks» barrou, durante duas horas e meia, o acesso ao Museu de Arte Moderna de Nova York, difundindo ao mesmo tempo um panfleto que dizia, entre outras coisas:
«Um novo espírito surgiu. Ardemos com a Revolução. Assaltamos os vossos deuses. Cantamos a vossa morte. Destruímos os museus. Que o passado se afunde sob golpes de revolta». Esta negação do Passado, de todo o Passado, e bem assim do próprio Presente, como elo de ligação com o Passado, é perfeitamente traduzida nas seguintes palavras de Daniel Cohn-Bendit, um dos principais responsáveis pela «Revolução de Maio» em França: – «Fazer tábua rasa de tudo, e tudo reconstruir do zero absoluto ou das ruínas deixadas pelo incêndio da Revolução. O importante não é elaborar uma reforma da sociedade capitalista, mas lançar uma experiência em ruptura completa com essa sociedade». Esta ruptura, curiosamente, desencadeia-se primeiro contra aqueles que estão mais próximos (comunistas: marxistas, trotskistas, castristas, maoistas, etc.; católicos: progressistas, etc.). O Concílio Ecuménico, pretendendo actualizar a Igreja, conduziu ao seu fraccionamento em inúmeros grupos, cada qual pretendendo ir mais além, assumindo posições muito mais revolucionárias do que aquela que, em outra época, originou o protestantismo. Daqui resulta, também, que a ruptura dos adolescentes se dá, antes de mais, com a família. Os pais querem que os filhos acreditem na experiência dos mais velhos; os filhos, porém, querem que os deixem fazer, viver a sua própria experiência, ainda que isso signifique sofrimento, ainda que signifique recomeçar. A relação adulto-jovem já não pode ser a tradicional relação educador-educando. É inegável que na agitação juvenil de hoje há, como sempre houve e sempre haverá, uma forte dose de rebelião contra a autoridade dos pais.
Mas este conceito de pais alargou-se. Todos os pais são contestados, sejam eles os progenitores ou tenham a forma de chefes ou mentores, políticos, religiosos, económicos, escolares, hierárquicos, etc.

A aceleração da maturidade dos jovens.
O aperfeiçoamento das técnicas de ensino, e sobretudo o impacto da televisão, têm provocado uma mais rápida maturidade da criança e do jovem. Os próprios brinquedos, acompanhando a evolução da técnica, vão pondo a criança em contacto com a actualidade científica e técnica.
A criança que assistiu na televisão a chegada do homem à Lua, que nas suas horas de brincadeira enverga capacete espacial e maneja armas extraordinárias, a que as bandas desenhadas dão realidade, tem já uma mentalidade completamente diferente da criança anterior à era espacial. Esta aceleração do progresso leva a pôr de lado, como velharias guardadas no sótão, anteriores concepções. E basta às vezes uma peça nova de mobiliário para ter que se modificar toda a disposição de uma sala, e até de uma casa. A «era espacial» provocou uma revolução semelhante. A criança contemporânea do primeiro astronauta deixou de admitir a existência de um Pai Natal com o seu trajo terrestre e o seu ar bonacheirão, absolutamente incompatíveis, um e outro, com os problemas de viajar no espaço. A criança de hoje chega mais depressa a adolescente, e este a adulto, sem passagem pela fase de adolescente, portanto sem uma evolução com um mínimo de soluções de continuidade. O jovem quartanista de hoje já discute política, já abandona o lar para se juntar aos Hippies – quando, ainda não há muitos anos, os jovens da sua idade jogavam a bola ou ao berlinde.

O aumento da população estudantil.
O aumento da população estudantil tomou, nos últimos 15 anos, um aspecto explosivo. Este aumento foi devido, por um lado, ao decréscimo da mortalidade infantil, e por outro lado ao prolongamento da escolaridade obrigatória, à criação de cursos livres, ao recurso a aulas nocturnas, à concessão de bolsas de estudo em número crescente e outras facilidades, e a criação de estágios de especialização pós-escolar. Tudo isto levou a que continuassem a ser estudantes, indivíduos até 25 anos e às vezes mais, indivíduos que eram considerados, e se consideram, jovens, pelo simples facto de serem estudantes - em contraste sensível com os operários, funcionários públicos ou privados, etc., os quais ainda que mais novos, já não são olhados como jovens, nem como tal se sentem. Invadindo escolas, colégios, liceus, institutos e universidades, os jovens estudantes tornaram-se uma massa já com peso no conjunto da população, e adquiriram a noção da força potencial dessa mesma massa, tradicionalmente irreverente, sequiosa de inovações, receptiva e facilmente emocionável. Esta massa pretende constituir, hoje, uma
classe, pretende ter voz e ser ouvida, pretende participar na edificação do futuro, do seu futuro, em vez de constituir, como até agora, uma promessa, uma reserva, a ante-câmara do futuro, sub-adultos mentais, pessoas a quem apenas se mostra o mundo que virá a ser delas.
Desejam descobrir a vida, por si próprios, em vez de, como até agora, a aprenderem.

O deperecimento da instituição Família.
Os atractivos que a vida de hoje oferece, com a sua multiplicidade de electrodomésticos, e o encarecimento das rendas de casa e da mão-de-obra doméstica, obrigam os pais a trabalhar fora de casa, os dois. E os filhos crescem entregues a criadas, internados em colégios, ou almoçam em cantinas escolares, só aparecendo em casa à noite. O jovem passou a procurar, então, a companhia de outros jovens. E a integração vertical, que era antigamente a regra, deu lugar a uma massificação horizontal, já considerada na alínea anterior, a qual, associada ao número crescente de jovens, tende a dar uma consciência colectiva ao conjunto dos jovens. A Família deixou de poder integrar os seus filhos para além da puberdade. Por tal motivo, todas as teses visando a dissolução da família encontram fácil aceitação nos jovens, para quem a Família-instituição se vai tornando algo cada vez mais distante, e portanto menos significativo. Este facto é aproveitado politicamente pelos movimentos da extrema-esquerda que, na sua propaganda, advogam o aniquilamento total da família, tida como um dos «instrumentos de
opressão» da sociedade capitalista.

A insatisfação.
As gerações que viveram os dramas da última guerra mundial e os problemas da reconstrução resultantes de duas guerras mundiais, procuraram proporcionar aos seus filhos aquilo que não lhes havia sido proporcionado. E as gerações do pós-guerra viram-se envoltas numa camada amortecedora de conforto material. Por outro lado, os pais de hoje procuram suprir a sua falta de assistência ao lar através da oferta de tudo aquilo que se lhes afigura capaz de contribuir para a satisfação dos filhos, desde a liberdade total a tudo quanto constitua ambição dos jovens: guitarras eléctricas, gravadores, discos e gira-discos, motorizadas, automóveis, etc. Mas, assim habituados, quanto mais os jovens têm mais querem, através de uma insatisfação inevitável que os próprios pais alimentam. E esta insatisfação dá origem a procura de novas sensações, que a liberdade usufruída e a derrocada das convenções facilitam. Os jovens querem tudo, e imediatamente. E envereda-se pela
droga, pela exploração sexual. E surge o «teddyboyismo», a fúria de viver muito em pouco tempo, na certeza de que a juventude tem um tempo limitado. E surge a violência, por vezes o aniquilamento alheio e próprio. Disse Robert Kennedy que «o drama da juventude americana é que ela tem tudo, excepto qualquer coisa; e esta qualquer coisa é essencial». Esta frase define, talvez, não só a insatisfação de que a juventude sofre, como também a dificuldade em resolver esse problema.

A juventude, mercado novo.
O aumento do poder de compra da população deu origem a que os jovens vissem consideravelmente ampliada aquela mesada que lhes era concedida para o cinema, para o tabaco furtivo, etc. Rapazes e raparigas deixaram, por isso, de fazer compras integrados na órbita materna. Nasceram como mercado específico. E a indústria e o comércio, fazendo uso de uma publicidade dotada de inova agressividade, foram ao encontro deste mercado, deste maná, adulando-o, seduzindo-o, conquistando-o. Há uma gama imensa de produtos ou atracções que vivem muito dos jovens: vestuário (desde «soutiens» para adolescentes que ainda deles não precisam, mas que as tentam, pelo seu aspecto e pelo seu significado, a casacos às tiras, à maneira dos peles-vermelhas), adornos, instrumentos musicais, gravadores, discos, gira-discos, livros, revistas, cartazes, festivais, cinemas, «boites», etc. Há estabelecimentos que vivem, pode dizer-se, apenas dos jovens, com títulos a condizer:
«Tara», «Calhambeque»,», etc. À sombra dos jovens proliferam, ainda, interesses gigantescos, como é, nos EUA sobretudo, o caso das drogas, ou, ainda, o das limonadas e sandes ou cachorros quentes nos grandes festivais «Pop» ao ar livre, do parque de Golden Gate à ilha de Wight. O custo da organização deste último festival, por exemplo, até ao dia da abertura, ascendeu a 30 mil contos, incluindo instalações, pagamento a cantores, etc.

Os novos ídolos e os novos idólatras.
Ídolos vivos, modelos que o povo diviniza e procura imitar, houve-os sempre: guerreiros, artistas, aventureiros, etc. Mas foi o cinema, sem dúvida, o grande impulsionador da idolatria, graças não só às suas vastas possibilidades de comunicação com as massas, como também à forma como essa comunicação se faz, em salas escuras onde a atenção se concentra numa tela iluminada em que o ídolo aparece em grandes dimensões. O primeiro grande ídolo do cinema foi, incontestavelmente, Rodolfo Valentino, o galã romântico que movimentava multidões de mulheres, solteiras, casadas, mães, até avós, que com frequência desmaiavam à vista do seu ídolo. A expansão da indústria cinematográfica deu origem à multiplicação dos ídolos, que serviam de modelo para tudo, desde modas a procedimentos, através de uma total identificação dos idólatras com eles. Os novos ídolos passaram a compreender, fundamentalmente: Artistas que personificavam a beleza física, masculina ou feminina; Cantores ou bailarinos; »Cow-boys» ou outros símbolos de valentia e desembaraço físico; Cómicos. E surgiram, assim, figuras como Douglas Fairbanks, John Gilbert, Mary Pickford, Gloria Swanson, Tom Mix, Chaplin, etc. Era um pequeno grupo que polarizava a idolatria geral, até porque o cinema era, ainda, uma novidade. O cinema sonoro relegou para o esquecimento ídolos antigos e valorizou ou revelou outros, entre os quais Greta Garbo, Marlene Dietrich, Jean Harlow, Maurice Chevalier, Jeanette MacDonald, Stan Laurel e Oliver Hardy, (Bucha e Estica), etc. Com a vulgarização dos «Westerns», a idolatria estendeu-se aos jovens, entusiasmados com as perseguições a cavalo, os tiros rápidos e certeiros, os punhos rijos do «artista» e a derrota infalível do «cínico». Nova e numerosa geração de ídolos surgiu depois, constituindo a «idade de ouro» do cinema, que durou até à popularização da televisão. Essa geração, pelo seu número, qualidade e variedade, generalizou a idolatria mas dispersou os idólatras. Esta geração compreendeu nomes como os de Clark Gable, Robert Taylor, Gary Cooper, Gary Grant, Errol Flyn, Spencer Tracy, James Stewart, Henry Fonda, Gregory Peck, Glenn Ford, Rock Hudson, Charles Boyer, Jean Gabin, Jean Marais, Bette Davis, Rita Hayworth, Lana Turner, Ava Gardner, Katherine Hepburn, Olivia de Havilland, Grace Kelly, Doris Day, Michele Morgan, Vivian Leigh, Ingrid Bergman, Silvana Mangano, Ana Magnani, Cármen Sevilha, Bing Crosby, Fred Astaire, John Wayne, Bob Hope, Danny Kaye, Fernandel, Cantinflas, etc. Nos «Westerns», porém, surgiu um aspecto novo: a música. O valente vaqueiro, além de todos os anteriores predicados, nos momentos adequados sacava de uma viola ou de um banjo e impregnava a noite e a pradaria de canções românticas. Era o «cow-boy» lírico, que teve grande aceitação. Quando Frank Sinatra apareceu no horizonte, entoando canções repassadas de sentimento, o seu público era já constituído por raparigas solteiras, que alternavam os desmaios com uma inovação: gritos histéricos. Nesta fase do cinema há dois aspectos novos a salientar também: o aparecimento de actores adolescentes e o de actores «duros». O aparecimento de «duros» vulgarizou um novo tipo de ídolo, pouco atraente de aspecto, pelo menos à primeira vista, áspero, rude, mas no fundo um sentimental. Foi o caso de James Cagney e, sobretudo, de Humphrey Bogart. Este último merece um destaque especial porquanto, anos volvidos sobre a sua morte, e duas décadas sobre os seus últimos filmes, viu a sua idolatria renascida das cinzas do passado. As novas gerações, totalmente desligadas dos Gables, dos Powers e dos Flyns, identificaram-se com Humphrey Bogart, redescobriram-no, voltaram a popularizá-lo. Esta idolatria do «duro», do inconformado, do feio, não mais desapareceu, antes evolucionou para ídolos ainda mais duros, mais feios, mais anti-convencionais, mais alienados, mais marginalizados, como Jack Palance, Burt Lancaster, Kirk Douglas, Eddie Constantine, etc, para culminar em Sean Connery, o intérprete dos filmes da série «007» que tanta popularidade alcançaram. O «007», ídolo de primeira grandeza, era uma simbiose de «cow-boy», astronauta, «playboy», polícia e assassino. Nesta senda do anti-convencionalismo apareceram ainda actores como Marlon Brando, Yul Bryner, Jean-Paul Belmondo, etc. Entretanto nasceu um novo mundo paralelo ao cinema, e, por vezes a ele ligado: o do «Rock», com o seu ídolo, Elvis Presley. Não se tratava já, só, de um actor, mas principalmente de um jovem cantor que associava à música, fortemente ritmada, contorções do corpo que provocavam o delírio entre a assistência, então já muito jovem. Havia já, do antecedente, danças movimentadas em que os dançarinos faziam habilidades, como o «Jitterburg» e outras; mas o músico mexer-se também assim, rebolar-se no chão, dar gritos, isso é que era novo. Toda a juventude se deixou embriagar pela nova vaga, e cada exibição do seu ídolo era acompanhada de verdadeiras crises de histeria colectiva. E se as raparigas ansiavam por ver ou palpar o seu ídolo, os rapazes ansiavam por ser esse mesmo ídolo, por arrastar atrás de si vagas de raparigas dispostas a tudo, em troca de um autógrafo, um botão ou um beijo. Por toda a parte brotaram então os sucedâneos de Presley, como, por exemplo, Johnny Halliday, e por toda a parte os jovens espectadores, entusiasmados ao rubro, perdiam muitas vezes o controle e destruíram o que tinham à mão. Irrompeu depois a vaga «Yé-Yé», uma verdadeira crise de infantilidade colectiva, com grupos musicais que se exibiam por toda a parte e enlouqueciam uma assistência já muito jovem. Por alturas de 1954, entretanto, fez a sua estreia no cinema James Dean. Tinha, então, cerca de 23 anos, mas aparentava menos. Provinha de uma família de classe média, sem problemas, mas tinha uma expressão de drama. E nos seus filmes «A Leste do Paraíso», «Fúria de Viver» e «O Gigante» incarnava figuras de jovens em que pareciam ter-se reunido todos os defeitos, todos os dramas do mundo, mas que, por serem jovens, encontravam eco e compreensão entre a juventude, que com eles se identificava. James Dean foi um dos grandes responsáveis pela viragem da juventude, pela verdadeira «fúria de viver» que passou a caracterizá-la. Mas o ídolo músico frenético continuou a existir, depois com músicos «Pop» (abreviatura de «Popular»), à base de grupos de jovens muito novos que à música que tocavam, um subproduto da música negra americana, associavam uma apresentação caracterizada pelo exotismo, um exotismo que já a vaga «Yé-Yé» tinha alimentado. O expoente máximo desta idolatria foi representada pelos «Beatles», os quais se transformaram num verdadeiro fenómeno mundial que acarretou para a Inglaterra tal volume de divisas que os levou a ser agraciados com a mais alta condecoração britânica. Os «Beatles» estabeleceram a transição entre a música «Pop» e a música psicadélico, espécie de bric-a-brac harmónico e rítmico, donde emergem uma influência indiana e uma electrónica exacerbada. Associando a música, as cores vivas e a droga, os «Beatles» sacudiram todo o mundo juvenil fazendo vir à superfície os estudantes dos primeiros anos liceais. A idolatria atingiu, talvez, o auge. Os «Beatles» foram depois intérpretes de alguns filmes de grande êxito, o que alargou sobremaneira a sua influência. E o seu êxito deu origem a proliferação de inúmeros outros agrupamentos, entre os quais os «Rolling Stones», também ingleses e também psicadélicos. A vulgarização da televisão mergulhou em crise a indústria cinematográfica, alterando por completo os parâmetros por que até então se tinha regido. Deixou de haver grande número de actores, baixaram consideravelmente os ordenados destes e diminuiu verticalmente, por isso, o número de ídolos nesse campo. O tipo dos ídolos modificou-se também, e de forma diversa para homens e mulheres. Assim, enquanto as actrizes surgiam essencialmente como símbolos de sexualidade, como Julie Cristie, Jane Mansfield, Marilyn Monroe, Anita Ekberg, Gina Lollobrigida, Sofia Loren, Claudia Cardinale, Raquel Welch, Jane Fonda, e sobretudo Brigitte Bardot, os actores tendiam, uns, a tornar-se heróis apagados, confundindo-se com a multidão, outros, a simbolizar cada vez mais o anti-herói, o desajustado, o marginal, como em fitas do género de «Bony and Clyde», «O cow-boy da meia-noite» ou «Easy Rider». O facto de o número de ídolos ter diminuído, porém, deu origem a uma nova concentração da idolatria, que os grupos musicais «Pop» e psicadélicos favoreceram. Com a politização dos movimentos de juventude, cada vez mais verificada, os novos ídolos passaram a incluir, e muitas vezes passaram mesmo a ser, chefes activistas geralmente ligados a grupos da extrema-esquerda, como aconteceu com Rudi Dutzschke e Daniel Cohn-Bendit, estes dois, no entanto, já com o seu quê de profetas. O fenómeno da idolatria, antigo como a própria vida do Homem, manter-se-á enquanto o Homem existir sobre a Terra. Mas a idade da massa idólatra e a dos ídolos tem vindo, no último meio século, a baixar progressivamente, para se situar hoje, em grande parte, na adolescência, a fase da vida que mais marca as pessoas, por nela se processar, de forma decisiva, a moldagem da personalidade.

O regresso à natureza.
Através dos tempos, o voltar as costas ao conforto e ao progresso, e o regresso à mãe natureza, tiveram sempre os seus simpatizantes, os seus militantes, os seus profetas e até os seus mártires. Personalidades como Buda, S. Francisco de Assis e outros exerceram sempre grande influência, quer no campo do exemplo vivo, como no caso dos dois citados, quer no campo político, como no caso de Jean-Jacques Rousseau.
O ritmo febril da vida actual, a crueldade do domínio da máquina, do computador, e o isolamento do homem de massa nos grandes centros urbanos, vieram dar novo impulso àquele ideal de vida simples e sã. Não é apenas o espírito do desporto que impulsiona os caçadores e pescadores desportivos, mas também, e muitas vezes principalmente, o desejo, mesmo inconsciente, de um diálogo, de uma comunhão com a natureza, ou de um encontro consigo próprios. O movimento Hippy é, na sua essência, a procura de uma maneira de viver divorciada da máquina, do isolamento na multidão e do egoísmo. É a procura da liberdade absoluta, e, em muitos casos, o regresso a natureza, ao ar puro, ao cheiro a campo, ao luar não ofuscado pelas luzes eléctricas, à vida comunal onde se come o que se cultiva ou colhe e onde o dinheiro quase não tem significado.

A ânsia do sensacionalismo.
Os modernos «mass media» dão ressonâncias ilimitadas, no próprio dia, quase na própria hora, aos acontecimentos mais distantes, muitas vezes de importância secundária, mas que as agências transformam em «casos», em notícia. Todos os problemas se tornam universais. Este afluxo de notícias veio dar origem a uma inflação da notícia, a que, por seu lado, deu origem a uma maior procura do sensacionalismo, porque só o sensacional é notícia, num mundo onde tudo hoje é notícia, desde os estragos de um ciclone, no Paquistão, ao casamento do Dr. Barnard, dos raptos de diplomatas na América Latina aos Hippies de S. Francisco, das aventuras dos astronautas à morte de Sharon Tate, dos prémios Nobel aos companheiros da B.B. Deu-se, pois, uma inflação do sensacionalismo, um embotamento da sensibilidade. Esta maré de sensacionalismos transbordou para tudo. E, face à massificação das sociedades, a todos os níveis, a ânsia de sobressair é maior e ao mesmo tempo mais difícil. Há que fugir, a cada momento, ao vulgar. Mas o vulgar vai sendo substituído, vai sendo constituído por invulgaridades de toda a origem. O primeiro desembarque de astronautas na Lua mobilizou a atenção de todo o mundo. Ninguém dormia, quase ninguém comia, todos presos pelos olhos ao módulo lunar ou aos passos dos astronautas na Lua. Mas o segundo desembarque foi já relegado para plano secundário, e só a quase fatal aventura da terceira tentativa conseguiu acordar de novo a atenção geral. Finalmente, a partir do quarto desembarque, muitas pessoas protestaram pelo facto de os seus programas preferidos terem sido substituídos pela reportagem da aventura lunar. Faz-se, assim, uma escalada de loucura, para a qual não há limites. O que interessa é sobressair, é ser falado, é vir nos jornais, é ficar na História. E, para tal, tudo serve: o exotismo, a violência, o «happening». Por outro lado, esta divulgação dos factos vai influenciar as pessoas. Está absolutamente comprovada a influência da imprensa, da rádio, da televisão, do cinema, em factos ocorridos: réplicas de cenas, assaltos a pessoas, assassinatos, roubos, etc. O filme «Bony and Clyde» teve que ser retirado do cartaz de alguns países, depois de se verificar que tinha dado origem a assaltos feitos por jovens, em condições em tudo iguais às projectadas no écran. Nesta sôfrega busca do sensacionalismo se situam certos aspectos dos movimentos dos jovens.

A revolução sexual.
O aumento da população mundial deu origem a dinamização da Indústria e do Comércio. Todo o ser humano, novo ou velho, homem ou mulher, passou a ser encarado como um consumidor em potência. E toda uma técnica de publicidade nasceu e se desenvolveu, com tal fim. As velhas técnicas de publicidade directa, de apresentação do produto, pura e simples, como a de porcos numa feira, foram postas de lado, e substituídas por técnicas de propaganda indirecta, visando não só o consciente, como também o subconsciente e até mesmo o inconsciente, individual ou colectivo. A publicidade debruçou-se sobre a teoria dos reflexos condicionados de Pavlov, sobre os instintos fundamentais que comandam o comportamento do ser humano, sobre o inconsciente colectivo, com os seus arquétipos, sobre o bloqueamento das tendências naturais, os complexos daí resultantes, e a forma de os aproveitar, de os canalizar, e irrompeu fulgurantemente. Ora, um dos instintos mais visados é, sem dúvida, o sexual. E quase não há campanha publicitária que não recorra à exploração deste instinto, seja para o lançamento de um novo modelo de automóveis ou frigoríficos, seja para o anúncio de cigarros, perfumes, vestuário ou espectáculos. As capas de livros, revistas e até discos são, hoje, verdadeiros chamarizes sexuais. Esta revolução foi acompanhada pela evolução da moda, tendente a simplificar o modo de trajar. Tecidos mais leves e mais finos, cores mais vivas, saias mais curtas, camisolas substituindo casacos, calção de banho para os homens, biquini para as mulheres, mini-saias, blusas transparentes, etc. A posição da mulher, no campo sexual, sofreu também uma modificação radical. O budismo, o islamismo e as religiões animistas não se debruçam sobre a mulher, que é esquecida ou encarada como uma origem de prazer para o homem. Foi o cristianismo quem, verdadeiramente, procurou elevar a mulher ao nível de um ser humano, igualado ao homem em direitos e deveres. Mas o cristianismo encarou sempre o acto sexual apenas como tendo a finalidade da procriação.
Ora esta posição, assumida por católicos e por grande parte dos protestantes, tem no entanto sido contestada, de há uns anos a esta data, por certos sectores, quer católicos, quer protestantes. O prazer no acto sexual, reconhecido apenas aos homens, foi nas duas últimas décadas reconhecido também à mulher. Médicos, sociólogos e psicólogos debruçaram-se sobre o assunto e divulgaram ampla bibliografia sobre ele, dando a conhecer a toda a gente como a mulher é um ser susceptível de extrair prazer da ligação carnal, e que deve mesmo extrai-lo, se a relação homem-mulher se processar como, ao fim e ao cabo, a própria natureza manda. A abertura deste tema contribuiu muito para emancipar a mulher, que passou a exigir do acto sexual também a sua quota parte de prazer, de felicidade. Em amor, espiritual ou físico, cada qual deve dar e receber. Esta abertura facilitou a expansão do mundo do sexo, como era natural, por conduzir a um diálogo aberto entre homem e mulher, entre rapaz e rapariga. Em certos países, como a Suécia, foi mesmo oficializado o «casamento de experiência», findo o qual, e só então, os noivos decidem se entre eles há, ou não, afinidades de toda a ordem que justifiquem um casamento definitivo. Paralelamente a tudo isto desencadeou-se a exploração comercial, em grande escala, não só da sexualidade como também do erotismo e da pornografia, exploração que atingiu, hoje em dia, níveis e aspectos nunca imaginados. E difícil se torna a uma comissão de censura determinar qual é fronteira entre a sexualidade e o erotismo, e entre este e a pornografia. Na Suécia e na Dinamarca não há censura de costumes. Cada qual pode fazer o que entender, ver o que quiser, publicar o que desejar, contanto que não afecte a liberdade alheia. A Holanda e a Inglaterra encaminham-se também para tal alvo. Isto tornou possível a realização na Dinamarca, em 1970, de uma exposição internacional-feira de sexualidade, erotismo e pornografia, a primeira do género, que atraiu visitantes de todo o mundo, homens e mulheres, velhos e novos, respeitáveis casais com os seus filhos. De resto, a Dinamarca arrecada fartos proventos da exportação ilegal de material de tais tipos, que entra ilegalmente nos EUA, embalada em caixas de produtos comestíveis ou outros. Também a Suécia se dedica a tal comércio. Na Dinamarca é encarado como uma coisa perfeitamente natural que raparigas estudantes liceais ou universitárias, ou até mesmo respeitáveis senhoras casadas e mães, ganhem uns cobres, em trabalho «part-time», posando para fotografias ou filmes pornográficos. Proliferam hoje na Dinamarca, Suécia, Alemanha, França, Holanda, EUA, com tendências para alastramento a outros países, pequenos estabelecimentos comerciais tipo livraria, intitulados comumente «Sexshops» ou «Pornoshops», onde o mostruário é completo. O sexo invadiu as sociedades industrializadas. O cinema já não é cinema sem cenas nuas. O teatro tem já os seus espectáculos, tipo «Hair», em que os actores se despem em pleno palco. Proliferam nos EUA e noutros países os «Swap clubs», constituídos por casais que permutam os conjugues entre si. Pratica-se também, e em grande escala, o amor em grupo. O «amor livre», em todas as suas modalidades, com todas as suas possibilidades, exigido por rapazes e raparigas desinibidos, rompeu todos os diques de convenções. Praticado em larga escala, mas furtivamente, na época vitoriana, exibido depois em transportes públicos e bancos de jardins em França, o amor livre veio para a rua em todo o mundo e adquiriu foros de intelectualidade. Propagou-se depois à classe média, desceu aos adolescentes, sobretudo com os Hippies, e tornou-se um dos componentes do grande amor universal: o amor pelos outros, pela natureza, pela droga e pelo sexo. A revolução sexual é um dos factores responsáveis pela contestação actual, e também um dos seus aspectos. A «Revolução de Maio», em França, começou, pode dizer-se, a pretexto de os estudantes de Nanterre pretenderem o livre acesso ao internato das raparigas, de dia ou de noite, não obstante o inverso ter sido já autorizado. Igual pretexto serviu de base a graves incidentes verificados em várias universidades americanas. E também em Portugal houve contestação contra a discriminação sexual nas universidades, traduzida na existência de instalações sanitárias diferentes para rapazes e para raparigas.

A carência ou insuficiência das infra-estruturas escolares.
O afluxo de estudantes a todos os níveis do ensino, excedendo as previsões, criou problemas difíceis, e até dramáticos, quer no plano didáctico quer no dos mais altos níveis do planeamento e da decisão. Faltam salas de aulas, faltam escolas, liceus e universidades. Escasseiam os professores e piora a sua qualidade, solicitados pela concorrência de outras actividades, pela procura de cérebros.
Estabelecimentos escolares recém-inaugurados são, já ao fim do 1.º ano, insuficientes. E isto por toda a parte, em todo o mundo. As turmas passam a ser maiores, em vez de menores. Queixam-se professores e alunos. O ensino ressente-se. Geram-se conflitos, em que as autoridades escolares, impotentes, apenas procuram impedir que os descontentamentos se transformem em provas de força – o que muitas vezes não conseguem, até mesmo porque há interessados na agitação, na exploração de tais carências, dentro e fora do meio estudantil.
A propósito dos acontecimentos de Maio-Junho de 1968 em França, o estudante Cohn-Bendit declarou: «Não tínhamos previsto nenhuma prova de força para a Primavera. Segundo a nossa análise, tudo deveria passar-se na próxima abertura das aulas. Nesse momento haveria uma situação objectiva – falta de aulas e professores, desorganização e ineficácia do ensino – que levaria os estudantes a violências, uma vez que eles tinham podido verificar, no ano anterior, como as greves e as manifestações pacíficas não serviam para nada. A crise teve lugar mais cedo porque o próprio Poder a desencadeou (pedido de intervenção da Polícia pelo reitor da Sorbonne). E, uma vez iniciada a escalada, eram obrigados a prosseguir». Paralelamente com as reivindicações quanto às instalações escolares, outras se apresentam quanto às organizações circum-escolares, às quais se exigem benefícios crescentes, e cujo controlo é procurado pelas organizações estudantis de carácter proeminentemente político.

A cristalização das instituições.
A guerra 1939-45 provocou uma sensível paralisação das estruturas dos países nela implicados. Tudo foi orientado para a guerra, uma guerra que exigia avultados braços, cérebros e bens, uma guerra que obrigou a uma conversão quase total da indústria. Finda a guerra, a reconversão deu origem a uma renovação das estruturas, que se cuidava que viessem a servir para largo tempo. O mundo estava preparado para o Futuro, para as novas gerações – contanto que um e outras não diferissem muito dos anteriores. Mas o pior é que diferiram. A energia nuclear, a aviação a jacto, a televisão generalizada, os plásticos, o radar, a avalanche de electrodomésticos a preço acessível, os antibióticos, o avanço da cirurgia, a expansão do livro de bolso, o encarecimento espectacular da mão de obra e a sua rarefacção, a explosão do ensino, a China de Mao, Cuba, a Guerra Fria – todo um mundo novo surgiu e, com ele, uma nova maneira de ser e de viver. Ora esta evolução revolucionária não foi acompanhada pelos pais, pelos dirigentes e pelos estadistas. Não puderam aperceber-se, uns e outros, de que as gerações nascidas no pós-guerra iriam viver num mundo diferente, e que por isso teriam de ser diferentes. Os corpos sociais – estados, organismos profissionais, colectividades ideológicas ou religiosas, etc. – constituem sociedades, e, como tal, estão interessados na sua estabilidade, na sua continuação, na sobrevivência da Ordem que exprimem. E, perante as contestações, essas sociedades reagem de duas maneiras: por um lado, rejeitando toda a contestação; por outro lado, chamando a si certos elementos contestantes. No primeiro caso se situa a reacção à contestação estudantil, juvenil; no segundo, a reacção às reivindicações de carácter social, e por vezes político, dentro do princípio de que todo o homem tem um preço. Quando, pois, a agitação juvenil tomou certo vulto, os estadistas, pais e dirigentes, cuidaram tratar-se da habitual «crise de crescimento». E as instituições mantiveram a sua forma antiga, com a certeza de que os filhos evadidos haveriam de voltar ao lar, quais filhos pródigos. Mas eles não voltaram. Pior ainda, arrastaram consigo novos fugitivos, em ritmo crescente. E quando se deu por tal, já era tarde. A doença havia invadido todo o corpo, todos os membros. As universidades têm sido, na contestação, a grande arena de conflitos.
As universidades passaram a ter, desde o Séc. XVI, um carácter aristocrático, oligárquico. O senado universitário era um meio hermético, onde só penetravam os parentes daqueles que já eram catedráticos, ou quem caísse em graça. Não bastava, para se penetrar em tais meios, ter as qualificações científicas, ter dado provas suficientes. Era preciso, e não menos, ter-se condições para integração no espírito existente. Por isso, e mais do que em quaisquer outras instituições, as universidades resistiram aos ventos da mudança, resguardando em lugar seguro os seus pergaminhos. Por outro lado a cátedra, muito para além de um meio de vida, de um posto emissor de ciência, era muitas vezes antes um «traje de luces», um brazão, uma porta aberta para outras actividades mais lucrativas. Por isso o catedrático reagiu sempre às tentativas para acabar com este «part-time», alegando que os seus proventos de professor eram insuficientes para assegurar o prestígio social que tal posição deveria assegurar só por si. Face à cristalização das instituições, em que, no entanto, nos últimos anos têm sido introduzidas reformas de toda a ordem, com vista a minorar as insuficiências, os estudantes universitários reagem nos seguintes sentidos: Reformas de ensino, com abolição dos exames finais e remodelação das matérias; Autonomia universitária, libertando-se as universidades de intervenções ou influências e pressões exteriores; Autonomia e representatividade das associações de estudantes; Democratização do ensino, devendo entender-se por tal a possibilidade de acesso a todos os jovens qualificados, sobretudo os das camadas sociais menos favorecidas; Transformação do ensino, passando do tipo «derramar ciência» por parte do professor, para o tipo «diálogo permanente». Estas exigências chegam ao extremo de conduzir à criação de universidades-fantasmas, contra-universidades, ou universidades críticas, com professores designados e pagos pelas associações de estudantes, como aconteceu em Berlim-Oeste, nos EUA e na Espanha. Em Berlim-Oeste, por exemplo, perdido o fôlego anti-comunista e face «a uma espada permanentemente suspensa sobre as suas cabeças», os estudantes resolveram interessar-se, de repente, pelos problemas da sua universidade, que pretendiam ver resolvidos, sem perda de tempo e à sua maneira. E assim foi criada a Kritische Universitaat, com a ajuda de sindicatos operários, e de cujo programa constavam matérias como: A função da inteligência e da ciência na guerra do Vietnam; O modelo de Cuba e o futuro da América Latina; Marcuse: «O homem unidimensional» e a teologia; Sexualidade e dominação; Etc.

O pacifismo, o antimilitarismo e o medo à guerra.
O nosso século assistiu já a duas guerras mundiais, que levaram, quem as viveu, a um verdadeiro horror à guerra, horror esse que se transmitiu às gerações seguintes, acrescido de uma descrença na possibilidade de mais guerras mundiais, provocada pelo equilíbrio das forças em presença e sobretudo pela existência de armas nucleares em poder de uns e outros. Mas a verdade é que, apesar disso, a guerra, a ideia da guerra, a realidade da guerra, têm estado sempre presentes em todo o mundo: tumultos, barricadas, greves, atentados, golpes de estado, terrorismo, guerrilha, poder negro, poder branco, poder amarelo, guerra subversiva, guerra fria, guerra quente, guerra psicológica!
Todos nos recordamos da Grécia, Coreia, Argélia, África negra, Hungria, Checoslováquia, Vietnam, Camboja, etc, etc. Tudo isto, acumulado, gerou a saturação da incerteza no futuro e do medo do presente. A palavra «Paz» tornou-se uma obsessão, e ainda mais quanto a propaganda comunista dela se apossou e dela fez um símbolo propagandístico, tal como antes havia feito com as palavras «democracia», «democrático», etc. Nasceu ou cresceu, pois um pacifismo por toda a gente acalentado. Dentro deste quadro, a função do Exército (e nesta designação se englobam todos os Ramos das Forças Armadas), como defensor da integridade territorial, não se ajusta já à mentalidade das novas gerações. Haver alguém que tem por função específica «fazer a guerra», com tudo o que tal ideia tenha de excessivo ou de menos verdadeiro, é coisa que muita gente, sobretudo muitos jovens, já não compreendem, e que muitas outras pessoas se esforçam por que não seja compreendido. O oficial do Exército surge, assim, como um elemento para quem a «sociedade de consumo» não encontra um trabalho de interesse palpável e imediato, sociedade essa que não compreende que possa existir alguém sem uma ocupação efectiva de produção e rendimento. Tudo aquilo que não produz, deve ser eliminado. E o Exército, pelo menos aparentemente, não produz, só consome. Argumentam ainda os antimilitaristas que, havendo pessoas que se dedicam permanentemente ao estudo teórico da «arte de bem fazer a guerra», quando esta surge, quem a vai fazer são, ao fim e ao cabo, aqueles que, na vida civil, calmamente desempenhavam as suas pacíficas actividades e preparavam o futuro. Esta, claro, a maneira de pensar de quem vive fora dos problemas e ignora ou faz ignorar que sem uma estrutura previamente montada, e sem uma chefia competente, qualquer país estaria à mercê de meia dúzia de revoltados, dentro ou fora do território. Por outro lado, o desenvolvimento tecnológico exige cérebros, que são bem remunerados. Por tal motivo, a procura da carreira das Armas tem sido progressivamente menor. Daí resultou uma quebra quantitativa e qualitativa, sobretudo para as chamadas «Armas Gerais», e principalmente para a Infantaria. Ora as novas gerações cresceram dentro de um espírito acentuadamente liberal e anti-intervencionista. E toda esta massa informal, desinibida e indisciplinada, reage contra tudo o que signifique limitações a sua maneira de ser, aos seus desejos, a sua liberdade: a gravata, o vinco das calças, o cabelo cortado, a autoridade paterna, o formalismo escolar, as forças da ordem e, finalmente, o serviço militar. O aspecto formalizado do Exército, com os seus uniformes, as suas formaturas, as suas hierarquias, a sua disciplina, implica com as novas camadas, faz-lhes medo, um medo que é alimentado não só por uma propaganda antimilitarista a nível mundial, como também por certos sectores da Imprensa que estão constantemente a chamar a atenção para os aspectos menos favoráveis do serviço militar e das instituições militares. Assim, a revista «LIFE» tem publicado reportagens depreciativas do Exército americano; a revista «PLAYBOY» publicou artigos descrevendo violências praticadas por graduados contra soldados americanos, etc. O sargento americano é já tido como um bruto, atrasado mental e sádico; e a
propaganda anti-ocidental não se cansa de associar o Oficial do Exército àquele Oficial tipo nazi, rígido, empertigado, irrepreensivelmente fardado, de bota alta muito luzidia, irritante, frio e cruel. As palavras que se seguem, da autoria de um Hippy, traduzem bem este pacifismo e este antimilitarismo: «Como é estúpido batermo-nos por ideias que falam de pátria em perigo ou qualquer outra coisa! Todos os jovens devem fazer a greve da guerra. Responder a golpes com golpes é recusar a evolução! Estou a ver uns senhores importantes, nos seus gabinetes, consultando cifras e decidindo os efectivos de jovens a enviar para o Vietnam. São uns assassinos. Arrogam-se o direito de vida ou de morte, em nome do capitalismo, dos interesses do Senhor X, ou em prol de grandes ideias democráticas. Ora nós recusamos esse direito. Os Hippies não têm chefe. Um soldado é um traidor à humanidade, mesmo que aos olhos da sua pátria seja um herói». A par deste pacifismo-antimilitarismo existe ainda o medo de ir para a guerra, nos países em que ela se verifica. Através da imprensa, do cinema e da televisão, os jovens têm sido amplamente elucidados sobre os horrores da guerra no Vietnam, a par de uma propaganda amplamente orquestrada que mantém vivos os mitos do nazismo e do fascismo e seus pretensos perigos actuais e futuros. Fala-se a cada momento nos males que a nossa guerra causa, mas não se fala nos males que a guerra do outro provoca. Fala-se, por outro lado, na triste sorte dos aviadores presos no Vietnam do Norte. E tudo isto acentua o medo dos jovens, que vêem aproximar-se a altura do serviço militar e só vislumbram hipóteses negras: o sofrimento, a morte, o estropiamento, ou, no mínimo, uma dramática paragem da vida normal. Para esses, há toda uma máquina monumental montada, incitando-os a desertar e fazendo a apologia da paz. Nos EUA, e também noutros países, abundam os cartazes coloridos, os «posters», com motivos pacifistas e «slogans» do género: «Ban the bomb»; «Suppose they gave a war and nobody carne»; «Peace-Love»;
«Make love, not war». Este último «slogan» pode também ser visto em Portugal, com frequência. Nos EUA e na Europa são distribuídas «listas de contactos civis», nas quais se indica onde, ou com quem, se pode discutir a guerra do Vietnam. Em França, a partir de 1966, grupos de alunos liceais levaram a cabo uma acção militante contra esta guerra. E, sobretudo desde 1967, o Vietnam tem sido um catalizador comum das manifestações de jovens em todo o mundo, até em Portugal. São distribuídas publicações legitimando a insubmissão e a deserção, procurando criar a ideia de que quem presta serviço militar é que é desertor, e que quem deserta das fileiras é um herói. Rádio Moscovo, num programa para o nosso Ultramar, dizia aos soldados portugueses: «Deserta! A tua família teria uma grande alegria se soubesse que tinhas desertado! Dá essa alegria à tua família! O soldado que não deserta é que é traidor!». Por toda a parte onde há soldados americanos, são distribuídas indicações sobre: A forma de contestar a incorporação; Incitamento à deserção; Relação de pessoas e localidades onde os desertores podem obter auxílio; Indicação de advogados que estão prontos a defender os desertores ou a aconselhá-los. Num cartaz distribuído a estudantes americanos dizia-se: «Não deixes que te mandem para o Vietnam! Podemos auxiliar-te a combater o alistamento. Não estás sozinho. Assinado: A Juventude contra a guerra e contra o fascismo». Sabe-se como a Suécia tem sido um vasadouro de desertores americanos do Vietnam ou da Europa. Na Holanda e noutros países da Europa, e pelo que nos diz respeito, há organizações que acolhem os nossos desertores e os amparam até terem uma situação assegurada, sob condição de, então, passarem a pagar uma percentagem dos seus proventos para a Organização que os acolheu. O Vietnam por um lado, a OTAN por outro, e a África meridional por outro, tornaram-se os
vértices fundamentais de um polígono de propaganda antimilitarista e pacifista que visa o desmantelamento militar do mundo, mas que, ao fim e ao cabo, apenas está a provocar o enfraquecimento do Ocidente, privando-o das suas bases e das suas zonas de influência. O pacifismo e o antimilitarismo, além de um denominador comum da contestação juvenil, de um elemento de amalgamamento, constituem um dos seus mais poderosos motores e pretextos.

O espírito de cavaleiro do Jovem.
A Juventude – dizia o General Mac-Arthur – é um estado de alma. É um estado de particular receptividade, de particular sensibilidade a tudo quanto seja injustiça. E o jovem de hoje, face a um mundo que, mais de 50 anos volvidos sobre o termo de uma conflagração mundial, e quase 30 após o termo de outra, se vê envolvido, todo ele, em guerras de toda a espécie, com os seus intermináveis cortejos de violências, sofrimentos e despesas, revolta-se contra tal estado de coisas, cuja culpa atribui às gerações anteriores, que não souberam ou não quiseram pôr-lhe termo. E repudia os jogos nem sempre limpos da política, em que os interesses partidários, normalmente mascarando interesses económicos ou ambição de poder, se sobrepõem a tudo. Não compreende, não admite que as terríveis experiências do passado, de um passado ainda recente, desde as destruições de Coventry, Berlim, Estalinegrado ou Hiroshima, aos campos de concentração de judeus, não hajam aberto o caminho a um mundo melhor. Revolta-se contra o que se gasta em armamentos ou em projectos espaciais, e que, aplicado noutros campos, proporcionaria melhores oportunidades a tanta gente delas carecidas. Revolta-se contra o desiquilíbrio crescente entre ricos e pobres, trate-se de pessoas ou de países. Não tolera que haja regiões do mundo onde a esperança de vida ultrapassa já os 70 anos, a par de outras onde não vai além dos 30. Revolta-se contra a burocracia, contra os convencionalismos estéreis ou adulterados pelo tempo. Revolta-se, na América, contra a situação dos Negros; revolta-se, na Hungria ou na Checoslováquia, contra a tirania do poder; luta, na Irlanda do Norte, contra o caciquismo político-religioso. Revolta-se contra a hipocrisia, uma hipocrisia que condena a sexualidade, tida pelo jovem como natural, mas que permite a violência no cinema ou na televisão, violência sob todas as formas, até sádicas, que vai influenciar as crianças. Revolta-se contra a hipocrisia que apregoa aos quatro ventos o problema da droga dos jovens, esquecendo os problemas do tabaco, do álcool ou dos barbitúricos entre os adultos. A droga, que no Ocidente é proibida, é considerada de uso natural na África e na Ásia. Em compensação, nos países islamizados é proibido o álcool que tão graves consequências tem no Ocidente, directamente (doenças) ou indirectamente (acidentes de viação, etc.). O jovem acaba por não se sentir bem em lado algum, porque em lado algum encontra aquilo que procura. No mundo comunista, como no mundo capitalista, solta brados de liberdade. E nunca chega a encontrar o que deseja, porque essa liberdade que procura é um impossível, apenas vive no reino do ideal. Para fazer frente a todos os obstáculos que entravam o seu caminho, o jovem só vê um processo: a Revolução. E, tomando como modelos figuras que foram, essencialmente, homens de acção, abre caminho através seja do que for, cegamente e por vezes fria e cruelmente, na esteira de Trotsky, Guevara, Ho-Chi-Min ou Mao-Tsé-Tung. Torna-se revolucionário na pura expressão do termo, lutando contra o capitalismo de modelo ocidental ou contra o socialismo de modelo soviético. Fanatiza-se, e troca tudo por mitos.
Considera-se um novo cruzado, lutando por sua dama, que tem dois nomes: Justiça e Liberdade. Mas a vida vai girando, e todos os jovens vão sendo ultrapassados. E mesmo os mais radicais, os mais extremistas, descobrem, a certa altura, que outros grupos nasceram, já de si diferentes, ainda mais revolucionários, e que eles são, para os jovens desses novos grupos, apenas uns ultrapassados, uns reaccionários, uns estorvos para o verdadeiro caminho da Liberdade, para o Mundo Novo.

A politização dos movimentos.
A bomba atómica tornou inviável a guerra do tipo convencional entre grandes potências. Por outro lado, a tentativa da antiga Sociedade das Nações de ilegalizar a guerra como forma de resolução dos diferendos entre estados foi retomada e ampliada pela ONU. Como, porém, os antigos interesses prevaleciam, e outros nasceram a reforçar aqueles, e, com uns e outros, as razões que levavam às guerras, as grandes potências tiveram que optar por novos rumos, tiveram que recorrer a guerras que o não parecessem. E enveredou-se então, pelo caminho das guerras quentes, mas limitadas, do tipo Coreia ou Víetnam – em terreno alheio e sem o perigo de escalada nuclear – e pelas guerras em que a violência -material era mínima ou nula, como é o caso dos golpes de estado, das revoltas militares e das guerras subversivas.
O que é uma guerra subversiva? É uma luta levada a cabo no inferior de um território, por parte da população, normalmente ajudada do exterior, com vista a derrubar as autoridades de direito ou de facto estabelecidas, ou, no mínimo, paralizar a acção delas. É perfeitamente possível que tenha havido, ou haja, guerras subversivas puramente locais. Normalmente, porém, as organizações subversivas precisam de apoio externo, político e material. Sem um território onde possam instalar os seus órgãos e de onde possam partir para a luta armada, as subversões não podem hoje vingar. Foi precisamente a falta deste apoio externo que fez abortar as tentativas húngara e checa. Foi o apoio externo, por outro lado, que possibilitou a vitória da subversão na Argélia, em Cuba, etc. A partir de 1945, a luta entre as grandes potências colocou frente a frente o mundo comunista, chefiado pela URSS, e o mundo ocidental, chefiado pelos EUA. Enquanto, porém, a forma americana de proceder foi, essencialmente, envolver o mundo comunista num anel de bases militares, do Japão à Gronelândia, a posição soviética foi a de abrir caminho
através da subversão, de forma a ir furtando ao Ocidente as suas posições estratégicas (o Norte de Africa, por exemplo), as suas fontes de matérias-primas e os seus mercados. Dentro deste quadro, toda e qualquer subversão que se esboce, ainda que esporádica, local, é imediatamente detectada pelo Partido Comunista local, que logo oferece a sua experiência e a sua organização. Normalmente, porém, é o próprio comunismo quem fomenta a agitação, aproveitando, para isso, as motivações negativas das populações, os seus motivos de queixa.
Na guerra subversiva, cuja base é a propaganda (segundo a Escola do Estado Maior do Exército da China continental, a guerra é, hoje, constituída por 30% de força e 70% de propaganda), as armas são as ideias e as balas são as palavras. Ora um dos factos característicos dos movimentos de juventude é a sua politização imediata. Sabe-se como o comunismo, através dos seus partidos nacionais, através da União Internacional de Estudantes, que controla, tem manejado muita da agitação ao nível estudantil. Esta politização é perfeitamente nítida, por exemplo, no conjunto de manifestações e iniciativas que por todo o mundo os jovens têm levado a cabo, não contra a violência em geral, mas contra a violência, ou sua presumível intenção, por parte de países do Ocidente: a luta no Vietnam, o racismo sul-africano, o colonialismo, as bases americanas no Pacífico ou noutras regiões do mundo, o Pacto do Atlântico, etc. Uma guerra subversiva processa-se normalmente através de três formas: acções clandestinas (organização), acções psicológicas (Informação, Propaganda e Contra-propaganda) e acções violentas. As acções violentas compreendem duas modalidades fundamentais: umas a cargo de militantes da subversão e outras a cargo da população. Entre as primeiras contam-se as sabotagens, o terrorismo (selectivo ou indiscriminado) e a guerrilha (emboscadas, golpes de mão, etc.); entre as últimas contam-se as greves, as assuadas, etc., em que as pessoas, impulsionadas por agitadores que muitas vezes nem elas próprias sabem que o são ou onde estão, acabam por tomar atitudes e praticar actos cuja adopção nunca estivera na sua ideia. O que se pretende, com estas manifestações populares, é levar as forças da ordem a intervir, para que daí resultem escaramuças, feridos, e, se possível, mortos, que possam servir de símbolos e dar origem a novas manifestações. Ora um dos objectivos da agitação no seio da massa estudantil é, precisamente, promover a agitação e criar situações irreversíveis que dêm origem a violências mútuas, acirrando ódios, abrindo fossos intransponíveis. "A subversão nasce do nada e por um motivo qualquer" (Mao-tse-tung). A pretexto de tudo e de nada, há reuniões, votações pretensamente democráticas, manifestações de massa. Gera-se a confusão, e uns e outros excedem-se. Então a «repressão», a «brutalidade» das forças da ordem, são narradas, exploradas, ampliadas; e cita-se o caso daquela rapariga que foi barbaramente agredida, sem ter feito nada, – ela era, até, apenas uma espectadora curiosa e inocente; e o caso daquele rapaz que foi arrastado pela calçada como se fosse um saco de batatas. Lançam-se apelos angustiosos à generosidade, à solidariedade juvenil. E gera-se um círculo vicioso, em que intervêm os que não queriam, agravando a situação. E quando há vítimas, a agitação atinge o paroxismo. Em Atenas e no Rio de Janeiro, dois estudantes mortos em tumultos foram passeados por toda a cidade, nos seus caixões, mortos como pessoas – mas vivos, estudantes de vida como símbolos. Geralmente, a iniciativa da agitação parte de pequenos grupos que, na realidade, apenas agem como faísca que incendeia um meio prestes a inflamar-se, e que o faz em momentos precisos, nunca ao acaso, ainda que por vezes as coisas venham a antecipar-se contra a vontade dos agitadores. E quando o incêndio se declara, há uma tomada de posição comunitária, em que razões diferentes levam a atitudes iguais, transformando numa torrente de lava aquilo que era apenas um fio delgado de água quente. Por outro lado, procura-se que esta consciência comunitária se amplie, chamando a si novos grupos humanos. Assim, nos EUA tem-se associado à contestação os negros, com as suas motivações próprias; na América Latina e na Europa tem-se procurado promover a ligação com operários e até camponeses – de que foi exemplo típico a «Revolução de Maio», em França. Esta politização desenvolve-se, finalmente, ao nível das organizações de estudantes. Para defesa dos seus interesses, sobretudo no plano social, foram criadas associações de estudantes, associações académicas, cujas actividades se estendiam por várias modalidades: inscrições e matrículas, cantinas, desportos, grupos corais ou teatrais, etc. Os recursos provinham de cotizações e a inscrição era facultativa. Com a politização dos movimentos, deu-se, primeiro, a infiltração de elementos esquerdistas nas associações, e depois o controle destas, que se transformaram em centros de subversão declarada. Mas os ministérios da educação, dentro de uma mais ampla acção de assistência social, têm dedicado verbas crescentes, e avultadas, às organizações circum-escolares, o que reduziu, de modo apreciável, a importância das associações. Por tal motivo, vem-se assistindo em todo o mundo a um movimento no sentido de um sindicalismo estudantil, obrigatório. Isso teria a vantagem de alargar o âmbito de acção no plano nacional e de facilitar a ligação com sindicatos congéneres de outros países, aumentando portanto as possibilidades de telecomando. É frequente, hoje, os operários de um determinado ramo de um país se solidarizarem com os de um outro onde lavra a agitação social: quando na Inglaterra eclodiu, em 1970, uma greve que imobilizou os caminhos-de-ferro e os portos, os estivadores franceses foram incitados a boicotar os navios que carregassem para aquele país. A politização dos movimentos, de que muitos jovens não se apercebem, ou de que se apercebem quando já é tarde para travar a agitação, é grandemente responsável pois pela agitação estudantil e juvenil que grassa no mundo ocidental.

3. OS PROFETAS
São muito diversas, e por vezes exercendo-se em sentidos contrários, as influências que é possível descortinar nos vários movimentos ou atitudes da juventude actual. De entre elas destacam-se as que se seguem, por se considerar que são as mais nítidas. Mas outras há, evidentemente. As personalidades citadas são apresentadas por ordem cronológica de nascimento.

Buda (-560-480)
A figura de Buda é feita, em grande parte, de lenda, até mesmo porque, havendo na religião budista um mecanismo autónomo de recompensa e castigo, sem intervenção de seres superiores – o que dá origem a que cada ser, ao renascer, tome uma forma mais ou menos elevada, conforme o modo como viveu a vida anterior – há, não um só, mas vários Budas, ou um Buda que viveu vidas diferentes até atingir a perfeição absoluta. Buda, filha do rei da tribo dos Shakys, nascido, sem intervenção de progenitor masculino, do flanco direito da mãe, sob uma chuva de flores, aos 29 anos abandonou todas as riquezas que em casa possuía, todo o conforto, todos os prazeres que lhe eram proporcionados, para se entregar à meditação, em busca da Verdade. E, crendo tê-la encontrado, ou vislumbrado, retirou-se seis anos para uma montanha, onde atingiu a Perfeita Iluminação (donde o seu nome, dado que Buda significa «O que acordou», um acordar para a Verdade, para a verdadeira Vida). Voltou mais tarde à casa paterna, com a sua escudela de mendigo, e converteu os seus pais. Não é um Deus, ou sequer um enviado de Deus, como para os cristãos é Cristo; é apenas um Homem que atingiu o mais alto grau da sabedoria, um ideal. De entre as regras do budismo
salientam-se as seguintes: Não destruir nenhuma vida (Não-Violência); Só receber o que lhe derem (Portanto, dar o mais possível); Ser puro; Não mentir; Abster-se do álcool e dos narcóticos (considerando-se o luxo e os confortos materiais como fazendo parte destes). Os Hippies foram buscar ao Budismo um conjunto de aspectos, desde a simbologia das flores, à não-violéncia e ao repúdio do álcool, mas pondo completamente de lado outros aspectos, como a pureza e a proibição de narcóticos (muito embora o seu abandono dos confortos materiais seja um aspecto deste repúdio dos narcóticos). De entre a simbologia deve destacar-se o facto de Buda, como os Hippies, ter abandonado a casa paterna, em procura da «Iluminação», que encontrou na meditação, no isolamento e na castidade, e que os Hippies encontram, ou dizem que encontram, na solidariedade, na droga e nas práticas sexuais.

Platão (-427-347)
Platão concebeu uma República ideal, em que os filhos deixam de pertencer aos pais para pertencerem à sociedade. Neste conceito, o Homem-ideal é consagrado a criação da Beleza, através dos filhos que tem, das obras de arte que produz ou dos feitos nobres que pratica.
A Beleza é a contra-senha da imortalidade. Há influências platónicas no viver dos Hippies, nas comunas em que os filhos pertencem ao grupo, no culto da Beleza – que se pode traduzir nas palavras de um Hippy: «Tudo o que é belo tem um significado religioso».

Diógenes (-412-323)
Diógenes foi o fundador de uma escola filosófica conhecida por «Os Cínicos». Anti-convencionalistas, os Cínicos deixavam crescer a barba e o cabelo, não se lavavam, rebaixavam o seu modo de viver até ao nível dos irracionais. Desprezando qualquer autoridade estabelecida, viviam voluntariamente a margem da sociedade, dos literatos, dos artistas, dos oradores, dos valores da época, troçando de uns e de outros, acusando os governantes de canalhas e inúteis, usando da agressividade e da obscenidade. Para mostrar o seu desprezo pelo convencionalismo, Diógenes escolheu mesmo, para dormida, um tonel. Foi, talvez, aquilo a que hoje se chamaria o «Primeiro happening» da História. De resto, os Cínicos dormiam onde e como calhava, desprezando todas as comodidades. Há muitas facetas dos Cínicos nos Beatniks e nos Hippies.

Cristo
Cristo faz parte da trilogia fundamental invocada pelos Hippies, constituída também, para muitos, por Buda e Gandhi. A fuga aos bens materiais, o amor ao próximo, a túnica, a barba, etc., ajustam-se perfeitamente à maneira de ser dos Hippies, que por isso declaram que Cristo foi o primeiro Hippy – tal como os Comunistas dizem que Cristo foi também um comunista.

S. Francisco de Assis (1182-1226)
Tal como Buda, S. Francisco abandonou o confortável lar paterno e prescindiu de tudo quanto tinha, de todo o conforto, para iniciar uma vida iluminada pelo amor e pelo espírito de solidariedade. Mas um amor dedicado não só a pessoas como também a animais irracionais, e até às próprias coisas e forças da natureza («Bendito sejas tu, ó Sol nascente!»). Todos, para ele, eram irmãos; o homem, o lobo, as árvores, o Sol, etc., e sobre todos e sobre tudo derramava ele o seu amor, um amor não apenas passivo, mas também dinâmico, realizador, que se traduziu, entre outras coisas, na fundação das três Ordens: a 1.ª, ou dos Franciscanos; a 2.ª, das Irmãs Claristas; a 3.ª, constituída por pessoas que, sem abandonar o mundo, seguiam os princípios fundamentais da vida franciscana. Na maneira de ser dos Hippies puros há muito de franciscanismo, quer no abandono de toda a vida anterior, quer na pregação do amor ao próximo e, de uma maneira geral, a tudo quanto existe (são vegetarianos), quer no espírito de solidariedade, quer ainda na absorção de tudo o que de belo a Natureza pode oferecer. É claro que, em outros aspectos, os Hippies se afastam completamente do franciscanismo, como se afastam do cristianismo ou do budismo. Mas isso faz parte da estranha simbiose que é o mundo Hippy.

Thomas More, ou Morus (1478-1535)
Grande chanceler de Henrique VIII, pediu a demissão quando o monarca abjurou o catolicismo. Foi depois decapitado. A Igreja beatificou-o. Thomas More era apologista das colectividades agrícolas, onde cada pessoa trabalharia, num viver são, em permanente contacto com a terra e com a natureza. Os Hippies de Comuna inspiraram-se nos ideais de More.

Jean-Jacques Rousseau (1717-1778)
Em 1749, ao ler um problema posto pela Academia de Dijon, sobre se o progresso das ciências e das artes teria contribuído para purificar ou para corromper os costumes, Rousseau sentiu-se de repente como que iluminado. E escreveu então uma diabribe contra a civilização e seus males, onde dizia: «O homem é naturalmente bom; nasce com instintos que o conduzem naturalmente ao Bem. Mas a civilização corrompe-o porque desperta o luxo, a cupidez, o ódio. O progresso é palavra vã. Para moralizar a sociedade deve regressar-se ao estado natural, ao estado primitivo». Rosseau tornou-se depois um verdadeiro revolucionário, vendo só opressão e miséria na Ordem social, denunciando a propriedade e hostilizando as convenções sociais. Deve-se-lhe a remodelação do ensino, de modo a torná-lo mais objectivo, intuitivo, colocando o aluno em contacto com as coisas e com a vida, pela adopção de processos didácticos atraentes. A geração revolucionária que sobreveio proclamou-o seu mestre; e nunca, desde então, deixou de ser um profeta dos movimentos de juventude intelectual. Foi pode dizer-se, um precursor da filosofia de Marcuse, que acusa a «Sociedade de Consumo» de relegar para plano secundário a liberdade e a felicidade verdadeira do homem. Muita da contestação actual, sobretudo em França, tem as suas raízes, pois, mergulhadas em Rousseau, que, de resto, é constantemente citado. O apelo ao «regresso à natureza», por outro lado, tem no movimento Hippy de comuna uma tentativa de realização.

Hegel (1770-1831)
Segundo Hegel, se é verdade que não se pode encontrar uma causa primeira para o mundo, pelo menos pode-se encontrar uma razão para as coisas. A Vida é uma luta de forças opostas, tentando combinar-se numa unidade mais elevada, uma luta não só permanente como também necessária. Cada situação (Tese) alberga circunstâncias que se lhe opõem (Antítese), e do conflito entre uma e outra nasce uma nova situação (Síntese) que reúne o conteúdo de verdade que existia quer Tia Tese quer na Antítese. Esta Síntese, por seu turno, cria novas circunstâncias que se lhe opõem, conduzindo a nova Síntese, mais rica, ainda, de conteúdo de verdade. E assim, através de choques sucessivos, de luta em luta, a vida vai progredindo. Da teoria de Hegel derivou a teoria da luta de classes de Marx. E o marxismo é um dos elementos inspiradores dos movimentos de juventude da extrema-esquerda. Por outro lado, a palavra Luta tornou-se um símbolo, utilizado em todos os documentos contestatários da juventude, inspirados ou não no comunismo.

Schopenhauer (1788-1860)
A filosofia de Schopenhauer é impregnada de pessimismo. Para ele, toda a vida, toda a existência, é uma miséria, um mal. A Vontade está sempre descontente, consome-se em esforços que nunca conduzem a uma satisfação duradoura. Cada fim alcançado não faz mais do que suscitar novos fins, que nos fingem a felicidade da satisfação; logo que alcançado esse fim, porém, sobrevêm desengano. O progresso cultural faz os homens mais inteligentes e mais refinados; mas não os torna mais felizes. Pelo contrário, com um conhecimento superior sentem-se com mais intensidade os males da existência. Só existe um meio de escapar à miséria do universo; libertarmo-nos da existência. A intuição estética dá-nos um começo de sabor dessa libertação. A felicidade que a contemplação estética, nos permite é, porém, de curta duração. Negando-se a vida sob todas as formas (o que não se faz por meio do suicídio, que é só a negação de uma forma determinada individual de viver) acaba, com a vida presente, a vida geral. E então penetramos no Nirvana, o reino do repouso absoluto. Há na filosofia de Schopenhauer aspectos comuns ao budismo e a Rousseau. Esta negação da Vida tem sido encontrada, nos dias de hoje, não só em certos aspectos dos Hippies, como também em certos grupos contestários apologistas da violência. Schopenhauer exerceu profunda influência sobre as gerações que se lhe seguiram, de que é exemplo o caso dos sonetos de Antero de Quental.

Proudhon (1809-1865)
Socialista, que influenciou os jovens revolucionários que acorriam a Paris (entre os quais Marx). Escreveu um livro intitulado «Qu'est-ce que la proprieté», em que declarava que «a propriedade é um roubo». Era adverso do princípio da autoridade e grande apologista da descentralização do Poder. Foi quem primeiro usou a palavra «Anarquia», para designar a mais alta perfeição na organização social, assente no livre contrato e na liberdade autodisciplinada dos contratantes. Considerava que, graças ao progresso social, o governo sobre as pessoas se viria a tornar desnecessário. «O governo do homem pelo homem é sempre opressivo». A sua influência exerceu-se não só através das ideias de Carlos Marx, como também directamente. Por isso mesmo o seu retrato, na agitação de Maio de 1968 em França, sobressaía nas paredes da Sorbonne, ao lado dos de Lenine Suevara, Mao e outros.

Carlos Marx (1818-1883)
Impregnado da filosofia hegeliana e do idealismo de Proudhon, Marx considerou que a luta pela felicidade é essencialmente uma luta de classes. Assim a Monarquia Francesa, em luta com o Povo, conduziu à Revolução Francesa, de que resultou o Império. E assim sucessivamente. Para Marx, a Tese do seu tempo era o Capitalismo, por ter traído os Proletários, a quem explorava. O choque entre um e outros havia de dar origem a Revolução, daí resultando, numa primeira e demorada fase, a Ditadura ao Proletariado – demorada pela necessidade de enfrentar as tentativas revolucionárias – e, finalmente, o termo da luta, a situação perfeita, o nivelamento social total, a constituição de uma sociedade sem Estado, auto-governada, todos recebendo igual paga, todos trabalhadores, ainda que cada qual dentro
das suas aptidões. Para Marx, portanto, o Comunismo viria a ser a Síntese final. Marx influenciou profundamente os elementos que fizeram a revolução bolchevista de 1917. Mas a sua influência tem-se mantido viva, renovada, através de Lenine, Mao, Ho-Chi-Min, Guevara e outros, e faz-se sentir fortemente em todas as facções da extrema-esquerda dos movimentos operários e estudantis.

Turguenev (1818-1883)
Por ter desagradado ao Czar, Turguenev foi forçado a abandonar a Rússia em 1855, e foi viver em Baden e em Paris. Em 1862 escreveu o livro «Pais e filhos», em que o herói é o primeiro tipo de Nihilista, de novo estudado em 1887 no livro «Terras virgens». Foi Turguenev quem primeiro empregou esta palavra Nihilismo (do latim «Nihil»-Nada). O Nihilismo era uma atitude filosófica já conhecida nas velhas Ásia e Grécia, mas entendida apenas no campo da teoria do conhecimento. Defendia a inacção, a negação da Vida, a anulação do indivíduo, a sua dissolução no Nada. Há, aparentemente, uma certa analogia com o Budismo. Mas, neste, o indivíduo procura a sua dissolução no Absoluto, para se integrar na verdadeira Vida, e não para deixar de fazer parte integrante dela. Isto é: enquanto no Budismo a dissolução é uma sublimação, no Nihilismo é apenas uma negação, uma anulação, o Zero – e não o Infinito. Atitude de inacção, o Nihilismo apareceu, no entanto, no Séc. XIX, como posição moral no campo das ideias políticas. Caracterizou-se, inicialmente, por uma crítica pessimista da organização social, dado que esta contrariava os direitos do indivíduo e as tendências sãs da sua condição natural. Da recusa sistemática de qualquer coacção exercida sobre o indivíduo, à acção contra os presumíveis autores dessa coacção, a distância era mínima, e depressa foi franqueada. E, assim, a partir de 1875 havia já um grupo terrorista que se intitulava Nihilista.Segundo o Prof. Ronald Hingley, especialista em história russa, as características de nihilista daquela época eram: ser estudante, usar vestuário excêntrico, cabelos compridos (os homens) ou curtos (as mulheres), preconizar e praticar o amor livre, ser materialista, ateu, e crer na felicidade da humanidade. É fácil encontrar muitos pontos de contacto destes Nihilistas, quer com os jovens contestastes de hoje, quer com os Beatniks e Hippies.

Dostoiewsky (1821-1881)
Dostoiewsky foi também considerado um dos precursores do Nihilismo. Profundamente humano, integrando-se nos seus personagens, cuja análise psicológica levava a grandes profundidades, os seus livros são verdadeiras mensagens cristãs, de amor ao próximo, de solidariedade para com os que sofrem, para com os que erram – ele próprio muito errou – e simultaneamente da condenação do gosto do domínio. São suas as palavras: «A liberdade é a marca de Deus no homem». Pela sua vida, impregnada de aventura e dramatismo, e pela sua obra, Dostoiewsky influenciou profundamente as gerações posteriores.

Tolstoi (1828-1910)
Tolstoi foi um revolucionário movido pelo amor ao próximo, de que toda a sua obra está impregnada. Como revolucionário, escreveu palavras cuja actualidade é flagrante, como estas: «O estudante está no seu direito de recusar as formas de educação que não satisfaçam os seus instintos, já que a liberdade é o único critério». A sua influência no dia de hoje é amplamente traduzida no facto de haver uma comunidade hippie nos EUA que adora Cristo, Gandhi e Tolstoi.

Nietzsche (1844-1900)
Nietzsche foi influenciado toda a vida pela fragilidade da sua saúde, e, a partir de certa altura, por uma desilusão amorosa. Segundo ele, o que assegura a Vida é a Vontade de viver. Somente a vontade pode libertar o homem. É a preponderância do espírito sobre o corpo, sobre os males do corpo (fundamento, também, da filosofia Ioga). Incumbe ao homem fazer uso da sua vontade, para viver. A vontade da vida mais forte e mais elevada, não encontra expressão numa luta miserável pela existência, mas numa vontade de Guerra, de Poder, de Conquista. Somente afirmando a sua vontade contra a alheia dominação do Céu pode o homem, de direito próprio, ser livre. E somente sofrendo as trágicas consequências dessa afirmação pode desenvolver a força e o valor da sua liberdade, pois a tragédia força a vontade e transforma-a em poderoso instrumento do homem. «Os apaziguadores, capazes de vender a sua humanidade em troca de uma vida de resignação
complacente e falta de vontade» – devem ser escorraçados. Na sua filosofia, Nietzsche divinizou o homem olímpico, semi-deus, a cujos instintos naturais nada se deve opor. O homem que vive para os outros é um fraco, um degenerado. O ideal humano é o Super-Homem, o egoísta assenhoreador que estende sobre os outros o seu domínio. Nietzsche exerceu forte influência sobre o nazismo, que nele assentou o seu princípio da «raça eleita», perante a qual todas as outras se deveriam curvar. Foi um demolidor, e dele se encontram vestígios nos «gangs» juvenis tipo «Blusões Negros», «Anjos do Inferno» ou outros, com as suas motos super-potentes que passam por cima de tudo e de todos, e nos anarquistas adulterados que vêem no anarquismo apenas uma forma ou um pretexto de destruição.

Lenine (1870-1924)
Revolucionário nato, Lenine tentou pôr em prática as doutrinas de Hegel e de Marx. Interpretando o conceito de Clausewitz, segundo o qual «a guerra não é mais do que a continuação da política por outros meios», Lenine apresentou-o sob a forma: «A paz não é mais do que a continuação da luta por outros meios». Veio a tornar-se o grande doutrinador do comunismo, inicialmente limitado à Rússia, mas, a breve trecho, orientado para todo o mundo. Primeiro chefe do governo russo saído da Revolução de Outubro, Lenine foi um idealista, mas ao mesmo tempo um visionário e um homem de acção; aliando a subtileza, a análise fria e um maquiavelismo acentuado. Disse ou escreveu, por exemplo, o seguinte: «A Política é uma ciência exacta»; «A ditadura do proletariado é uma luta encarniçada e sangrenta, violenta e pacífica, militar e económica, contra as forças e as tradições do Velho Mundo»; «A nossa moral deve ser completamente subordinada aos interesses da luta de classes. Para isso é necessário estarmos prontos a usar todos os estratagemas, a astúcia, os métodos ilegais, e decididos a calar e a esconder a verdade. A moral comunista é tudo o que serve os seus desígnios»; «Dentro de 50 anos, os exércitos não terão mais necessidade de se bater. Nós teremos minado suficientemente os nossos inimigos para que não seja mais necessária a intervenção militar». O programa subversivo e revolucionário de Lenine tem vindo a ser integralmente cumprido, e é nítido, por exemplo, o apodrecimento do Ocidente, ainda que por algumas razões, também, que Lenine não visionou. Mas Lenine permanece vivo como símbolo e como continuador de Marx. Daí o uso da expressão marxismo-leninismo. A sua influência, nítida nas revoluções chinesa, cubana e vietnamita, é nítida, igualmente, nos grupos da extrema-esquerda de hoje, em particular no nível estudantil. Os painéis com a figura de Lenine figuram sempre em locais onde a agitação estudantil atinge maior violência.

Gandhi (1869-1948)
Formado em Direito em Londres, Sandhi fundou em 1921 um movimento, com vista a levar a Inglaterra a conceder a autonomia à índia. Esse movimento tinha a designação de Satyãgraha (Amor à Verdade): «A minha religião baseia-se na verdade (Satyã) e na não-violência. A verdade é o meu Deus, e a não-violência é o meio de alcançá-la. Não-violência é um estado positivo do amor, de fazer o bem mesmo àquele que pratica o mal. É a maior força disponível da humanidade,mais poderosa do que a mais poderosa das armas destrutivas». Em 1929 foi eleito presidente do partido então formado, o Congresso Nacional Indiano, que veio a conduzir o país à independência, atrasada pela guerra 1939-45. Através da não-cooperação, da desobediência civil, da resistência passiva, do não pagamento de impostos, Gandhi transformou numa força poderosa um movimento não-violento. Fez voto de pobreza, envergando apenas uma túnica branca grosseira e sandálias. E utilizou com frequência o jejum como arma política. Foi morto em princípios de 1948 por um fanático, talvez por ter pugnado pela emancipação social dos Párias, dos Intocáveis. Gandhi é um dos Profetas preferidos dos Hippies, incluído na trilogia básica destes, que, como se viu, inclui Buda e Cristo.

Trotsky (1879-1940)
Tal como Lenine, foi um revolucionário nato. Após a morte de Lenine, a sua velha rivalidade com Estaline intensificou-se, e levou-o a exilar-se no México, onde foi vítima de um atentado em 1940. Trotsky simboliza hoje o revolucionário puro, imaginativo, dinâmico e generoso. E o seu exílio e a sua morte trágica reforçaram o seu valor como símbolo. Nos movimentos da extrema-esquerda da juventude de hoje há sempre grupos que se intitulam trotskistas – que se opõem aos Partidos Comunistas, associados à ditadura estaliniana, símbolos do monolitismo, da intolerância e da falta de ideal.

Jean-Paul Sartre (1905 a .)
Marxista convicto («Para nós, o marxismo não é somente uma filosofia; é a atmosfera dos nossos dias, o meio em que nos alimentamos»), assumiu sempre posições políticas que normalmente provocavam conflitos com o PC Francês. Filósofo, escritor, dramaturgo, professor, foi o autor da filosofia conhecida por Existencialismo Ateu. Segundo esta doutrina filosófica, o homem não é mais do que o que ele próprio se faz. Deus não existe, e portanto tudo é permitido. Não há desculpas para o homem. Escolher ser isto ou aquilo é afirmar ao mesmo tempo o valor do que escolhemos. E o que escolhemos é sempre bom para nós; e nada pode ser bom para nós sem que o seja também para todos. Só há realidade na acção. O homem não é senão o seu projecto, só existe na medida em que se realiza; não é, portanto, mais do que o conjunto dos seus actos. Por outro lado, o homem não está fechado dentro de si mesmo, mas sempre presente num universo humano. É procurando sempre fora de si que o homem se realiza como ser humano. O homem é a existência no momento presente. Sartre influenciou fortemente intelectual e
politicamente, as gerações do após guerra, dada a sua múltipla qualidade de intelectual, filósofo, político, professor e herói da Resistência. As suas ideias filosóficas conduziram ao clima de sofistificação que teve o seu centro nos cafés e caves de Saint Sermain-des-Prés, onde se juntavam os jovens intelectualizados que foram os precursores dos Beatniks, vestindo à vontade, usando cabelos compridos e cantando canções diferentes, num ambiente saturado de fumo de cigarros e ensimesmamento. Em toda a agitação estudantil em França, Sartre tem procurado, por um lado, manter-se a par da evolução da situação, enriquecendo a sua experiência de professor e filósofo, e, por outro lado, manter a sua influência, misturando-se com os contestatários, apoiando-os, estabelecendo diálogo público com eles. Mas é considerado ultrapassado pela grande massa da nova esquerda.

Herbert Marcuse (1898 a .)
Alemão de origem judaica, formou-se em Filosofia, tendo a sua tese versando Hegel. No ano em que se formou deu-se o advento do nazismo, o que o levou a fugir para a Suiça, onde exerceu o magistério durante um ano. Em 1934 foi para os EUA, e de então para cá tem exercido o magistério de Filosofia, Sociologia e Economia Política em universidades americanas, alternando com alguns períodos em Paris e 10 anos na Secção da Europa Oriental do Departamento do Estado. Publicou em 1941 o livro «Razão e revolução: Hegel e a teoria social», em que estabelece a ligação entre a filosofia hegeliana e a Revolução Francesa (ligação entre a Filosofia e a Política). Nas suas obras posteriores, sobretudo em «Eros e a civilização» (1955) e em «O homem unidimensional» (1964), fez uma reinterpretação de Freud, depois uma correcção às teses de Marx, e finalmente uma crítica aquilo a que chamou a «Sociedade de Consumo». Publicou, ainda, outros trabalhos e livros, como «O fim da utopia» (1968). Segundo Marcuse, o homem deve libertar-se na pureza inicial dos seus instintos, já que está determinado constitucionalmente pelo princípio da Vida (Eros) e pelo da Destruição (Thanatos). Toda a moral, social ou individual, que não seja a plena satisfação de tais impulsos, terá um carácter repressivo. Por outro lado, e ao contrário de Marx, o qual declarava que a transição da vida social e da sociedade para a felicidade eterna da liberdade total teria que ser feita sob a lei de uma ditadura temporária, Marcuse proclamou a necessidade de uma liberdade imediata de acção, e por isso nega a necessidade de uma fase intermédia, ainda com leis e governação.
Segundo Marcuse, e ao contrário também do que Marx afirmava, já não é a classe operária a designada pelo destino, na sua qualidade de oprimida, para levar a cabo a Revolução. Os operários dos países industrializados foram arrastados pela miragem dos bens de consumo e constituem hoje uma burguesia. Portanto, só podem fazer a Revolução aqueles que são excluídos deste mundo de motores e de conforto, ou que a si próprios se excluem: as massas miseráveis dos países subdesenvolvidos, as minorias intelectuais, os negros americanos. A tecnologia das sociedades avançadas permitiu-lhes eliminar a luta de classes, pela assimilação de todos aqueles que em anteriores formas de sociedade forneciam as vozes e as forças de contestação. Satisfazendo o homem, as suas razões de protesto são removidas, e ele torna-se o instrumento do sistema dominante. A Sociedade de Consumo, portanto: Satisfaz necessidades que, de outra forma, levariam a protestos; Identifica as pessoas com a Ordem estabelecida. O usufruto dos confortos materiais tende a enfraquecer quaisquer impulsos com vista à autodeterminação. A felicidade que o homem passa a usufruir não é, pois, a verdadeira felicidade, porque o limita, porque o amarra, ao passo que a verdadeira felicidade é a libertação total. Há necessidades reais e necessidades falsas. As falsas são as que são impostas ao indivíduo por interesses particulares interessados na repressão dele. É o caso das vantagens materiais. Mas as pessoas não são, necessariamente, elas próprias, os árbitros daquilo que realmente precisam. Numa sociedade como a nossa, as pessoas não são livres. E portanto não são felizes, ainda que julguem sê-lo. Neo-freudiano, marxista, beneficiando da sua dupla posição de europeu e americano, de professor no Velho e no Novo Mundo, Marcuse, não obstante as suas teorias serem discutíveis, tornou-se um verdadeiro profeta de certas facções da juventude actual, sobretudo universitária, e serviu de base a agitadores juvenis que actuaram em Berlim, em França e nos EUA. Nos incidentes de Maio de 1968 em França, e na própria filosofia dos Hippies, há muitos traços da filosofia marcuseana, quer no que respeita à crítica da sociedade dos países industrializados, quer no que se refere à intenção de transformar os estudantes numa nova classe social, em detrimento da classe operária. Os críticos de Marcuse acusam-no de «aliar maquiavelicamente Freud e Marx».

Henry Miller (1891 a .)
As suas obras, impregnadas de sexualidade, erotismo e pornografia, recheadas de palavras obscenas, influenciaram poderosamente as gerações das décadas de 50 e 60, e de um modo muito especial os Beatniks.

John dos Passos (1896-1970)
Escritor anticonvencionalista, quer na forma de escrever quer na de apresentar os seus textos, alternando o texto com desenhos cheios de humor, modificando o tamanho e o tipo das letras conforme o impacto que pretendia criar, tornando mais vivo o texto, John dos Passos deu um passo decisivo para a libertação das peias convencionais.

John Steinbeck (1902-1968)
Escritor dos humildes, dos alienados da sociedade, Steinbeck marcou uma posição indiscutível na literatura americana e até mundial, não só pela sua apologia dos deserdados, visando minorar a sua situação material, como foi o caso do seu livro «As vinhas da ira», como também pelo carinho, pela ternura como traçou esses pobres, os alienados, por vezes os anormais, apresentando-os como seres profundamente humanos e cheios de interesse – caso dos seus livros «Pastagens do Céu», «Bairro de lata», «Um dia diferente», etc. Steinbeck foi um Charlot da prosa, fazendo surgir a luz do sorriso e até do riso na escuridão do drama pungente. O seu inconformismo atraiu sobre si a atenção das gerações de 50 e de 60, influenciando-as no sentido de um espírito de solidariedade para com os marginalizados.

Che Guevara (1928-1967)
Nasceu em Buenos Aires, de família rica. O pai era arquitecto. Matriculou-se em Medicina, mas, não se conformando com a atmosfera política do país, abandonou-o, propondo-se percorrer toda a América do Sul em bicicleta. Em 1954 estava na Guatemala, e tomou parte, ao lado dos operários, no golpe de estado que depôs o presidente. Refugiou-se depois no México, onde veio a conhecer Fidel de Castro, o qual preparava a invasão de Cuba e com o qual se ligou fortemente com vista à realização de tal empresa. Dedicou-se, então, ao estudo teórico e prático da técnica de guerrilhas, e em Dezembro de 1956 fez parte do grupo de 80 homens que desembarcaram em Cuba e se tornaram o fulcro dos elementos que, com base na Sierra Maestra, vieram a derrotar o governo e a apossar-se do poder. Foi, depois, presidente do Banco Nacional e Ministro da Indústria, chefiando ao mesmo tempo o partido único oriundo da revolução. Incompatibilizando-se, então, com Fidel de Castro, deixou Cuba, passando a levar uma vida errante e misteriosa. E em Março de 1965 desapareceu, tornando-se uma figura lendária sobre cuja morte ou cuja vida corriam as mais desencontradas versões. A verdade é que procurava levar a Revolução a toda a América latina. Em 1967, localizado na Bolívia com um grupo de guerrilheiros, foi ferido, capturado e depois morto. Opondo-se ao conceito soviético, segundo o qual a luta armada só deve ter lugar, se tiver, depois de uma adequada mobilização e doutrinação das massas, Guevara defendia o ponto de vista de que as massas não têm, hoje, possibilidades de se opor às forças da ordem, e, por isso, haveria que organizar grupos de guerrilheiros muito mentalizados, muito bem armados e resolutos, que levassem os habitantes hesitantes, temerosos ou apáticos a decidirem-se a apoiar a luta.
A sua actuação no continente sul-americano valeu-lhe o afastamento da Rússia e até da China, pelo que se encontrava isolado quando morreu. Homem de ideal e de acção, com um aspecto jovem, Guevara entrou na lenda mesmo antes de morrer. E, pela sua vida romanesca, pelo seu esforço infatigável, pela sua ousadia, pela sua valentia, até pelas circunstâncias da sua morte, tornou-se um ídolo e um profeta da juventude ligada às esquerdas ou extremas-esquerdas, e o seu retrato, em cartazes enormes, está difundido por todo o mundo.

Rudi Dutzschke (1943 a .)
Nasceu em Berlim-Este, filho de um carteiro prussiano. Aos 17 anos ingressou nas «Juventudes comunistas», mas no ano seguinte (1961), não se conformando com o alistamento obrigatório para o serviço militar, fugiu para o sector ocidental, e resolveu estudar Sociologia. Marxista, mas desligado de Moscovo e de Pequim, fundou em Berlim-Oeste a «Liga Socialista dos Estudantes», apenas com 3000 membros, mas muito activos. Os seus adeptos tinham como grito de guerra: Ho-Che-Du (De Ho-Chi-Min, Che Guevara e Du Tzschke). Fomentador da agitação estudantil no sector ocidental de Berlim, entrou em conflito declarado com o jornal Das Bild (4 milhões de ex.), exigindo a nacionalização deste e a sua transformação em cooperativa operária. Este jornal condenava a carácter violento da contestação estudantil. Na Páscoa de 1968 Rudi (conhecido entre os seus adversários por "Rudi-O-Vermelho" foi alvo de um atentado a tiro, por parte de um jovem da extrema-direita. Atingido com 3 balas, foi internado no hospital. E entrou na lenda. Tornou-se um mártir, um herói, um símbolo. O seu retrato passou a enfileirar com os de Guevara, Mao, etc. No dia seguinte ao do atentado, o edifício do jornal foi saqueado por estudantes enfurecidos, que durante mais de uma semana se dedicaram, depois, a manifestações violentas. Rudi foi depois para a Inglaterra, a pretexto de tratamento. Mas só foi autorizado a permanecer neste país com a condição de não participar em actividades políticas. Terminado o tratamento, foi autorizado a matricular-se em Cambridge. Não respeitou, porém, as condições impostas e por isso, em Janeiro de 1971, foi considerado indesejável pelo Governo inglês, e convidado a abandonar o país. Rudi argumentou que o debate público de problemas políticos não constituía actividade política, mas os seus argumentos foram rejeitados e a sentença mantida. Em meados de Fevereiro seguinte mudou-se para a Dinamarca, onde foi autorizado a permanecer temporariamente e a exercer, até, as funções de assistente em uma universidade. É fervoroso adepto das teorias de Marcuse, denunciando ferozmente a «Sociedade de Consumo» e as «Glórias Estabelecidas». Palavras suas: «Trata-se, para nós, de não aceitar mais um mundo que fala de paz mas tolera a guerra, um mundo que fala de liberdade mas aceita as hiprocrisias do Capitalismo, que fala de progresso mas suporta a asfixia da burocracia comunista».

Daniel Cohn-Bendit (1945 a .)
Nasceu em França, de um casamento franco-alemão. Matriculou-se em Sociologia na Faculdade de Nanterre, perto de Paris, onde era tido como um aluno brilhante. Organizou um grupo da extrema-esquerda, muito activo, mais tarde chamado «Movimento do 22 de Março», por analogia com o movimento que levou Fidel de Castro ao poder em Cuba. E escreveu então, entre outras coisas, um panfleto que advogava a violência como única forma de procedimento. São palavras suas: «Há 3 temas permanentes: a luta contra a repressão, contra a autoridade e contra a hierarquia. E como estes três fenómenos se encontram tanto a Este como a Oeste, a minha oposição às formas de organização das sociedades de Este e de Oeste é total»; «A tese de Mao sobre os camponeses foi sempre uma tese anarquista. Mas agora fizeram de Mao um mito, e não me interessa dialogar sobre o mito de Mao, sobre o livrinho vermelho, etc»; «Marcuse é, para nós, um ponto de apoio»; «Sartre é o após-guerra. Nós estamos já noutro estádio»; «Rousseau é um pensador que nos influencia»; «Os trabalhadores, os camponeses, formam uma classe e têm interesses objectivos. As suas reivindicações são claras e dirigem-se ao patronato, aos representantes da burguesia. Mas os estudantes? Quem são os opressores senão o Sistema? O Sistema é que é violento, a Sociedade é que é violenta». Os objectivos de Cohn-Bendit são: Construir um estado social que não reconheça governo, exército ou religião; Abolir o casamento, civil ou religioso; Eliminar todas as fronteiras entre países. Cohn-Bendit foi o elemento preponderante da «Revolução de Maio» em França, e deslocou-se a vários países da Europa, em missão de agitação estudantil. Escreveu, entre outras obras panfletárias, um opúsculo intitulado «O esquerdismo, remédio da doença senil do Comunismo», em oposição a um opúsculo de Lenine intitulado «Esquerdismo, doença senil do Comunismo». Cohn-Bendit, tal como Rudi Dutzschke, ultrapassou já as fronteiras da idolatria para se tornar um profeta da juventude da nova esquerda.

4. CARACTERÍSTICAS DE VÁRIOS MOVIMENTOS

Os Beatniks
A palavra Beatnik tem a sua origem, segundo parece, em «Beaten»-Batido; segundo alguns, no entanto, deriva de «Beat»-Bater; finalmente, outros consideram-na uma forma contraída da palavra Beatitude. Talvez resulte, mesmo, do conjunto de todas estas ideias, em que o «Beaten» tem um sentido activo, como foi, por exemplo, o caso dos nossos «Vencidos da Vida». O movimento Beatnik nasceu nos EUA após a 2ª guerra mundial, talvez em Nova York, por volta de 1950, pela mão de jovens veteranos do exército americano inspirados nos existencialistas de Paris.
Foi um movimento intelectualizado de protesto contra os convencionalismos, no período de distensão e da reconstrução do após-guerra. Não tinha carácter político ou de reinvindicações sociais. Os seus elementos eram artistas revoltados contra a «standardização» da sociedade americana. Amalgamavam os preceitos do Ioga, a não-violência de Gandhi e os princípios do Evangelho, mas modificando-os a seu modo, por forma a justificarem os excessos sexuais e o uso de drogas. Anti-racistas, apóstolos da não-violência, e, como tal, partidários da paz, um pouco contemplativos, um pouco vagabundos, descalços, barbudos, de cabelos compridos, vestindo «blue-jeans» e de guitarra a tiracolo, corriam o mundo expondo e vendendo as suas pinturas, fortemente influenciadas pelo expressionismo abstracto, onde predominava a cor negra. Pelo seu vestuário e hábitos, em contradição permanente com os usos da época presente, tinham a preocupação de exprimir o seu profundo desacordo com uma civilização que, a seu ver, apenas considera o indivíduo em função do seu poder de compra – influência nítida das teorias de Marcuse.
Tinham uma mentalidade cinzenta, que se exteriorizava num «jazz» progressista, cerebral, frio, introvertido. Foi, a princípio, uma contestação idealista. Com eles nasceu a palavra «Happening». O «happening» é algo que desconcerta: tomar banho numa fonte pública, instalar uma cama no meio da rua, etc. Não há cenário. A coisa «acontece», produz-se, e tanto pode acontecer no meio de uma sala como no meio da rua ou à beira-mar. Os intervenientes fazem qualquer coisa, pouco importa o quê, mas provocante, que se transforma num acontecimento real. Os Beatniks foram divididos pelos estudiosos em três correntes diferentes.
Up Beatniks: Protestam de maneira construtiva contra a ordem actual, contra o sistema, as inibições e as proibições ultrapassadas, as maneiras de agir tradicionais, os interesses limitados, a adesão a normas estéticas estereotipadas, etc. São jovens que pretendem de facto explorar novos meios de expressão, tanto na música como na dança, no teatro ou nas artes decorativas. Buscam um novo tipo de relações entre os homens. Procuram antecipar uma vida futura mais interessante, mais variada, mais satisfatória. Muitos são bastante inteligentes e de cultura vasta. Gostam de entrar em debate. Incomodam geralmente o poder constituído, mas a sua seriedade é indiscutível e a sua acção tem possibilidades de resultar.
Down-Beatniks: Mais arrogantes, mais negligentes quanto à higiene e forma de vestir do que os anteriores, protestam mas não de maneira construtiva, porque não sabem definir soluções de alternativa. Protestam por puro espírito de contestação.
Off Beatnicks: São as «ovelhas ronhosas»: refugiam-se no álcool, na droga e no vestuário extravagante.
Algumas frases de Beanicks: «A palavra Beat define um estado de espírito privado de tudo quanto não é essencial, receptivo a tudo quanto o cerca, mas alérgico a toda a obstrução trivial. Ser «Beat» é estar no fundo da sua alma, na espectativa»; «Se existe um Deus, não é por certo uma máquina»; «Estamos convencidos de estar integrados numa alma que participa de todo o Universo». Os Beatniks foram fortemente influenciados por Rousseau, John dos Passos, Steinbeck, e sobretudo por Henry Miller.

Os Hippies
No Séc. XVII, os membros de uma seita religiosa intitulada «Diggers» decidiram viver com os primeiros cristãos, em comunidade, abolindo o dinheiro, sendo afáveis para todos e fazendo da filantropia um objectivo. Mas a sociedade puritana da época reagiu e o chefe da seita foi queimado. Emmet Grogan, um dos mais populares «Gurus» dos Hippies, disse: «Nós, os Diggers de hoje, não teremos o mesmo fim porque os tempos são outros». Esta palavra «Diggers» é aplicada hoje na acepção de cadeias de solidariedade que nos EUA e no Canadá ajudam os Hippies. Por alturas de 1960, Timothy Leary, então professor da Universidade de Harvard, deu o nome de Psicadélica ao conjunto dos efeitos coloridos proporcionados pelo uso de uma droga designada abreviadamente por LSD, droga que ele aconselhava aos seus alunos. Daí a alcunha que lhe foi dada de «Avô da LSD». Estas visões coloridas alargaram-se depois a outros âmbitos: vestuário, pintura, cinema, etc. Leary, preso e condenado, evadiu-se depois da penitenciária onde cumpria a sua pena e encontra-se actualmente [meados de 1971] na Argélia.
Os Hippies dos anos 60 são, pode dizer-se, os descendentes directos dos Beatniks dos anos 50. Não obstante, porém, as grandes diferenças entre uns e outros e a metamorfose sofrida de um movimento para o outro, certas características dos Beatnicks mantiveram-se, como o pacifismo, o anticonvencionalismo, a predilecção pela droga, as práticas sexuais livres, a vagabundagem e um acentuado pendor para o misticismo oriental. Pode dizer-se, talvez, que a divulgação do movimento Beatnick pelos meios de comunicação com a massa abriu o caminho à expansão da ideia e à sua assimilação pelos jovens da classe média, dando origem ao movimento Hippy. Na Primavera de 1965 assinalou-se a deslocação a Londres de Allen Ginsberg, o poeta e profeta oficial dos Hippies americanos, o qual fez uma conferência no Royal Hall que se considera como tendo dado início ao movimento Hippy na Inglaterra. Em 1966 reaiizou-se em S. Francisco o primeiro festival Hippy, um festival-piloto que iria abrir o caminho a muitos outros. Em Dezembro desse mesmo ano, e em resposta a um apelo «Natal em Katmandu», lançado de Paris, cerca de 200 Hippies, idos de todo o mundo afluiram à capitai do Nepal, onde nunca mais deixaram de estar. Mas a grande arrancada deu-se no dia 15 de Janeiro de 1967. Na manhã deste dia, uma cadeia de rádio de S. Francisco transmitiu um apelo no sentido de os jovens comparecerem no parque de Golden Safe, levando consigo trajos e ornamentos exóticos e crianças. E juntaram-se para cima de 10.000 (40.000 segundo certas versões), envergando vestuários matizados, lenços ou fitas à volta da testa, como os ciganos ou os índios americanos, flores, campainhas, penas, colares, guizos, pandeiretas, flautas, etc. Misturaram-se todos na relva, partilharam a comida, agitaram bandeirolas, contemplaram as brincadeiras das crianças ou dos cães, queimaram paus de incenso, ouviram música e palavras do «Avô da LSD», do «profeta Ginsberg», e ainda versos de Leonnore Kandei, uma poetisa cujo livro «The love book» continha poemas tão cheios de palavras obscenas que veio a ter todos os exemplares confiscados. Em 17 de Junho realizou-se o primeiro encontro de Hippies em Londres, a favor do livre consumo da droga. Em 8 de Outubro estava previsto o primeiro encontro de Paris. Impedidos de o fazer os Hippies marcharam para a embaixada americana, em frente à qual, silenciosamente, manifestaram a sua solidariedade para com as vítimas do Vietnam. Não obstante as tentativas de universalização do movimento, os Hippies constituem, fundamentalmente, um fenómeno americano, pois só nos EUA se reúnem as condições ideais para isso: um clima favorável (Califórnia), uma sociedade suficientemente rica para poder auxiliar quem nada faz, uma industrialização de alto nível, um problema racial grave, e uma guerra (Vietnam) a servir de polarizador. Por outro lado, e não obstante o movimento ter tido início, segundo se crê, em Nova York, depressa deslocou o seu centro de gravidade para a costa do Pacífico. E hoje são os Hippies da Califórnia que dão o tom. O epicentro é o bairro de Haight Ashhury, em pleno coração de S. Francisco, em cuja área já havia, em fins de 1967, cerca de 50.000 Hippies.
O que caracteriza basicamente o movimento Hippy? As seguintes atitudes: A negação de uma sociedade que se baseia no trabalho («Trabalhar para viver e não viver para trabalhar!»), na situação estabelecida e no poder («Abandona! Deixa a sociedade, tal como a conheceste!»); O pacifismo, e, como corolário, a oposição ao serviço militar («A guerra é deles, não nossa!»); A alegria de viver, com base na recriação de um novo tipo de homem: o que não possui nada, que vive em contacto com a Natureza, com a qual se funde, e para quem tudo e todos são irmãos; A criação de uma religião em que se caldeiam todas as religiões, com um certo predomínio do misticismo asiático e da filosofia contemplativa budista; Proselitismo, cada Hippy deve catequizar os outros («Liberta todos os burgueses que encontrares»); O uso de drogas («Por meio da droga morre-se e ressuscita-se»); A Psicadelia; A vida comunitária, expressão máxima da solidariedade; A liberdade sexual, o amor físico é uma coisa natural e como tal deve ser encarado e praticado; A liberdade total, quer no aspecto da propriedade («Nós somos como os ciganos: o que nós queremos é não estar amarrados a nada!») quer no aspecto das atitudes («Faz o que te apetecer, onde te apetecer e quando te apetecer»); Indiferença total em matéria política. A negação da sociedade em que viveram é feita pelo desprezo dos seus costumes e dos seus códigos morais. Os Hippies afastam-se de tudo o resto, tornam-se ou consideram-se expatriados morais que permaneceram no país. Tudo o que vestem ou usam deve obedecer a um critério: nada deve parecer-se com o que os pais usam. Daí as túnicas, os modelos de peles-vermelhas americanos, os colares exóticos, até mesmo o uso de antigas fardas da Guerra de Secessão, etc.
Em fins de 1967 os Hippies americanos começaram a abandonar em grande número as cidades e a emigrar para zonas rurais, adoptando, muitos deles, um modo de viver privado de tudo aquilo que significasse conforto material. Organizaram-se, segundo uma forma tribal copiada dos índios americanos, em comunas rurais. Reaprenderam, dessa forma, a viver em sociedade, mas fora das leis que regem a sociedade oficial americana. E assim nasceram muitas aldeias ou comunas rurais, «Drop Cities», do Canadá ao México, abrangendo, em breve, cerca de 600.000 jovens, na sua maioria oriundos da classe média. Nessas comunidades cultivam vegetais, adoptam um regime vegetariano e dedicam-se ao artesanato. Para os Hippies que continuaram a viver em cidades (em S. Francisco chegaram a ser 300.000 em 1967) criou-se um conjunto de cadeias de solidariedade, os Diggers, com aspectos que as situam entre o «Farrapeiro de S. Vicente de Paula» e a «Sopa dos pobres». Por outro lado, os grupos de música «rock» criaram um fundo comum que permite manter restaurantes, mini-mercados e casas de artigos de vestuário onde tudo é grátis para os Hippies. Finalmente, abriram numerosas clínicas gratuitas para socorro dos Hippies e foram criados até mesmo serviços de apoio judicial para os Hippies em dificuldades com a justiça. Os Hippies de Cidade agrupam-se em casas que mais parecem colmeias, onde cada qual entra ou sai sem dar contas a ninguém. Para seu sustento, estes Hippies de cidade valem-se de processos como: Neo-artesanato; Trabalho em part-time, em correios, decorações, etc.; Mendicidade; Busca de restos onde quer que os haja, sobretudo nas latas de lixo dos mercados e restaurantes (em Amesterdão, Londres ou nos EUA podem ver-se Hippies revolvendo estas latas).
As deficiências de toda a ordem que rodeiam a vida de grande número de Hippies deram origem a um considerável acréscimo de doenças, como a tuberculose, hepatite, doenças venéreas, etc. Tal como se viu com os Beatniks, não há um tipo uniforme de Hippy. Eles constituem uma massa heterogénea que compreende jovens idealistas pacifistas, jovens fugidos de lares destruídos, desertores universitários, falhados do mundo do espectáculo, neo-místicos, partidários do amor livre, exibicionistas, actores de uma comédia da vida e finalmente aqueles que se esquivam ao trabalho. Podem considerar-se, de uma maneira geral, os seguintes tipos de Hippies:
Hippies de rua: espécie de vagabundos, andam constantemente à procura de qualquer coisa de interessante, de uma sensação nova, e experimentam tudo: drogas, sexo, inacção. Não têm filosofia bem definida, a não ser a da negação. Sabem, no entanto, o que não querem: a vigilância dos pais, os regulamentos escolares, as intervenções da polícia, etc.
Hippies sedentários: são geralmente mais maduros, são já capazes de formular a sua filosofia e as razões por que se tornaram o que são. – Hippies de tribo: gostam de pensar que criaram uma ramificação da sociedade americana, tomando por modelo o índio americano do Séc. XIX. São geralmente criadores, inteligentes e instruídos. Têm em média 3 anos de universidade. Começam geralmente por ser Hippies de rua, mas o seu talento e o seu poder criador levaram-nos a fugir à vida de ociosidade. São elementos de acção.
Há, por outro lado, Hippies de cidade e arredores, que só em tal ambiente se sentem realizados; Hippies de praia, de campo, de montanha, de deserto ou de rio; há ainda Hippies isolados e Hippies de grupo. Há, finalmente, Hippies permanentes e Hippies acidentais, ou «de plástico», isto é, Hippies de momento, de fim-de-semana, de férias, e que constituem uma grande massa flutuante. Há grandes diferenças, além disso, entre Hippies americanos da costa atlântica e da costa do Pacífico. Os longos Invernos da costa oriental não encorajam a vida ao ar livre, ao passo que a costa ocidental é um verdadeiro hino à vida natural, com o seu sol e a suavidade do seu clima. Este facto dá origem a que, enquanto os Hippies californianos são essencialmente excêntricos, os da costa oriental são mais do tipo intelectual. De uma maneira geral os Hippies são brancos, jovens entre os 14 e os 25 anos, e oriundos da classe média. A sua idade, porém, tem vindo a descer, e há uma verdadeira fuga ao lar, quase um êxodo, por parte de jovens liceais, rapazes e raparigas, apesar de lancinantes apelos por parte dos pais.
Os Hippies pregam o altruismo, o misticismo, a honestidade, a alegria e a não-violência. Fazem tudo quanto lhes agrade, apenas com a ressalva de não prejudicarem ninguém. Buscam sensações e para isso saturam-se de cor, de música, de ritmo, de luz, de movimento, de sexo, até que os espíritos, com um circuito eléctrico sobrecarregado, produzam uma descarga. Condenam praticamente todos os aspectos da vida americana, desde a política aos valores morais. Revoltam-se contra a tradição ocidental e a sua maneira de pensar, orientada para a produção, para o consumo, para a solução prática dos problemas, para a obrigação de haver uma finalidade para tudo. Eles entendem que viver, simplesmente viver, é já uma finalidade suficiente. Algumas frases de Hippies: «é preciso sentir nas entranhas que os valores da classe média são todos falsos, exactamente como a América enuncia a falsidade do sistema comunista»; «A nossa revolução não é violenta. É uma revolução de pensamento, da maneira de viver e de conceber a existência. Revoltamo-nos contra as máquinas e contra a tirania que nasce da utilização delas. Queremos o regresso à Natureza total, aos alimentos sãos e simples, ao campo»; «Antes de ser presidente ou funcionário, é preciso ser Homem»; «Já não se confunde conforto e felicidade. A religião transformou-se num rito. A política é um jogo»; «Creio que os meus pais foram bons para mim. Davam-me tudo o que eu queria. Até um automóvel. Mas tudo me soava a falso. Tudo girava à volta do dinheiro. A escola era demasiado enfadonha. Eu tinha boas notas, mas tudo isso me tolhia. Então um dia mandei tudo aquilo à fava». A palavra-chave do Hippy puro é: Amor, Amor à vida, à natureza, aos outros, à droga, ao sexo. Os Hippies identificam-se com o sub-poder, o estropiado, o criminoso, a reserva de caça. Adoram livros como o «Robinson Crusoe», «As Aventuras de Tarzan», e outros. Não admitem a existência de chefes: «Desconfiai dos chefes, dos heróis, dos organizadores. Os bons chefes não valem mais do que os maus. Quem quer que seja que procure dirigir os outros é perigoso. Não existem bons chefes». Têm, no entanto, os seus ídolos, os seus profetas, os seus «Gurus» – como eles dizem. Têm, até, os seus mártires. Todas as pessoas que, através da História, contribuíram para mudar a ordem estabelecida são Hippies honorários: Buda, Cristo, S. Francisco, Lincoln, etc. E, assim, dizem por exemplo: «Jesus Cristo foi o primeiro Hippy»; «Cristo era o tipo mais Hip do Mundo. Tudo o que Ele fazia era Amor. Os Hippies apearam Cristo do Seu pedestal, e vivem com Ele»; «Cristo e Buda eram Hippies».
Mas os «Gurus» mais próximos são o «Avô Leary», Allan Ginsberg – o poeta e filósofo oficial do movimento Hippy americano – e Bob Dylan, intérprete de baladas de contestação. E não deixa de ter interesse a síntese que precisamente Ginsberg fez do movimento Hippy: «É uma afirmação de Deus pela experiência individual do sexo, das drogas e da loucura».
Um dos aspectos mais característicos do movimento Hippy é o uso de drogas. As drogas tinham largo consumo nos bairros negros americanos, como antídoto para as suas condições sociais degradantes. A partir de 1950, porém, a droga estendeu-se, em larga escala, aos brancos, principalmente aos jovens, passando a constituir um problema nacional, não só nos EUA como também entre os combatentes americanos no estrangeiro, sobretudo no Vietnam. Por que razão se drogam os jovens? Ouçamo-los explicarem-se. «Achamos que a nossa parte interior, espiritual, é muito mais importante que a física. É por isso que a nossa atenção está sempre voltada para dentro e não para fora. Estudamos a nossa mente; o corpo não nos interessa. Por isso, muitas vezes somos obrigados a usar a droga, para acelerar o tempo, para chegar mais depressa. Poderíamos, de facto, atingir os nossos fins sem utilizarmos a droga, mas seriam precisos 30, 40 anos. E não podemos esperar tanto. Basta um pouco de Marijuana para, em meia hora, experimentarmos aquilo que um homem santo hindu leva uma vida inteira a alcançar». «Com a LSD as relações simbólicas mudam. Olhamos para a nossa mão e ela parte em todas as direcções, perde os contornos. As cores tornam-se maravilhosas, descobre-se que o mundo é perfeito, mas que na maior parte do tempo não podemos avaliar». «Nós tomamos a droga porque gostamos e porque é uma maneira de dizer ao mundo adulto que vá para o inferno». «O Ácido (LSD) é o caminho mais curto para a realidade». «Os que tomaram a LSD a princípio, sacrificaram-se. Mas estávamos de tal modo atrelados ao materialismo, à loucura dos orçamentos e à respeitabilidade, que se tornou necessária a LSD para estilhaçar tudo isto e redescobrir o Amor». O «Avô Leary» sintetizava os seus conselhos para o uso da droga, da seguinte maneira. «Sede aquilo que sois. Se não sabeis o que sois, descobri-o!». As drogas conduzem as pessoas a mundos diferentes. Certas drogas, como a LSD, provocam visões coloridas, psicadélicas. Daqui nasceu a «filosofia psicadélica», que crê profundamente que as ervas, grãos e sementes, assim como os compostos químicos, conhecidos da humanidade desde a pré-história, mas totalmente estranhos à sociedade ocidental, têm o poder de revelar o indivíduo a si próprio e de desenvolver as suas faculdades intelectuais, diferentemente de estimulantes como a nicotina ou o álcool. O uso de drogas tornou-se, para os Hippies, um rito de purificação e de libertação: «A LSD é um detergente do espírito. Remove as imundícies que estão acumuladas no nosso cérebro. Temos a eternidade a nossa frente». «Sinto pulsações planetárias nas profundezas de mim próprio quando tomo a LSD». «Tudo o que ilumina é um sacramento: a LSD, as cores, o sexo». «O nosso Deus, ou a nossa noção de Deus, limpos de manchas do passado, serão atingidos pela droga». A droga é, acima de tudo, um pretexto, uma forma de procurarem o «país onde nunca se chega», o reino do total esquecimento de si próprio, uma espécie de Shangri-Lá do «Horizonte Perdido» de James Milton. Sob o signo do Amor ou da droga, cada qual transcende o seu próprio Eu, adquire uma consciência cósmica, sente-se iluminado, funde-se com o Universo; é o Universo. O apelo ao «Natal em Katmandu», anteriormente referido, atraiu numerosos Hippies ao Nepal, crentes de que este país era uma espécie de coração do Budismo, onde tencionavam ínformar-se sobre a filosofia budista. Acontece, porém, que o Nepal é um país essencialmente hindu, mas com uma minoria budista que foi fortemente influenciada pela filosofia de uma seita dissidente, a dos Tântricas, os quais revelam uma analogia muito grande com os Hippies: também eles se revoltaram contra a ordem estabelecida e renegaram a sociedade; pregavam o uso da droga (Haxixe) para entrar em transe; tinham relações sexuais livres; e procuravam em si próprios uma espécie de poder interior. Ali se fixaram muitos Hippies, e outros vão e vêm, seguindo a «estrada do haxixe», com paragens em sítios como Argel e Cabul (Afeganistão), vivendo de pouco, mas adquirindo a droga por baixo preço (35$00 dão para uma semana). Mendigam, repartem tudo entre si, vestem roupa imunda, nunca cortam a cabelo, etc. Uns fixaram-se ali, outros derramaram-se pela índia e vivem, por exemplo, nas praias de Soa; outros, porém, adoecem gravemente, de corpo ou de espírito, e são repatriados pelos respectivos serviços consulares. Os que morrem são tidos como «homens santos». A vida em grupo conduziu, em muitos casos, à desinibição sexual absoluta. O sexo acontece onde, como e com quem calha. Impregnam-se de sexo, assim como se impregnam de droga. Os cartazes e os slogans eróticos surgem por toda a parte, por vezes associados a outras ideias, como em «Make love, not war», já referido. Em muitas comunidades, os filhos não pertencem aos pais, mas à comunidade, o que conduziu à dissolução total da instituição Família de modelo ocidental. A música psicadélica sofreu um impulso muito forte com os Beatles, que, para além do seu aspecto exibicionista, aproveitaram ritmos e harmonias da música hindu, que estudaram em profundidade e que associaram à vulgarização de um instrumento também hindu, a sitar. Mas os Beatles eram ingleses. E os Americanos, desejosos de fazer voltar para o Novo Mundo o testemunho do movimento psicadélico, lá nascido e que sempre fora essencialmente americano, ergueram em S. Francisco dois verdadeiros «templos psicadélicos», o Fillmore Auditorium e o Avalon Ball Room. Nestes «templos» há um estímulo múltiplo e simultâneo dos vários sentidos: ritmo, música, efeitos de luz e cores, queima de incenso e sândalo, um fundo onde passam filmes eróticos ou com colagens do mesmo tipo. Fuma-se Marijuana ou LSD. Há um êxtase colectivo. Toda a gente «entra em órbita», se funde, se transforma em cores, em sons, em aromas penetrantes. Todos se sentem dissolvidos num cosmos comum em que não há distinção entre o material e o imaterial, entre o real e o imaginário. Os Hippies dizem-se apolíticos, do mesmo modo que não aceitam nenhuma das religiões existentes, só por si. E dizem: «A religião tornou-se um rito; a política, um jogo. É o vácuo moral total. A nossa civilização ocidental apenas desenvolveu o plano material. Perdeu a sua alma». «Nós não somos comunistas, porque o comunismo não é gratuito: confisca a liberdade, em troca do que dá».
Como não-violentos que são, opõem-se à guerra, quaisquer que sejam as razões que a originem. São, por isso, contra a guerra no Vietnam. Partem do princípio de que se toda a gente se recusar a fazer a guerra deixa de haver guerra. No seio deles, porém, infiltram-se falsos Hippies, neo-esquerdistas que procuram activar a massa Hippy e politizá-la proclamando que «o poder das flores não é capaz de deter o poder fascista». E tem havido, por vezes, recontros com a Polícia, precisamente por causa disso. Outras vezes formam-se grupúsculos violentos de Hippies degenerados, como foi o caso de Manson, ligado à morte trágica da actriz Sharon Tate. Normalmente, porém, as grandes reuniões de Hippies não acarretam problemas de ordem. A princípio, os polícias americanos consideravam os jovens Hippies uns desordeiros em potência, subversivos, e, na primeira oportunidade, carregavam sobre eles. Mas não encontravam resistência, e até mesmo, atónitos, verificavam que os pretensos desordeiros opunham aos bastões ramos de flores. Por tal motivo a atitude das forças da ordem foi-se modificando, rumo a uma
melhor compreensão, na certeza de estar perante algo muito diferente dos «gangs» destruidores ou de manifestações contra a ordem.
Os Hippies americanos têm uma emissora própria que difunde música continuamente. Publicam, igualmente, jornais, como o «Free Press» de Los Angeles, o «Barb» de Berkeley, o «Oracle» de S. Francisco, o «Avatar» de Boston, etc. Os Hippies de Londres publicam por seu lado o «International Times», que tem uma tiragem de 25000 ex. Periodicamente realizam-se grandes reuniões com uma duração, normalmente, de 3 dias, a que acorrem Hippies de todos os cantos do mundo. Em 1969, por exemplo, realizou-se uma em Hide Park, na Inglaterra (120 000), outra próximo de Nova York (250 000) e outra em Bethel, também no estado de Nova York (400 000). Depois disso houve grandes reuniões na Ilha de Wight, na Inglaterra (200 000), em Roterdão, na Holanda, em Bath, também na Inglaterra (150 000), em Monterey, na Califórnia, em Woodstock, perto de Nova York, etc. Estas reuniões realizam-se a pretextos vários. Assim, a de Bethel por exemplo, destinou-se a «comemorar o advento da Idade do Aquário». (Os Hippies debruçam-se muito sobre a Astrologia). A de Woodstock teve em vista assinalar o reaparecimento de Bob Dylan, após um grave desastre de viação que o ia vitimando, etc. De resto, nestes festivais são sempre apresentados os grandes ídolos musicais dos Hippies, que se fazem pagar principescamente, na ordem dos milhares de contos, cada um. Estes festivais têm-se caracterizado pela ausência de violência. Parte da assistência, porém, é constituída sempre por curiosos ou por «Hippies de plástico». A organização de tais espectáculos assenta numa exploração comercial em grande escala, em que só os direitos de filmagens ou de exploração jornalística são suficientes, muitas vezes, para cobrir as despesas – restando aos organizadores os lucros das entradas, das bebidas, «sandes», cartazes, etc. Os Hippies criaram uma gíria própria, ou adoptaram gíria já pertencente aos Beatniks, a qual entrou na conversação do dia-a-dia americano. Desse vocabulário se salientam, por exemplo: Be-In, grande reunião de Hippies; Love-In, reunião durante a qual se escutam prédicas e se pratica o amor livre; Smoke-in, reuniões durante as quais se fuma droga; Park-In, misto de piquenique e celebração; Happening, reunião durante a qual «se passa qualquer coisa»; Hip, Iniciado; Drop-City, Localidade comunitária de Hippies; Digger, Organização de beneficiência Hippy; Vape, Estado atingido depois da droga fazer efeito; Partir em Vape, entrar em órbita, estar atingido pelo efeito da droga, levantar voo, desembraiar, ir à Lua; Trip, viagem, período durante o qual a droga faz efeito; Grass, erva, marijuana em folha; Tea, chá, marijuana em líquido; Pot, cigarro de Marijuana ou de Haxixe; Acid, ácido, LSD; Guru, elemento que os Hippies tomam por modelo, mestre, profeta, ídolo. Os Hippies têm sido motivo de acesas controvérsias quanto ao perigo que são ou poderão vir a ser. Para uns, são o sinal, de alarme de uma civilização em decadência; para outros, são uns novos cristãos primitivos, simbolizando, ainda que imperfeitamente, uma nova civilização purificada. Segundo o Bispo da Califórnia, por exemplo, «há nos Hippies qualquer coisa de bom, uma doçura, uma tranquilidade, um interesse, que os faz seres de qualidade». Em qualquer dos casos, pesam já na vida americana, são algo de que se fala constantemente e por isso susceptível de aglutinar jovens. «Não-violentos apaixonados pela Vida», como se dizem, o seu movimento alia, no entanto, certos aspectos comuns a outros movimentos violentos de juventude, e por isso a sua ingénua atitude apolítica vai favorecer, muitas vezes, os movimentos neo-esquerdistas. Por outro lado, os Hippies não manifestam qualquer intuito de assumir o comando da máquina social. Marginalizaram-se, apenas. Os mais inteligentes assim o reconhecem, mas dizem que o movimento está ainda nos seus primórdios, que procura abrir caminho e que depois se verá. Na Europa, fora de Londres, Paris, Amesterdão, uma ou outra cidade alemã e os países nórdicos, o movimento não tem aderentes em número significativo. Os estudiosos do movimento admitem o seu desmembramento em três correntes: A primeira, resultante da decomposição na vagabundagem e na droga, e constituída por infelizes de olhar vago, alma vazia e roupa imunda; A segunda, derivando para a revolta política, misturando o seu comportamento habitual com actos de guerrilha urbana ligados aos movimentos marxistas-leninistas; A terceira, finalmente, vindo a constituir talvez um padrão original, através de tentativas e experiências comunais, aliadas a um sector neo-artesanal.

Os Provos
Em Amesterdão, na Holanda, nasceu um movimento misto de Beatnicks e Hippies – os Provos (abreviatura de «Provocadores»). Eram inicialmente jovens escritores, intelectuais, estudantes, mais ou menos contra tudo e contra todos. O seu programa era: Abolição da monarquia na Holanda; Proibição da bomba atómica; Criação de zonas sem fumo (não poluídas) e preservação dos edifícios antigos; Atribuição à Polícia de novas funções (uma espécie de assistência social, mais nada). Opunham-se, segundo diziam, «ao Capitalismo, ao Comunismo, ao Fascismo, ao Militarismo, ao Dogmatismo, à Propriedade, à Burocracia, aos Automóveis e aos Pais». Protestando por tudo e por nada, fumando Marijuana, escondendo menores fugidos de casa, roubando discos, sujando as praças públicas, os Provos procuravam, acima de tudo, inventar as piores coisas para provocar as autoridades, como, por exemplo, quando ameaçaram atirar ratos brancos aos cavalos do cortejo real para a abertura do Parlamento holandês, o que lançou as autoridades em pânico. Dentro da sua maneira de ser, os Holandeses aceitaram os Provos como uma corrente de opinião e até mesmo um deles foi eleito, em Fevereiro de 1966, para o Conselho Municipal de Amesterdão. Foi ele quem sugeriu que fosse criado um serviço de bicicletas públicas, pintadas de branco, que cada qual utilizaria e abandonaria depois de utilizar. Foi criado para eles um centro social, para convívio, para o qual as autoridades contribuíram com meio milhão de francos. Foi-lhes ainda dado um cinema e uma velha barcaça. O cinema foi estreado com uma campanha de peças de carácter contestatário e revolucionário; a barcaça foi incendiada após uns incidentes. Os Provos provocam zagaratas de tempos a tempos, atacando habitantes e destruindo o que encontram. Assim, em Junho de 1966, numa manifestação em que se propunham apoiar reivindicações de operários, cometeram toda a casta de violências, desde partir vidros de montras a incendiar automóveis. Nos fins de 1970 deram origem a uma forte reacção por parte dos fuzileiros navais holandeses, que sobre eles carregaram violentamente.

Os «Gangs»
Certo número de movimentos caracterizam-se pela sua actuação em grupo, em bando organizado, e pela sua aversão à ordem estabelecida, aos burgueses, e de um modo muito especial aos polícias. A posição dos elementos destes «gangs» é a de que «tudo é desprezível nesta mundo podre. Por isso é preciso destruir tudo, inclusive nós próprios, se necessário». Com violência, insolência, desprezo pelo próximo, uma sensação de solidão que só a vida em bando atenua, os «Gangs» de jovens brotaram um pouco por toda a parte, criando problemas a sua volta. Há, nos seus jovens componentes, um misto de olimpismo e de desespero, de recusa da sociedade e de fúria de viver essa mesma vida que condenam ou que dizem condenar. Estes bandos têm nomes vários em países vários, como: Teddy-Boys (Inglaterra, Portugal, etc.); Ruckers, Mods (Inglaterra); Blusões Negros (França); Hipsters (EUA); Vitteloni (Itália); Halbstarken (Alemanha); Skinknute (Suécia); Anderumper (Dinamarca); Nozum (Holanda); Houligans (Polónia); Trostis (África do Sul); Stilliague (U.R.S.S.). Estes «Gangs» aderem a tudo quanto seja
alteração da ordem pública ou agitação de jovens, estudantes, operários, etc. Assim, durante a agitação em Maio de 1968 em França, numerosos «Blusões Negros» agregaram às barricadas. E quando lhes foi perguntado porque o faziam, responderam: «Os Polícias, a vocês, chateiam-nos só de vez em quando; a nós, é sempre. Não se pode fazer nada sem os termos a perna. Hoje há muita gente no barulho e por isso pode-se fazer-lhes frente!» Os elementos destes bandos variam de qualidade, indo desde os «meninos-bem», que formam os grupos de «Teddy-Boys», aos filhos de lares desfeitos ou infelizes, ou marginalizados por qualquer razão. Alguns dos bandos têm como símbolos motos super-potentes, que muitas vezes conduzem depois de se terem drogado, tal como fazem os «Anjos do Inferno». Costumam também misturar drogas diferentes e até combiná-las e reforçá-las perigosamente com o álcool. Não são crianças, ainda que pela idade o pudessem ser e o devessem ser. São elementos normalmente precoces, totalmente desajustados à sociedade e que transitaram directamente de crianças a adultos. Entre os vários «Gangs» apareceu até um, na Inglaterra, que hostiliza os Hippies. São os «Skinheads», ou «Cabeças Rapadas». Usam a cabeça rapada, botas de biqueira metálica, «blue-jeans» muito justos ou calças de couro ou bombazina, com suspensórios vermelhos, camisas de algodão sem colarinho e samarra. O movimento nasceu no Estado de Londres e é constituído por fracassados na escola ou no trabalho. As poucas raparigas que delas fazem parte usam o cabelo curto para manifestarem a sua adoração pelo homem. Odeiam oficialmente os Hippies, a quem agridem barbaramente quando encontram. Este sentimento nasce de um ódio colectivo ao mais fraco, do que não se defende ou não se pode defender: o operário estrangeiro receoso de conflitos que conduzam à sua expulsão; os imigrados de cor; os homossexuais; as mulheres solitárias; os velhos. Desprezam as drogas, em geral, mas exaltam o alcoolismo.

Outros movimentos
Foi já referido que por vezes se incrustam em núcleos Hippies elementos que pouco ou nada têm de comum com eles, elementos apologistas da violência, enfeudados a grupos políticos da extrema-esquerda. O assassinato de Sharon Tate e de seis outras pessoas, em Agosto de 1969, foi obra de um grupo de falsos Hippies, chefiado por Charles Manson, um fanático que conseguiu atrair para a sua órbita um grupo de raparigas dispostas a tudo. Há que não confundir estes elementos, estes grupos, com os verdadeiros Hippies.

5. A DROGA
Glorificada no teatro («Hair», «Oh Calcutta!»), no cinema («Easy Rider») e em inúmeras canções «rock», a droga é, quase, um dos elementos da vida não só dos Hippies como também de grande número de jovens americanos. Calcula-se, por exemplo, que cerca de 6 milhões de estudantes americanos (30 a 50% da totalidade) experimentaram já as drogas e o seu número aumenta verticalmente, até mesmo porque os que o não fazem se sentem marginalizados, tal como as raparigas que não concedem liberdades aos rapazes com quem saem. As drogas consumidas pelos jovens podem ser divididas em quatro grandes grupos: Estimulantes simples; estimulantes psicadélicos ou alucinogéneos; sedativos, tranquilizantes e barbitúricos; e produtos voláteis obtidos de hidrocarbonetos.
Estimulantes simples são fundamentalmente: Heroína, alcalóide obtido do ópio, que aparece sob a forma de pó solúvel em água, calcula-se que existem, só nos EUA, 100 000 viciados, entre os quais muitos jovens; Anfetaminas, são estimulantes; Metadrina, droga conhecida entre os jovens por «Speed», que poderemos traduzir por «Acelerador»; Dexedrina, estimulante semelhante ao anterior. Estimulantes psicadélicos ou alucinogéneos: Cânhamo, drogas extraídas do Cânhamo (Cannabis sativa), planta da família do lúpulo, têm um efeito que varia conforme aquilo que se extrai da planta – o líquido ou resina das flores femininas, das folhas, dos troncos, das raízes, etc. – e conforme as condições climáticas da região onde a planta se desenvolve; conhecem-se, pelo menos, seis compostos que a planta contém e cuja actividade provoca anomalias fisiológicas (torpor) e psíquicas (desvios delirantes). O cânhamo era venerado pelos Hindus, que lhe atribuíam um carácter sagrado, pela sua acção inebriante. Com ele se teciam os cordões da casta dos guerreiros. Queimado, produzia um fumo pelo qual o deus Siva, responsável pelo poder destruidor e regenerador, era ávido. E os Hippies têm procurado manter este carácter sagrado da droga. O cânhamo, ou as drogas dele extraídas, têm nomes diferentes conforme a região ou o país donde provêm: Marijuana na América do Norte, Maconha no Brasil, Haxixe no Norte de África e no Médio Oriente, Ganja na índia, Liamba em Angola, etc. A estes nomes correspondem características diferenciadas. Pode dizer-se que, de uma maneira geral, o cânhamo se encontra em todo o mundo. O seu uso na Ásia data, pelo menos, de há 2.500 anos. Os índios da América do Sul, designadamente os Incas, faziam largo consumo desta droga. Vamos considerar apenas a Marijuana e o Haxixe, por serem as formas mais vulgares entre a juventude ocidental. Marijuana. Acarreta estados de angústia e outras perturbações graves. Por outro lado, está provado que os viciados de Heroína começaram por Marijuana. Provoca «viagens» de 3 a 4 horas. Foi já obtida em síntese, o que irá facilitar muito a vida dos fumadores, por deixar de haver indícios reveladores, tais como cinzas, pontas de cigarro, etc. A droga necessária para 25 a 30 cigarros (1 onça) custava 12 dólares em 1969 e 20 em 1970. Todos os Hippies usam Marijuana e estima-se que 50% dos estudantes universitários da costa do Pacífico, bem como muitos estudantes liceais, a usam também. Conheceu também grande expansão entre os militares americanos no Vietnam. Haxixe, é a pasta concentrada, sem impurezas, e por isso muito mais poderosa. Obtém-se normalmente através do Norte de África. LSD é uma droga extraída do fungo do centeio, provoca «viagens» de 8 a 12 horas e tem efeito sobre o organismo mesmo depois deste ter eliminado a droga. A certa altura da «viagem» torna-se difícil distinguir entre controlar e ser controlado – sensação muito familiar a orientais, africanos e índios americanos. Actua sobre os cromossomas e influência os caracteres hereditários. Foram já detectados casos de crianças anormais nascidas de mães que se drogaram durante a gravidez. É de fabrico fácil e pode ser obtida também por síntese. 250 mg, suficientes para uma «viagem» de 1 dia, custam 2,5 dólares. Entra fraudulentamente nos EUA via México, Inglaterra ou Checoslováquia, mas admite-se que seja também produzida nos EUA pelos Hippies, que a usam em grande escala. Tem efeitos desastrosos, mesmo em quantidades mínimas. O governo americano tem feito ampla divulgação dos efeitos perniciosos desta droga, reais ou possíveis, o que tem dado origem a que os jovens, uma vez experimentada a LSD, procurem agora outras drogas. Mescalina é um alcalóide poderoso extraído de um cacto mexicano, a Peyote, utilizado largamente pelos Incas. É uma droga mais branda do que a LSD. Existe já em síntese. É muito popular entre os Hippies e outros jovens. DMT é um dos mais recentes alucinogéneos. Produz efeitos semelhantes aos da LSD, mas com «viagens» de 15 minutos apenas. Tem um efeito rápido. Sob o seu efeito os objectos parecem feitos de estanho esmaltado ou de plástico, e por isso esta droga é conhecida também por «boneca de plástico». Psilocibina é extraída de certos cogumelos do México. É menos poderosa que a LSD, e com «viagens» mais curtas. Dom ou STP, a designação mais vulgarizada, nasceu da analogia com um aditivo de gasolina. Os jovens traduzem estas iniciais STP por «Serenidade, Tranquilidade e Paz». Vinhetas com estas iniciais podem ser vistas em centenas de
automóveis, até em Portugal. É a mais recente e mais poderosa das drogas psicadélicas, e uma só dose provoca «viagens» de 3 dias. Não tem tido grande aceitação. Sedativos, tranquilizantes e barbitúricos compreendem, entre outros: Seconal, Nembutal, Luminal, Amital, Fenobarbital. Estas drogas são normalmente mortais quando absorvidas com bebidas alcoólicas. Calcula-se existirem nos EUA 200 000 viciados de barbitúricos, além de 25 milhões de pessoas que usam normalmente drogas deste tipo.
Produtos voláteis extraídos de hidrocarbonetos. Os jovens americanos procuram sensações através de inalação de produtos tendo coma base, sobretudo, os hidrocarbonetos voláteis, como benzina, gasolina de isqueiro, acetona, dissolventes vários e sobretudo cola sintética, utilizada na construção de modelos de aviões, entre outras coisas. Em Maio de 1969, o chefe de uma das equipas de prospecção sanitária de Montreal, no Canadá, verificou que 13% dos jovens que lhe eram confiados usavam regularmente a cola («glue») para se intoxicarem. O arsenal de drogas de uso corrente ultrapassa já o meio milhar e todos os dias surgem drogas novas ou formas inovas de drogas antigas. Sobretudo produtos sintéticos. As drogas simples são muito usadas, em grande quantidade, por desportistas – é o conhecido «Dopping» – estudantes em altura de exames, músicos – sobretudo os de grupos «rock» – etc.

6. A AGITAÇÃO ESTUDANTIL NO MUNDO
Muito embora ao longo da História tenham existido diversos períodos de desassossego juvenil, podem considerar-se como marcos deste tipo de agitação os acontecimentos seguintes:
Na Alemanha em 1848, estudantes de quase todas as universidades alemãs revoltaram-se contra a ordem estabelecida e fundaram «corporações», no seio das quais se formou, um agrupamento cultural completamente novo, constituído por jovens, com uniforme e terminologia próprios, e adoptando determinadas posições sociais. Esta revolta fez cair os regimes de várias dezenas de reinos e ducados germânicos. Ainda na Alemanha, e após a derrota de 1918, gerou-se em todo o país uma agitação juvenil que congregou jovens alemães e austríacos. Tinha em vista manifestar, inicialmente, uma viva desaprovação do modo de viver que, a seu ver, teria levado à derrota. Os jovens rebeldes adoptaram um certo número de ideias-chave e de modos de vestir: música folclórica, com a reaparição da viola, o desejo da paz, vestuário especial, relaxamento de costumes sexuais, etc. Este movimento possuía uma profunda corrente filosófica que ia do socialismo utópico ao misticismo vegetariano.
Na Rússia os estudantes foram a chave de toda a agitação anti-czarista, impregnada de idealismo e de generosidade, que abriu o caminho à revolução bolchevista.
Na Argentina em 1918, os estudantes da universidade de Córdoba difundiram uma «mensagem aos homens da América do Sul», que preconizava reformas sociais, políticas e culturais, as quais só poderiam ser obtidas pela unidade dos estudantes e trabalhadores, bem como pela solidariedade dos países da América Latina. Algumas das reivindicações, então formuladas, foram: Participação dos estudantes no funcionamento das universidades; Ausência de pressões políticas e religiosas sobre o ensino; Transformação da sociedade, a fim de permitir uma melhor ordem social que assegurasse o acesso de toda a população à cultura.
Nos três exemplos referidos, entre muitos outros que poderiam também ser citados, encontram-se semelhanças flagrantes com aspectos da agitação estudantil de hoje. Desde o fim da guerra 1939-45, porém, houve uma verdadeira escalada da agitação – que se tornou global e tem hoje o nome de contestação. A agitação juvenil, que tinha fundamentalmente a forma de ausência ou não participação, salvo em casos especiais, tornou-se hoje uma vontade de intervir, o que explica o facto de grande número de jovens se dizerem «chineses», maoistas, castristas, «katangueses», etc, e renderem um verdadeiro culto à figura de Che Guevara. Esta contestação tem assumido as formas mais diversas e invocado os mais variados pretextos, como por exemplo:
Turquia Dez67 – Manifestações contra a OTAN.
Bélgica Fev68 – Oposição dos estudantes flamengos à existência de uma secção de língua francesa na Universidade de Louvain. Queda do Governo.
Alemanha Ocid Ago62 – Depois da Polícia ter dispersado um grupo de música rock, desencadearam-se em Munique motins que duraram uma semana; Ago67 – Manifestações contra a visita do Xá da Pérsia e, mais tarde, do Vice-Presidente dos EUA.
Holanda Dez67 – Greve da fome de jovens, durante a quadra do Natal, como protesto contra as festas demasiado alegres, quando grande parte da humanidade vive subalimentada. Cartazes dizendo: «Glória a Deus, com peru no forno!»
França Nov67 – «Rallye contra a fome», como protesto contra a fome no Terceiro Mundo.
Hungria Out56 – Resolução do Comité Central das Organizações das Juventudes Comunistas, pedindo a abolição do ensino obrigatório do marxismo-leninismo nas universidades.
Checoslováquia Jun56 – Panfletos reivindicando a liberdade de imprensa e a supressão das aulas obrigatórias de marxismo-leninismo nas universidades.
Inglaterra – Manifestações contra a África do Sul, contra a guerra no Vietnam, etc. Em 1964, actos de vandalismo e lutas entre bandos juvenis, do género da «West Side Story».
Suécia Dez56 – Durante vários sábados, grupos de jovens entregaram-se a destruições na principal artéria de Estocolmo.
União Indiana Dez69 – Manifestações violentas de jovens contra a adopção do Hindi como língua oficial do país, em substituição do Inglês.
Nos países africanos de recente independência – Confrontação entre os que se bateram pela independência (geração de heróis, militares ou políticos) e os que não participaram dela e consideram aqueles ultrapassados.
EUA – Durante uma reunião de 10 000 professores do ensino liceal, o Secretário do Estado para a Educação declarou que os liceus americanos estavam em vias de colapso, cujos sintomas, por demais conhecidos, eram a violência, as greves e a droga. Só no ano de 1969 verificaram-se em liceus americanos 6000 incidentes diversos: raciais, políticos, escolares, etc.
Seguem-se alguns dados que revelam, de forma clara, a extensão dos incidentes ocorridos em todo o mundo durante o último trimestre de 1967 e o primeiro semestre de 1968, que culminaram com a «Revolução de Maio», em França. Países onde se verificaram incidentes graves:
Europa (Alemanhas Oriental e Ocidental; Áustria; Bélgica; Checoslováquia; Dinamarca; Espanha; Grã-Bretanha; Grécia; Holanda; Irlanda; Itália; Jugoslávia; Luxemburgo; Polónia; Portugal; Suécia; Turquia; URSS; Vaticano). África (Argélia; Rep. Centro-Africana; Camarões; Congo-Kinshasa; Daomé; Egipto; Etiópia; Marrocos; Mauritânia; Senegal; Tunísia). América (Argentina; Bolívia; Brasil; Chile; Canadá; Colômbia; Cuba; Rep. Dominicana; Equador; EUA; Guadalupe; Guiana; Haiti; México; Nicarágua; Peru; Uruguai; Venezuela). Ásia (Afeganistão; China; Coreia do Sul; União Indiana; Indonésia; Israel; Japão; Líbano; Palestina; Síria; Tailândia; Vietnam do Sul). Pacífico (Austrália; Filipinas).
O período 03Mai-18Jun68 correspondeu ao auge da agitação em França.

7. A «REVOLUÇÃO DE MAIO» EM FRANÇA – 1968
Em Nanterre, nos arredores de Paris, num descampado alternando com bairros de lata, foi construída (início em 1963) a Faculdade de Letras e Ciências Humanas, subordinada à Sorbonne, que, pouco após a sua entrada em funcionamento, contava já 12 000 alunos. Os estudantes de Psicologia e Sociologia, ao contrário dos outros, não viam à sua frente um futuro definido, após o termo das estudos, por se tratar de cursos novos. Estes factos, aliados à própria natureza das matérias, deram origem a uma apreciável irrequietude por parte dos estudantes dos cursos referidos. Nesta Faculdade, um grupo de 300 a 400 estudantes da extrema-esquerda, grandes admiradores de Fidel de Castro e de Che Guevara, participavam de um movimento contra a «opressão da sociedade sobre a juventude», sob a chefia de um estudante franco-alemão, Daniel Cohn-Bendit, que num panfleto escrevia: «Nós sabemos que toda a contestação global e coerente não pode ser realizada senão pela violência: Comuna de 1871, Outubro de 1917, Guerra de Espanha, Negros Americanos, etc.». Na altura da inauguração da piscina da
Faculdade, em Jan67, Bendit havia dito ao Ministro da Educação e Juventude, que ali se deslocara: «Eu li o seu livro branco sobre a juventude: 600 páginas de inépcia. O Senhor nem sequer falou dos problemas sexuais dos jovens!». Em Novembro desse mesmo ano registou-se na Faculdade uma greve feroz, enquanto na Faculdade de Ciências a polícia era chamada a intervir, por causa de 300 estudantes que haviam bloqueado o Director no seu gabinete. O «cavalo de batalha» oficial dos contestatários de Nanterre teve como pretexto o facto de o regulamento escolar proibir o acesso de rapazes aos internatos das raparigas, muito embora não houvesse a proibição inversa. Os contestatários exigiam, no entanto, o direito de acesso aos internatos femininos, e a qualquer hora do dia ou da noite. Tal pretexto, de resto, não era inédito, pois que já havia sido invocado para incidentes em universidades americanas. A dupla nacionalidade de Bendit havia-o já tornado sensível aos movimentos estudantis da Alemanha, que em 1967 haviam conduzido à criação, em Berlim-Oeste, de uma universidade rebelde, a «Universidade Crítica», e que, na Páscoa de 1968, deram origem a uma verdadeira revolta, após os incidentes em que esteve envolvido Rudi Dutzschke. O primeiro objectivo de Bendit era a politização da universidade, para que, em caso de intervenção policial, ela servisse de fortaleza, de reduto defensivo, como veio a acontecer. O Director de Nanterre, herói da Resistência e esquerdista convicto, concedeu então aos contestatários o direito à expressão pública, no interior da Faculdade; e as paredes e corredores encheram-se de jornais de parede, à maneira chinesa, onde se atacava tudo quanto não fosse anárquico ou da extrema-esquerda incluindo o próprio Partido Comunista Francês (PCF). Foi igualmente autorizada a cedência de salas e anfiteatros para reuniões de carácter político, os quais seriam atribuídos dentro das possibilidades e mediante pedido prévio. Mas os revolucionários – pois que já então o eram verdadeiramente – declararam que, quando tivessem necessidade de uma sala, a ocupariam, mesmo que nela estivesse a funcionar uma aula. Eles não queriam concessões; queriam, sim, ser eles próprios a tomarem as coisas por suas mãos. Tinha um impacto político diferente.
Em 20 de Março os membros do MAU (Movimento de Acção Universitária), da extrema-esquerda, ocupam abusivamente um anfiteatro, para um debate, sem pedirem as chaves. Acabam por sair, porém, sob pressão de enviados do Director. Mas dois dias depois é posto a circular o boato segundo o qual o Director havia elaborado e distribuído listas negras com os nomes dos estudantes mais rebeldes, a fim de serem reprovados pelos professores. O Director desmente, mas em vão. De acordo com a palavra de ordem de Bendit, segundo a qual «A acção é a única forma de dominar a dispersão dos estudantes em mini-grupos», bandos de jovens extremistas, a si próprios chamados «enragés», armados de paus e barras de ferro, atacam e ocupam os gabinetes da administração da Faculdade. O Director chama a Polícia, que restabelece a ordem. O movimento estudantil muda então de nome, e passa a chamar-se «Movimento do 22 de Março», designação do género do movimento castrista, em Cuba.
Em 26 de Abril um deputado comunista, convidado a falar pela União dos Estudantes Comunistas, organização do PCF no mundo estudantil, é impedido de o fazer, e expulso, por extremistas da esquerda, que acenam com o livrinho vermelho de Mao. Num outro anfiteatro, um professor é impedido de falar por um revolucionário. Intervém Cohn-Bendit, que restabelece a ordem a pretexto de o professor em questão ser «um dos deles». O poder já está nas mãos dos estudantes.
Em 29 de Abril, o Director da Faculdade oficia ao Reitor da Sorbonne, solicitando que Bendit e 6 outros estudantes sejam presentes ao Conselho Disciplinar. E 3 dias depois encerra a Faculdade. Pode dizer-se que foram estes, no plano estudantil, os antecedentes de toda a agitação que se seguiu, e que veio a tomar um carácter insurreccional, e revolucionário, com a transferência do centro de gravidade da agitação de Nanterre para a Sorbonne. Em 2 de Maio, data em que, como se disse, foi encerrada a Faculdade de Nanterre, o Reitor da Sorbonne proíbe uma reunião em que deveriam falar estudantes alemães, italianos e espanhóis.
No dia seguinte [03Mai68] Bendit discursa no pátio da Sorbonne, inflamando a assistência, já então muito excitada. E de Nanterre chegam estudantes armados de paus e capacetes, que começam a partir o mobiliário.Às 15h30 o Reitor pede à Polícia que restabeleça a ordem e o pátio é evacuado sem problema de maior. Mas a partir das 19h20 os estudantes começam a manifestar-se nas ruas, a pretexto da entrada da Polícia na Universidade (o que já sucedera 17 vezes nos últimos 50 anos, sem que daí resultassem manifestações na rua). Gera-se luta entre estudantes e polícias e são presos 4 estudantes. A Sorbonne é encerrada.
Em 6 de Maio, os 4 estudantes presos são condenados a alguns dias de prisão, uma pena puramente simbólica, mas que serviu de rastilho para a agitação. Todos os dias afluem, agora, estudantes armados, a pedido dos chefes da agitação. Nas casas da especialidade, as vassouras esgotam-se. Os cabos delas eram excelentes armas.
Em 9 de Maio, o Conselho Escolar decide reabrir a Universidade, mas o Ministro retarda o cumprimento da decisão, o que serve de pretexto para a eclosão de novos e graves motins, no dia seguinte. Há um círculo vicioso permanente de agitação que dá origem a medidas preventivas ou de repressão, e de aproveitamento imediato destas medidas para agravar a agitação. Utilizando compressores e outros processos, estudantes levantam o pavimento e erguem 60 barricadas, onde cerca de 10 000 rapazes e raparigas fazem a guerra toda a noite. As barricadas chegam a atingir 3 metros de altura, e nelas são colocadas viaturas, às quais os rebeldes deitam fogo para retardar as cargas da Polícia, ou que ardem em resultado das granadas lacrimogéneas ou ofensivas lançadas pelos agentes da ordem. Não chega a haver luta corpo a corpo, mas contam-se 367 feridos. Numa viatura, dois chefes das minorias activas tentam parlamentar com a Polícia: Alain Geismar, professor assistente de Física e Secretário-Geral do Sindicato Nacional do Ensino Superior, chefe da organização maoista «A Esquerda Proletária»; e Jacques Sauvageot, licenciado em Direito, Vice--Presidente da União Nacional dos Estudantes Franceses, o sindicato estudantil da extrema-esquerda. Por outro lado, Sartre e Aragon manifestam o seu apoio aos jovens. Mas o primeiro não encontra auditório e o segundo é vaiado. Na previsão dos incidentes, os estudantes haviam criado um serviço de saúde próprio, para evitar que os seus feridos fossem levados para a Polícia e identificados.
Em 11 de Maio, Pompidou, regressado do Afeganistão, ordena a libertação dos 4 estudantes condenados e bem assim a reabertura da Universidade para 13. Mas as organizações estudantis haviam já lançado uma ordem de greve geral para esse mesmo dia, com a participação de organizações operárias. A agitação vai agora estender-se ao operariado, sobretudo fabril. Tal como a agitação estudantil havia tido início em Nanterre, uma Faculdade nova, isolada, onde o estudante sentia a força do seu número, também a agitação operária vai ter como centro principal a Secção de Montagem de Caixas de Velocidades da Renault, em Cléon, também nos arredores de Paris, também em local ermo, onde trabalhavam 4500 operários, cuja idade média oscilava pelos 29 anos e onde imperava, não a Confederação Geral do Trabalho (CGT), de comandamento comunista, mas um sindicato novo, a CFDT, que em pouco tempo se havia colocado à esquerda da CGT e do PCF.
Em 13 de Maio realiza-se a prevista manifestação gigante de estudantes e operários, compreendendo muitos estudantes liceais, empunhando a bandeira negra da anarquia, e jovens operários de Cléon. E, ao som da Internacional, ostentando uma profusão de bandeiras vermelhas e negras e cartazes, uma multidão desfila, levando à frente, de braço dado, Cohn-Bendit, Alain Geismar e Jacques Sauvageot. Esta manifestação assinalava o início da greve geral. Os operários dispersam depois calmamente. Mas Cohn-Bendit e Geismar arrastam alguns milhares de estudantes até ao Campo de Marte, onde o primeiro lança a sua nova palavra-de-ordem: prosseguir a greve, ocupar as faculdades e boicotar os exames. Ao mesmo tempo, Geismar declara: «A Revolução está na rua. É preciso continuá-la!»; «A violência é o único meio de fazer admitir as nossas ideias!». E, como escreveu a revista Paris-Match, «a Comuna de Paris, Cuba, a Revolução Cultural e o Happening instalaram-se na Sorbonne». Mas não apenas na Sorbonne, porque também o velho Teatro Odeon é ocupado pelos estudantes e transformado em tribuna permanente. Entretanto aumenta a tensão em Cléon, onde os operários que exigem a greve se opõem aos que a não querem.
E à meia-noite de 14-15 de Maio, quando o turno de pacíficos sai, os revolucionários ocupam a fábrica, barricam-se dentro dela e prendem o director e mais seis colaboradores deste, que são libertados horas depois, ante uma ameaça de greve da fome. E quando ao romper do dia os novos turnos de pacíficos se apresentam, encontram os portões fechados. Delegados de Cléon deslocam-se nos dias seguintes às outras fábricas da Renault em Flins e em Boulogne-Bilancourt, a fim de incitar estas também à greve. A situação deteriora-se rapidamente, a partir de então.
Em 17 estão já em greve os ferroviários, o metropolitano, a aviação comercial, os táxis e os operários da Sud-Aviation em Nantes. A CGT e a CFDT (Cléon), que procuram a todo o custo manter a situação sob seu controlo, não o conseguem, e não vêem outra alternativa senão embarcar no comboio da agitação e da paralisação do trabalho, dando ordem aos seus filiados para se colocarem à testa do movimento, nos sectores respectivos. Procuram ser elas a mandar no operariado, e não os estudantes. Por isso mesmo, quando as organizações estudantis convocam os estudantes e operários para uma manifestação em frente à Televisão, também já em greve, a CGT determina aos seus filiados que de forma alguma o façam. Renunciando então a tal projecto, um milhar de estudantes converge para a fábrica de Boulogne-Bilancourt, para confraternizar com os operários grevistas, mas deparam com os portões fechados. A CGT assim o ordenara, para isolar os operários dos estudantes. «Fraternidade, sim, mas cada qual em sua casa!».
Em 20 de Maio havia já 2 milhões de grevistas, desde os 64 000 operários da Renault (Cléon, Flins, Mans, Boulogne) a muitas outras actividades, agora também bancos, correios, construção civil, etc. Não era, já, uma acção estudantil e operária, mas também do funcionalismo.
Entretanto a Sorbonne, reaberta oficialmente mas ocupada por estudantes, transforma-se num vasto anfiteatro de discussão. Há jornais de parede por toda a parte. Constituem-se comités, que se instalam nas várias salas, gabinetes e anfiteatros. Desses comités, um destina-se à ligação Estudantes-Operários, o outro à ligação Estudantes-Camponeses. Pelas paredes, cartazes e fotografias de Lenine, Mao, Fidel, Guevara, Proudhon, etc. Evoca-se Rousseau, Marcuse e outros. Proclama-se o marxismo-leninismo. Editam-se jornais e panfletos revolucionários. Discutem-se temas de ensino e outros a eles alheios, como por exemplo: O artista na sociedade capitalista; O publicitário e a Revolução; As teses de Marcuse; Etc. Há elementos franceses e estrangeiros, sobretudo alemães e espanhóis, que circulam entre as várias universidades, desenvolvendo uma verdadeira guerra subversiva. As greves continuam a alastrar e toda a França acaba por ficar paralisada. Há já 9 milhões de grevistas. Escasseia a gasolina e há uma fuga hemorrágica de capitais. De Gaulle, de visita à Roménia, não se manifesta. E, em França, os partidários da esquerda planeiam já a futura República sem De Gaulle. Mas não se entendem. O PCF pretende aproveitar a ocasião para comandar a situação política, mas esbarra com igual intuito por parte dos Socialistas.
Em 21 de Maio o Ministério do Interior publica um comunicado dizendo que Cohn-Bendit, que entretanto se havia deslocado à Alemanha, não é autorizado a regressar a França. À noite, 30 000 estudantes universitários e liceais, respondendo a palavras de ordem da UNEF e do SNE, marcham sobre a Assembleia Nacional, onde acabara de ser derrotada uma moção de censura ao Governo, e sobre o Senado. A meia-noite dão-se os primeiros choques com a Polícia, que se prolongam até às 4 horas da manhã.
No dia seguinte juntam-se 10 000 manifestantes. A UNEF ordena que se dispersem e se juntem no dia seguinte na gare de Lyon, mas ao cair da noite a situação volta a deteriorar-se e, pela segunda vez, são erguidas barricadas. Intervém a Polícia e luta-se até às 05h00.
No dia 23, a divergência entre a CGT e as organizações estudantis toma o seguinte aspecto: CGT: «Reivindicações!»; Estudantes: «Não se trata de reivindicações, mas de Revolução!»
Em 24, 15 000 estudantes manifestam-se na gare de Lyon, sob as ordens da UNEF. São difundidas gravações de palavras de Cohn-Bendit feitas na Alemanha. Realiza-se uma marcha sobre a Bastilha. A Polícia intervém e novas barricadas se levantam agora reforçadas com abatizes. Luta-se dos dois lados do rio. Os operários também tinham feito a sua manifestação, mas a CGT providenciou no sentido de estudantes e operários não se encontrarem. Luta-se toda a noite de 24-25. Ardem viaturas. A Polícia faz uso de bulldozers para levantar as barricadas. Os estudantes abrem as bocas de incêndio para reduzirem o efeito dos gases lacrimogéneos e afiram pedaços de chumbo ou esferas de aço com fisgas. Ensaia-se uma tentativa de incendiar a Bolsa («templo do capitalismo»). Entre os jovens mais agressivos contam-se numerosos «Blusões Negros», vindos dos arredores. Os resultados dos últimos dias de luta são: Feridos 1054 civis e 1233 polícias. Morto um homem. Em Lyon, morto um bombeiro, num incêndio. Presas 795 pessoas. Arderam 90 carros particulares, 7 da Polícia, e dois comissariados (esquadras).
Entretanto De Gaulie, regressado da Roménia, anuncia a realização de um referendo. Ao mesmo tempo Pompidou, então 1.° Ministro, propõe a realização de negociações com os dirigentes e que culminam com o «Protocolo de Grenelle». A CGT e a CFDT encaminhavam-se para uma solução com o Governo. À saída, os dirigentes da CGT declaram aos jornalistas que acabavam de assinar a ordem para que a greve terminasse, após concessões mútuas de patrões e CGT, e retirando às reivindicações todo o carácter político. Mas este desfecho não interessava aos extremistas estudantis e operários.
E dois dias depois, em 27 de Maio, Sauvageot acusa a CGT de formular reivindicações ridículas. No estádio de Charlety, os dirigentes dos estudantes e do PSU (partido da extrema-esquerda que o PCF não via com bons olhos) incitam à Revolução. A CGT não estava presente. Assistiu Mendès-France, que nos bastidores era indigitado para o cargo de 1.º Ministro do futuro Governo da República chefiada por Miterrand. Mas não falou. Face à agressividade dos estudantes e à desilusão dos operários, que contavam com mais amplas concessões, o PCF, receoso mais uma vez de se ver ultrapassado e perder o controle da situação, esforça-se por retomar a iniciativa. Os seus militantes manifestam-se na rua, exigindo a demissão de De Gaulie, enquanto os seus dirigentes procuram a todo o custo estabelecer um acordo com os partidos da esquerda, para a formação de um Governo de coligação. A CGT decide voltar atrás, e não só ordena uma nova manifestação para o dia seguinte como também formula agora reivindicações políticas, exigindo a demissão do Presidente e do Governo.
No dia 29 de Maio, de manhã, De Gaulie anula a reunião do Conselho de Ministros trinta minutos antes da hora marcada e parte, supondo-se que para a sua aldeia natal. No entanto, antes de lá chegar, visita, secreta e rapidamente, o QG da «Force de Frappe» e, na Alemanha, o QG das forças francesas, comandadas pelo General Massu. Em face do total apoio que lhe é assegurado, De Gaulie põe de parte toda e qualquer ideia de retirada que porventura tivesse. Mas as notícias da partida do General e da sua demora em chegar a Colombey começam a ser conhecidas em Paris. Circulam todos os boatos, designadamente o da demissão do General. À tarde, 300 000 manifestantes, operários da CGT, precedidos de dirigentes da CGT e do PCF, percorrem o centro de Paris, ostentando cartazes e soltando gritos de «demissão!»
Miterrand e Mendès-France preparam tudo para assumirem as rédeas do poder, sem os comunistas. E estes rompem com a esquerda não comunista e lançam a palavra de ordem de «Governo Popular!».
No dia 30, De Gaulle regressa inesperadamente a Paris e anuncia que não só não tenciona demitir-se como também que está decidido a continuar conduzindo a nave com pulso firme. Depois de ter falado, realiza-se uma manifestação em massa a favor do General, estimada em mais de 1 milhão de pessoas, de todas as idades (muitos estudantes) e categorias, desde ministros a antigos combatentes (que desempenharam um papel de relevo no plano da contra-subversão). A população parisiense começava a sentir-se cansada da agitação e preocupada com a sorte do País. De Gauile dissolve a Assembleia e marca eleições gerais para 23 e 30 de Junho, com o que concordam a CGT e o PCF, também desejosos de uma revolução, sim, mas nos bastidores, feita por eles, controlada por eles, e não nas ruas, por estudantes. O trabalho e a ordem são retomados lentamente.
Em 3 de Junho o Governo ordena a ocupação da Televisão, ainda em greve. E em 4 a CGT ordena o recomeço do trabalho. Delegados seus vão de grupo em grupo convencer cada qual de que os outros já estavam de acordo, dividindo deste modo os recalcitrantes. Mas os extremistas reagem.
E em 6 de Junho, na Renault-Flins, depois de 80% dos operários terem decidido, em votação secreta, retomar o trabalho, piquetes de grevistas impedem-no. A direcção da fábrica decide actuar e, com a ajuda da Polícia, os 200 grevistas (entre 10 000 operários) rebeldes são expulsos. Por causa disto, os estudantes do «Movimento do 22 de Março», de Nanterre, decidem enviar emissários, para levarem os operários a revoltarem-se contra a «táctica eleitoral de traição à Revolução, adoptada pela CGT». Esta fábrica reabre no dia seguinte, estando presente todo o pessoal de escritório e 25% dos operários. Mas mais de mil estudantes rodeiam a fábrica e desenvolvem intensa actividade sobre os operários ainda não regressados ao trabalho, sobretudo os mais novos. Presentes, Alain Geismar e outros. E gera-se um clima de verdadeira guerrilha nos campos em volta, entre revolucionários e a Polícia. Há tentativas de transportar jovens de outros locais para Flins, e Sauvageot fala à multidão e incita à revolta. Mas a massa operária não se deixa levar ao rubro.
E por fim, no dia 9, a Polícia e os sindicatos chegam a acordo: os grevistas retiram os seus piquetes de greve, e a Polícia os seus agentes. A fábrica fica a ser «território neutro». A Polícia continua, no entanto, a patrulhar os arredores, onde estudantes se ocultam entre a população, prontos a recomeçar a luta. Mas a grande oportunidade tinha passado e os estudantes belicosos vão regressando às suas casas, deixando o campo. Dois incidentes, porém, vão ainda contrariar a tendência para a normalização que já claramente se verificava.
Quando em 10 de Junho a Polícia perseguia, em Flins, um pequeno grupo de estudantes rebeldes que comiam a beira rio, e de cuja presença tinha sido informada, alguns estudantes atiraram-se ao rio, e um deles morreu afogado, não obstante todos os esforços feitos pela Polícia para o salvar. Tinha 17 anos, era aluno de Liceu, e pertencia às «Juventudes marxistas-leninistas». Era o primeiro «mártir» da Revolução; e logo que a notícia chega a Sorbonne, todo o Bairro Latino começa a ser percorrido por grupos de estudantes que gritam: «Eles mataram o nosso camarada!». Gera-se novo clima de efervescência, que se agrava rapidamente. O outro incidente deu-se na Peugeot de Sochaux, entre grevistas e polícias requisitados pela direcção da fábrica. Dois operários são mortos – o 2º e o 3º «mártires» da Revolução. Mas a CGT intervém, e a situação é restabelecida localmente. Mas estas três mortes vão servir de pretexto para uma derradeira tentativa insurreccional.
A noite, em Paris, mil jovens manifestam-se gritando: «Eles mataram os nossos camaradas!»; «De Gaulle ao Sena!»; «Eleição, Traição!».
Reaparecem as barricadas e gera-se novo clima de batalha. Os revolucionários assaltam várias esquadras. São presos 1000 jovens. Mas a população acusava, cada vez mais, saturação e inquietação. Nas últimas noites, em algumas ruas, houve mesmo civis armados a guardarem os seus carros e a dispararem sobre os jovens. A população defendia-se. Por outro lado, a brecha entre a CGT/PCF, por um lado, e os grupos da extrema esquerda, por outro, constituídos por marxistas-leninistas, maoistas, trotskistas, anarquistas, etc, alargava-se cada vez mais, transformava-se num fosso intransponível. Finalmente, também, na Sorbonne, que durante um mês vivera como se fosse uma fortaleza, o ambiente era de cansaço, de saturação física e moral. O número de «enrágés» decrescia de dia para dia, estava já reduzido apenas a uma escassa centena. Durante um mês, a Sorbonne servira de abrigo não só a estudantes revolucionários como também a toda a espécie de marginalizados, desde «clochards», instalados nas caves, a um grupo de 27 homens e mulheres que, agregados às barricadas e baptizados de «katangueses» pela brutalidade que os caracterizava, em meados de Maio se haviam instalado também na universidade – de onde foram expulsos depois pelos estudantes.
Por isso, quando em 16 de Junho a Polícia apareceu para parlamentar, o clima era já de capitulação. E a evacuação dos últimos rebeldes ocorreu com fraca ou nula resistência. Mas, na rua, um cordão de polícias impedia a aproximação de agitadores, entre os quais se contava Sauvageot.
Em 18 de Junho a Renault regressa totalmente à normalidade. Na Citroen, porém, o regresso ao trabalho foi mais demorado. Com um suspiro de alívio, a França regressa à normalidade. E quando, em 31 de Junho, se realizam as eleições gerais, de Gaulle alcança uma retumbante vitória, fruto do temor à desordem, à insurreição, à falta de autoridade, ao comunismo. Um balanço breve e muito limitado da Revolução de Maio permite extrair as seguintes conclusões: A agitação lavrou entre alunos de determinados cursos não técnicos, como Sociologia e Psicologia, para os quais não havia ainda futuro assegurado; A localização isolada da Faculdade de Nanterre e bem assim a da fábrica de Flins facilitou a criação de uma maior consciência de grupo; As deficiências, insuficiências e incertezas, escolares e post-escolares, serviram de pretexto a organizações políticas da esquerda e da extrema-esquerda, agrupando minorias, mas bem organizadas e fortemente agressivas, para fomentarem e comandarem uma verdadeira guerra subversiva com carácter insurreccional; A agitação inicial, política ou imediatamente
politizada, foi encontrando eco progressivo entre toda a massa estudantil, graças ao sábio aproveitamento das características desta, sobretudo a sua tradicional hostilidade à Polícia – que serviu de elemento catalizador para uma precária unidade que, no entanto, enquanto se manteve, foi suficiente para perturbar a vida do país, de toda a França; O PCF, através das suas organizações de estudantes e operários, tentou aproveitar a oportunidade para provocar a queda do Governo, com vista a apossar-se das rédeas do Poder. Os acontecimentos, porém, ultrapassaram todas as previsões e o PCF acabou por sabotar a Revolução, procurando o regresso à normalidade para obstar à formação de uma frente estudantes-operários fora do seu controlo; conforme disse Sartre numa entrevista: «Se os estudantes falharam, isso deve-se em parte ao facto de o PCF, com a sua concepção rígida do marxismo e as suas respostas par tudo, baseadas num ou noutro texto de Lenine, ter refreado o movimento»; A uma agitação com base em reivindicações escolares, e depois também operárias, juntaram-se outras agitações de carácter social, político, racial, etc. Assim, no bairro de Belleville, em Paris, houve luta entre Árabes e Judeus; e, dentro da Sorbonne, um «Comando» palestiniano tentou provocar estudantes judeus. Houve, pois, agitações dentro da agitação. Soltaram-se todos os impulsos reprimidos, a todos os níveis sociais. E a desordem generalizou-se. Foi criado um verdadeiro clima de guerra subversiva, com todas as características: acções clandestinas, acções psicológicas e acções violentas. Circulou entre os estudantes das várias universidades francesas, por exemplo, um «Manual da Insurreição» que, entre outras coisas, preconizava: A ocupação das Faculdades; A incineração pública de bandeiras nacionais; O incêndio de automóveis na via pública; O uso de capacetes de motociclista para protecção; O fabrico de «Cocktails Molotov»; Como reduzir o efeito das granadas lacrimogéneas; Como erguer barricadas; Como montar um sistema de primeiros socorros; etc.
O grupo humano estudantes revelou-se como uma verdadeira classe social, tendendo a arrebatar da classe operária o facho da Revolução que esta tradicionalmente empunhava; A agitação estudantil beneficiou do apoio de um certo número de professores e assistentes ligados à esquerda ou a extrema-esquerda. Beneficiou, igualmente, e até certa altura, de outros que, não sendo políticos, procuravam impulsionar a evolução das estruturas do ensino; As tentativas de resolução dos problemas dos estudantes esbarraram, sistematicamente, com a total oposição das organizações extremistas, a quem interessava, não a resolução dos problemas, mas sim, e apenas, a Revolução.

8. A «REVOLUÇÃO CULTURAL» NA CHINA CONTINENTAL
A Revolução Cultural chinesa foi levada a cabo, essencialmente, por jovens estudantes liceais entre 14 e 15 anos. Constitui um caso especial, e foge às normas tradicionais da História, visto não ter havido uma linha divisória nítida entre revoltosos e autoridades. Estas aparecem, até, como tendo tido uma parte activa no desenrolar da revolta, ou antes, a revolta revelou-se o instrumento de uma facção dos participantes no Poder contra outros elementos desse mesmo Poder, sem que para isso a Administração se tenha tornado totalmente ineficaz. Constitui uma espécie de guerra civil desenvolvendo-se numa relativa legalidade. Foi um ajuste de contas, em que revolucionários eram apeados a cada momento, caíam em desgraça, eram transportados de forma degradante pelas ruas, a pé ou em carroças, com cartazes ao pescoço, obrigados a fazerem autocrítica, para depois serem mortos. O afluxo de milhões de jovens a Pequim, apoiados por Mao-Tsé-Tung, gerou uma situação muito especial, em que os jovens pareciam ser a chave de tudo no país. Toda a China, e em especial a sua capital, estavam cobertas de cartazes e de jornais de parede, através dos quais se ia fazendo uma pálida ideia do que ia acontecendo. Mas a economia foi severamente atingida. Por isso, a partir de certa altura, foi dada ordem de regresso. E os jovens regressaram. Não se pode fazer uma ideia do que foram ou serão as consequências políticas e ideológicas desta Revolução, que muitos observadores interpretaram como sendo uma manobra de diversão de problemas internos ou de desaires internacionais que o país tinha sofrido no plano político. Mas há uma estatística curiosa que permite avaliar a extensão daquela revolução de jovens: 1 milhão de crianças nascidas daquele período de euforia dos jovens. Por outro lado, esta Revolução encontrou grande eco entre os jovens de todo o mundo ocidental, que procuraram adoptar certos procedimentos dos jovens chineses, como foi o caso dos jornais de parede, na Sorbonne.

9. EM PORTUGAL
A agitação estudantil em Portugal caracterizou-se, durante largo tempo, apenas por manifestações muito limitadas, quer em extensão quer em profundidade. Não havia motivações caracteristicamente portuguesas, e sobretudo não havia uma consciência colectiva, salvo em Coimbra. Com excepção desta última cidade, onde qualquer pequeno facto ocorrido era um caso, em todo o resto do País os estudantes perdiam-se entre a multidão. Houve, no entanto, problemas de âmbito político ao nível professores, que levaram ao afastamento compulsivo de figuras como Bento de Jesus Caraça (1935), Rui Luís Gomes, etc. Fora do âmbito académico verificaram-se numerosos casos de «teddyboyismo», por grupos constituídos fundamentalmente por «filhos de família» que provocavam destruições públicas, etc. No plano puramente escolar verificavam-se incidentes esporádicos, mas eram apenas, ou fundamentalmente, manifestações de vitalidade, conflitos locais com a Polícia, etc. Acidentalmente havia greves ou manifestações, ou ainda abaixo-assinados, por causa de um aumento de propinas ou outros factos do género. Em Lisboa, porém, foi edificada uma cidade universitária, com centro de convívio, restaurante, etc. E isso permitiu reunir, numa área de certo modo pequena, grande número de estudantes, o que modificou o panorama. Passou a haver uma maior consciência de grupo, mais amplas oportunidades de encontro, precisamente quando a politização do meio estudantil começou a ser feita com mais intensidade. Estas circunstâncias facilitaram um certo número de factos verificados em 1965, em que pela primeira vez foram desrespeitados publicamente professores, e até o próprio Reitor da Universidade Clássica. Como resultado desta agitação, que tinha já características políticas, foram afastados alguns professores e expulsos alguns alunos. Durante cerca de 3 anos verificou-se, depois, uma relativa acalmia, que no entanto era apenas aparente, porquanto durante ela se deu uma séria infiltração de elementos esquerdistas nas direcções das associações académicas, sobretudo em Coimbra e em Lisboa, infiltração essa que abriu o caminho a tudo quanto depois se veio a verificar. Com vista a atrair os estudantes às associações, estas procuraram oferecer maior número de serviços. Mas tal intuito foi dificultado, e por vezes contrariado, pela criação ou melhoria das organizações circum-escolares, por parte do Ministério da Educação Nacional: cantinas, lares, instalações desportivas, teatros, etc. Em virtude disto, os dirigentes das associações procuraram combater o isolamento ou amorfismo das massas estudantis através de um trabalho de sensibilização das mesmas, quer aos problemas universitários, quer aos problemas nacionais, entre os quais a partir de certa altura avultava o do Ultramar, ao qual os estudantes eram particularmente sensíveis em virtude da sua possível mobilização no fim do curso, ou até mesmo antes disso. Ao mesmo tempo, e face à limitação progressiva da acção das associações, outra linha de acção foi traçada e seguida: a reivindicação de um movimento associativo estudantil do tipo sindical, visando não somente a defesa dos interesses mais imediatos dos seus membros, mas também defender esses interesses «integrados numa perspectiva global, numa política de conjunto, firme e progressista». Este sindicalismo permitiria a sua integração em organizações internacionais de estudantes, em especial a União Internacional de Estudantes, dominada pelos comunistas, conduzindo portanto a um telecomando futuro mais fácil e mais eficaz. No princípio do ano lectivo 1968/69, a agitação irrompeu de novo, mas em força, em Coimbra. E em Novembro reuniram-se naquela cidade alguns milhares de estudantes das três universidades do País. Dessa reunião saiu uma Comissão Nacional de Estudantes Portugueses, e uma Declaração de 8 pontos, de carácter reivindicativo, a apresentar ao novo Presidente do Conselho, Prof. Marcelo Caetano. Esta Declaração exigia: Imediata demissão das Comissões Administrativas existentes (nomeadas após tentativas de controlo das respectivas Direcções) na Associação dos Estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa e na AA de Coimbra; Imediata legalização de todas as Comissões Pró-Associações; Revogação de «toda a legislação anti-associativa e anti-estudantil»; Participação dos estudantes, democraticamente eleitos, no governo da Universidade e na gestão dos Serviços destinados a estudantes; Intervenção das Associações de Estudantes, na qualidade de únicos representantes dos estudantes, em todas as questões e instâncias onde se decida da vida e da reforma da Universidade e do ensino em geral; Legalização das Federações de Estudantes de Lisboa e Porto, e da União Nacional de Estudantes Portugueses; Amnistia de todos os estudantes expulsos e presos, e reintegração de todos os professores afastados; Livre acesso aos órgãos de informação.
Em 8 de Dezembro [08Dez68] são suspensas as actividades da A. E. do Instituto Superior Técnico, e bem assim os respectivos corpos gerentes, depois de se ter verificado que os fundos da Cantina, então administrada por estudantes, haviam sido utilizados na impressão de cartazes e panfletos de índole extremista, em que se defendia a liquidação da Família como instituição, a liberdade sexual (traduzida, entre outras coisas, na exigência do termo da descriminação das instalações sanitárias por sexos), se fazia a apologia do marxismo e se condenava a luta no Ultramar. No dia imediato foi ocupada a Cidade Universitária pela Polícia, e encerrado provisoriamente o edifício de Convívio. A oposição à guerra no Ultramar, apoiada pelo Partido Comunista Português [PCP] e pelos Socialistas [ASP] – que em Portugal, e ao contrário do que se passa no resto da Europa, vivem em simbiose com os Comunistas – não revestiu nem reveste uma forma puramente de pacifismo, de ausência de violência, mas sim, e muito para além disso, a forma de propaganda política das próprias organizações contra as quais lutamos no Ultramar. Mas não de todas, pois que apenas se fala naquelas organizações que estão a soldo do comunismo ou se confundem com ele, como sejam o PAIGC da Guiné, o MPLA de Angola e a FRELIMO de Moçambique. As outras organizações terroristas que enfrentamos não são nunca citadas, e até mesmo chegam a ser combatidas. Em vésperas de datas ligadas aos movimentos terroristas referidos – início do terrorismo, etc. – são difundidos panfletos e cartazes de apologia a esses movimentos, convidando ao mesmo tempo os estudantes a manifestarem-se contra a guerra no Ultramar, convites esses que são feitos, quase textualmente, por Rádio Moscovo e pelos órgãos clandestinos do PC português, como o «Avante», etc.
Quando em 3 de Fevereiro de 1969 morreu o presidente da FRELIMO, vítima dos elementos pró-chineses ou pró-soviéticos do partido, o seu retrato apareceu exposto em faculdades de Lisboa. O fulcro da agitação, que se situava então em Lisboa, foi transferido, após 4 meses de certa acalmia, para Coimbra.
Em 17 de Abril inauguravam-se em Coimbra as novas instalações do edifício de Matemática da Faculdade de Ciências, e o Chefe de Estado presidiria às cerimónias. O presidente da AAC pretendeu usar da palavra na cerimónia, mas tal lhe foi recusado pelo Reitor. Já no decorrer da cerimónia, novo pedido foi feito no mesmo sentido, recusado desta vez pelo Chefe do Estado, por não constar do programa. Dentro de um plano indiscutivelmente premeditado, quando o Chefe do Estado abandonava o edifício foi alvo de apupos e de palavras ofensivas por parte de estudantes. Em consequência disto, o presidente da AAC e outros oito dirigentes foram suspensos de todas as suas actividades. É decretado luto académico e são canceladas pelos estudantes as festas da Queima das Fitas. Estabeleceu-se depois um vai-vem de agitadores e de agitação entre Coimbra e Lisboa, de que resultou, em princípios de Maio, o encerramento das duas universidades e dado por findo o ano lectivo.
Em 28 de Maio, uma Assembleia Magna de Coimbra decretou a abstenção aos exames. E, quando a altura destes chegou, vivia-se na cidade um clima de grande tensão, dado que, além de haver piquetes de grevistas a impedir o acesso aos estudantes que quisessem fazer exames, foram exercidas violências sobre estudantes e até sobre pessoas da família dos mesmos, incluindo uma senhora grávida, que foi selvaticamente agredida em sua própria casa. A Polícia montou um serviço de transporte e protecção aos estudantes que quisessem ir a exame, o que foi aproveitado, em panfletos, para dar a entender que esses estudantes iam a exame por violência policial. Apenas 14% dos estudantes se apresentaram a exame na 1.ª época. Na 2.ª época, no entanto, e não obstante toda a propaganda feita no sentido da continuação da abstenção, o afluxo foi quase normal.
Em 11 de Julho, o Governo alterou a Lei do Serviço Militar, passando a concessão do adiamento do serviço militar a depender do comportamento escolar dos estudantes. Em virtude disso foram convocados alguns dos principais implicados. Entretanto, e no meio de panfletos clandestinos e cartazes sem conta, saí a lume uma Declaração de reivindicações sindicalistas, em que a certa altura se dizia: «Os estudantes portugueses declaram, perante a Universidade, perante a Nação Portuguesa e perante a comunidade internacional de estudantes, que prosseguem a via de um sindicalismo estudantil, como a mais adequada à sua etapa histórica e às necessidades mais profundas da vida nacional». Os princípios gerais difundidos pelos movimentos estudantis eram: Neutralidade política e religiosa – uma neutralidade que mais deveria chamar-se neutralismo, do tipo de países, como a Jugoslávia, Egipto, União Indiana, etc., que na realidade alinham sistematicamente contra Portugal; Os interesses de todos os estudantes devem ser defendidos por uma associação única, que não se limite apenas a sócios, associação essa do tipo União Nacional de Estudantes; Eleição democrática dos dirigentes associativos; Reforma global do ensino; Co-gestão universitária e circum-escolar; Atribuição de remuneração aos estudantes. Vamos ver, quanto a pelo menos duas destas reivindicações, como os agitadores se contradisseram posteriormente.
Em Outubro de 1969, realizaram-se as eleições para deputados à Assembleia Nacional, em que a liberdade de discussão, até mesmo do problema ultramarino, foi amplamente aproveitada para a criação de um clima de agitação que alguns pretendiam encaminhar para a insurreição. E, muito embora a Oposição perdesse as eleições em todos os círculos, pôde, no entanto, montar estruturas, como a CDE, que lhe permitiram, com forte apoio do PCP, continuar a sua acção. Dado que o ano lectivo não havia ainda começado, não foi possível aos estudantes criar nas universidades um ambiente de agitação, paralelo ao que se verificava cá fora. Mas o desejo de o criar estava latente, e manifestou-se Ioga que as aulas abriram. E o pretexto surgiu perto do fim do ano, quando no Teatro Gil Vicente, em Coimbra, se realizava uma sessão promovida por estudantes da extrema-direita, em que deveriam falar, entre outros, o antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros, Embaixador Franco Nogueira. A reunião havia sido solicitada ao Reitor, autorizada, e inseria-se no plano de reuniões iguais havidas em outras cidades, com vista a chamar a atenção do povo português para a subversão reinante e latente. Mas o Reitor, assediado por estudantes das esquerdas, considerou que seria perigoso, talvez, realizar tal reunião; e determinou que ela fosse interrompida, já quando havia sido iniciada. Houve forte reacção por parte dos presentes. E como na praça em frente se haviam reunido muitos estudantes esquerdistas, que aproveitaram a ocasião para vaiar os presentes à sessão, gerou-se grave conflito que obrigou a Polícia a intervir. Registaram-se vários feridos, e correu mesmo o boato de que havia sido morto um estudante, o que não foi verdade, mas que os mais extremistas desejavam, para que houvesse finalmente um «mártir», um «herói».
A agitação promovida pelas organizações esquerdistas propagou-se imediatamente à Universidade de Lisboa. E o resto do ano lectivo decorreu num equilíbrio instável, como se verificou pelo facto de os estudantes de Coimbra terem decretado mais uma vez luto académico e a anulação das festas da Queima das Fitas. Em Lisboa esta instabilidade verificou-se não só em faculdades várias como também nos institutos Comercial e Industrial – que, de resto, já do antecedente vinham a ser alvo de acentuada agitação.
Previa-se que o ano lectivo 1970/71 seria crucial, não só dentro da evolução da situação anterior, como também porque a orquestração internacional da propaganda anti-portuguesa atingia o seu máximo de sempre, e ainda porque o novo Ministro da Educação Nacional, depois de ter tomado, logo desde o início, um conjunto de medidas tendentes a resolver graves problemas, sobretudo universitários, no campo da carência de professores e assistentes, anunciou ainda ser seu propósito apresentar, antes de um ano, um projecto de reforma global do ensino.
Pelos motivos expostos, pois, a agitação redobrou de intensidade, e o pretexto invocado foi a situação no Instituto Industrial de Lisboa. Os Institutos Industrial e Comercial de Lisboa vinham a registar, do antecedente, grave agitação. Assim, em Maio de 1970 registou-se no Instituto Comercial uma greve que obrigou à intervenção da Polícia, e de que resultou a instauração de vários processas, mais tarde todos arquivados.
Em Outubro seguinte, agora no Instituto. Industrial, foram aplicadas penas de suspensão a seis alunos acusados de incitamento à indisciplina. E entre 24 de Novembro e 11 de Dezembro houve várias tentativas de reunião, e intervenções policiais.
Em 2 de Dezembro foi iniciado o ano lectivo no novo edifício do Instituto Industrial. Logo a seguir foram instaurados processos a 4 alunos surpreendidos a convocar colegas para uma reunião. Suspensão dos 4 alunos e agitação consequente. Suspensão das aulas e encerramento do edifício. Um grupo de alunos, porém, arrombou as portas, e um deles içou uma bandeira vermelha na fachada do edifício. Era, já, uma nítida tentativa de revolução.
Em 5 e 6 de Dezembro realizou-se no Instituto Superior Técnico uma reunião de representantes das várias associações académicas, para apoiar as pretensões dos alunos do ensino médio superior. Estas pretensões eram, fundamentalmente, o restabelecimento das Associações Académicas dos I. Industrial e Comercial, suspensas, a primeira, desde 1969, e a segunda, desde 1967/68.
A Faculdade de Direito de Lisboa vinha-se revelando, agora, aquela onde a agitação assumia particular gravidade. Nas paredes abundavam os panfletos subversivos; os alunos exigiam que nas aulas se discutisse, por exemplo, um Relatório enviado à ONU por Amílcar Cabral, Secretário Geral do PAIGC. etc. No início do ano lectivo houve eleições para os órgãos sociais da Faculdade, e candidataram-se duas listas. A primeira tinha como divisa «Luta pela Universidade do Povo», e estava ligada ao PCP e aos elementos deste no IST; a outra tinha como divisa «Ousar lutar, ousar vencer». A primeira lista perfilhava «uma concepção do movimento associativo como um movimento sindical, democrático e progressista», e entendia a democratização do ensino como «a sua colocação ao serviço das classes trabalhadoras». Mais concretamente, esta lista propunha-se realizar: «Luta pedagógica baseada na análise crítica e teórica do ensino ministrado (formação de grupos de trabalho, intervenção permanente nas aulas, criação de cursos livres abertos a todos); Funcionamento do conjunto das secções das Associações de Estudantes na base de iniciativas determinadas, mobilizadoras das mais amplas camadas de estudantes (sindicalismo, reformas, etc.); Consideração especial da situação dos estudantes trabalhadores (voluntários); Elevação do nível cultural dos estudantes; Informação constante e crítica sobre a realidade nacional e internacional». A outra lista, de objectivos mais moderados, orientava-se para um mais fácil acesso aos cursos, reformas de ensino, etc. Esta lista, porém, e em virtude de pressões sobre ela exercidas, acabou por desistir. E ficou na liça apenas a outra lista, conduzindo portanto a uma coordenação da acção subversiva com o IST e o PCP. Entretanto haviam sido arquivados, a pedido do Ministro da Educação Nacional, os processos instaurados contra os estudantes de Coimbra implicados nos acontecimentos da inauguração do edifício de Matemáticas, e ficou sem efeito, igualmente, a convocação militar dos mesmos. Isto foi anunciado em Coimbra como uma vitória estrondosa da oposição estudantil, como a consequência de uma enorme pressão da opinião pública nacional e internacional.
Em 3 de Dezembro de 1970, realizou-se na Cantina Universitária de Lisboa uma reunião subordinada ao tema «Policiamento e isolamento». Na sequencia disto foram interrompidas as aulas nas Faculdades de Direito e de Letras. Em 11, foi boicotado um baile promovido pela comissão de finalistas de Direito, com o fundamento de que os bailes não eram mais do que «formas inferiores de convívio», censurando-se «a actuação infantilista de minorias inconscientes». A situação deteriorava-se rapidamente.
Em 14, foi interrompida uma conferência de um catedrático brasileiro de Direito, numa aula do 3º ano, por este «pertencer à guarda avançada da ditadura fascista brasileira». Poucas horas depois era forçada a porta da sala do 5º ano da mesma Faculdade, e interrompida a aula.
Em 15, foi interrompida uma aula do 1º ano. O Director ordena a evacuação imediata da Faculdade, o que foi feito sob dispositivo policial. Vários alunos dirigem-se à Faculdade de Letras, onde interrompem aulas. Daqui foram para a Cantina, onde discutiram problemas e onde foi convocada uma reunião inter-associações (RIA). A situação continuava a deteriorar-se. Haviam já ocorrido actos de violência sobre instalações, com destruição de mobiliário, quadros e outro material.
No dia seguinte, é encerrada a Faculdade de Direito e imposta a identificação à entrada da Faculdade de Letras. E são encerradas depois, sucessivamente, as várias Faculdades. Pairava um clima de perigosa tensão nas Universidades e Institutos de Lisboa, tensão essa que se propagou, ainda que em menor escala, a Coimbra, onde se verificaram também actos de violência sobre instalações escolares, e em menor escala, ao Porto.
Entretanto, o Ministro da Educação Nacional anunciou as directrizes gerais de uma reforma global do ensino, a iniciar já no ano lectivo 1971/72, e para a qual solicitava o parecer de todos, sobretudo de professores e alunos. Este projecto encontrou ampla aceitação em todo o país, não obstante haver naturais divergências, como seria inevitável em matéria de tamanha transcendência. Mas, ao contrário do que muitos esperavam, não se verificou abrandamento imediato da agitação estudantil. Houve, mesmo, um agravamento, em que, numa reunião plenária, os estudantes universitários de Lisboa se propunham discutir o procedimento futuro, encarando-se o alargamento das greves aos liceus. E, no regresso de uma reunião em massa em frente ao Ministério, para entrega de reivindicações ao Ministro, um grupo de estudantes apedrejou a embaixada americana.
Mas os acontecimentos tinham ido além do suportável. Havia já protestos em toda a Imprensa e na Assembleia Nacional contra a violência e intencionalidade da agitação estudantil. Deu-se um movimento da grande «maioria silenciosa» a que o Ministro se dirigira. E, nas Universidades, surgiram estudantes a pretender discutir o projecto ministerial. Mas a tal desiderato se opunham ferozmente as facções que não queriam que tal fosse feito, que não queriam evolução, mas revolução.
Em face da continuação do clima de agitação, sobretudo em Lisboa, o Ministro determinou, por seu Despacho de 21 de Janeiro, que não só fossem tomadas medidas disciplinares severas contra os estudantes que desrespeitassem professores, como também medidas judiciais contra aqueles que praticassem destruições. Por outro lado, as associações académicas ficavam expressamente proibidas de discutir assuntos que ultrapassassem o âmbito escolar. Paralelamente, o Ministro da Defesa avisou os estudantes de que o adiamento do serviço militar só poderia ser compreendido no âmbito de estudantes que estudassem, e nunca para estudantes que fossem profissionais da agitação.
Tudo isto conduziu a um progressivo abrandamento da tensão e da agitação, e a uma progressiva normalização aparente da situação, sempre susceptível, no entanto, e a cada pretexto, de se agravar.
Assim, em meados de Fevereiro, e tendo sido anunciado na Imprensa o breve início de um julgamento em que iriam responder alguns estudantes de Coimbra detidos por estarem implicados em ligações com o MPLA, a direcção da AA de Coimbra mandou executar e distribuir panfletos convocando reuniões para discussão do caso, e, não obstante o Reitor da Universidade ter feito saber que o Ministro havia proibido a intervenção de estudantes em política, dentro de instalações escolares, foram realizadas reuniões ilegais, conforme comunicado publicado pela reitoria na Imprensa. Por outro lado, a difusão de panfletos nos estabelecimentos de ensino manteve-se em elevado grau, visando fomentar ou manter a agitação, invocando todos os pretextos, abrindo já o caminho para um futuro boicote dos exames, etc.
Era esta, pois, a situação em meados de Março, de 1971. A agitação estudantil em Portugal, como em Espanha ou em França, tem tido um carácter essencialmente político, ou, quando assim não acontece inicialmente, os movimentos são depressa politizados. Em Portugal, como em França em 1968, são minorias da extrema-esquerda ou da esquerda que têm comandado toda a acção, realizando um trabalho de subversão que vai já contaminando, de forma sensível e preocupante, a juventude liceal. Mas as contradições denunciam o carácter político dos movimentos. Assim, e entre as exigências do Manifesto de 1969, contavam-se, como se viu: A reforma global do ensino; Remuneração a atribuir aos estudantes. Ora quando o Ministro da Educação Nacional anunciou o projecto de uma reforma global do ensino, certas facções de estudantes recusaram-se a discutir ou sequer deixar discutir este projecto.
Por outro lado, e ainda em Janeiro de 1971, uma assembleia de estudantes de Lisboa determinou que os alunos das Academias militares não poderiam participar dos campeonatos desportivos universitários, por receberem vencimento e não serem, portanto, estudantes. Para além, pois, de todas as razões que assistam aos estudantes portugueses, desde as carências de instalações às insuficiências de material didáctico e de professores, à burocracia, ao imobilismo, ao caciquismo dos senados universitários, a movimentação da massa estudantil portuguesa tem tido um carácter essencialmente político, cuja motivação fundamental é, hoje, a luta no Ultramar.

10. PALAVRAS FINAIS
Nos movimentos juvenis há, quer elementos permanentes, inseparáveis das condições de jovem e de estudante, quer elementos ocasionais, específicos de cada época, cada país ou cada núcleo populacional ou escolar, isto é, das respectivas condições sócio-económicas e culturais. A fronteira entre uns elementos e outros é imprecisa, e por isso somos muitas vezes levados a tomar como pertencentes a um grupo, manifestações que, na realidade, pertencem ao outro. Transcendendo o plano das reivindicações puramente escolares, os movimentos estudantis transformaram-se num protesto em massa, não só contra a organização, os métodos e os objectivos do ensino, como também, e agora principalmente, contra a sociedade em geral. A contestação passou, assim, do plano teórico para o plano prático. O jovem de hoje pretende ter o seu lugar, não ao sol, mas na sociedade; e a massa em que se integra dá-lhe força para se impor. E uma massa, como a sua, em estado dinâmico, é lúcida, imaginativa, audaciosa e intuitiva. Hoje, basta ser novo para ter razão. E muita coisa se orienta no sentido de lhe dar razão, pelo menos aparentemente. O jovem é hoje adulado, procurado, pelo industrial, pelo comerciante, pelo dirigente político, pelo mentor religioso. Habituado, pois, a ser escutado e procurado, o estudante esquece a sua imaturidade, ou considera que o aceleramento do progresso o amadureceu mais depressa do que as gerações anteriores. E desenvolve um apurado espírito de crítica, que se manifesta em tudo. Já não vai à universidade ou ao liceu para escutar, como dantes, mas para perguntar, para discutir. Por outro lado, deseja aprender coisas concretas que sirvam em determinada formação, e não se interessa pelo que se afasta dos seus propósitos pessoais. Por isso desafia brutalmente os mais velhos em tudo aquilo que pessoalmente lhe diga respeito: vestuário, trabalho, comportamento sexual, serviço militar, etc. Rejeita, assim, a ideia de se sacrificar pela Pátria, porque a sua ideia de servir está ligada directamente à ideia do seu bem-estar. Este estado de espírito pode ser traduzido com certa felicidade pelos versos seguintes de uma canção do cantor brasileiro Roberto Carlos: «Quero que você me aqueça neste Inverno, E que tudo o mais vá para o Inferno». Por outro lado, sendo a juventude a idade mais receptiva e mais influenciável pelo meio ambiente, são os jovens quem mais fortemente reflecte a instabilidade, a incoerência e a trepidante evolução do nosso tempo. Eles são os Bárbaros do nosso tempo, porque têm costumes diferentes, porque falam, até, uma língua diferente. Só nunca tinha acontecido serem os Bárbaros, não um povo diferente, mas uma geração diferente, e a fronteira entre uns e outros estar marcada, não no espaço, mas no tempo.
Os jovens estão, económica e socialmente, em equilíbrio instável. Como poderiam deixar de o estar também politicamente? Procuram, pois, formas novas de falar, de amar, de viver a existência quotidiana. E, dentro de uma universalidade de todos os problemas, hoje corrente, já não aceitam estar fechados em quadros, estruturas, células ou partidos, recusando portanto as fronteiras geográficas, ideológicas e políticas. Toda esta instabilidade material, mental e emocional dos jovens de hoje é, no entanto, facilmente canalizável, explorável por elementos que joguem com o espírito generoso e com a impulsividade do jovem, que por isso é tantas vezes arrastado sem disso se aperceber, ou convencido de que segue o seu rumo.
Em 1968, no espaço de 3 dias, agitações provocadas por estudantes desencadearam-se simultaneamente na América do Sul, na Europa e na Ásia. Em toda a parte se gritaram os mesmos slogans, se ostentaram os mesmos cartazes, se formularam as mesmas reivindicações, se utilizaram as mesmas técnicas de subversão, ou pelo menos de agitação. E difícil se torna admitir que países tão diferentes e tão distantes como a Bolívia, a França ou o Japão tivessem todos que resolver, ao mesmo tempo e com urgência, os mesmos problemas universitários. Os jovens diferem uns dos outros, de país para país e até dentro do mesmo país. Mas são, todos eles, circuitos em ressonância. Quando um vibra, os outros vibram. E gera-se uma unidade que, não sendo real, acaba, às vezes, por conduzir a situações como aquela que se verificou em França em Maio-Junho de 1968, e que, com variantes mais ou menos acentuadas, podem verificar-se em qualquer país. Em Nanterre, durante este período conturbado, um dístico colado numa parede dizia: «Sejam razoáveis! Peçam o impossível!». Esta piada, que se situa entre a graça pura e a palavra-de-ordem política, foi excitar, por isso, grupos diferentes, um não-político e o outro político, amalgamando-os temporariamente.
É precisamente este amalgamento temporário, é esta ressonância colectiva, que constituem hoje o grande perigo da Contestação, pois vão gerar outras reacções em cadeia, conduzindo ao desconhecido.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
Combats Étudiants dans le Monde – Ed. Seuil, Paris
La Rebelion Estudiantil – Charlton Th Craig (Ed. Plaza Y Janes)
As Revoltas dos Jovens – J. Sousselin (Ed. União Gráfica)
Maio e a Crise da Civilização Burguesa – António José Saraiva (Ed. Europa-América)
A Revolta de Maio em França – Cadernos D. Quixote, N.º 11
Os Hippies. Quem os Conhece? – Cadernos D. Quixote, N.º 29
A Revolta dos Estudantes – Ed. Delfos
Os Hippies – Ed. Europa-América
Marcuse – Alasdair Maclntyer (Ed. Fontana Modern Masters)
Eros e a Civilização – H. Marcuse (Ed. Zahar)
One Unidimensional Man – H. Marcuse (Ed. Sphere, London)
O Fim da Utopia – H. Marcuse (Ed. Seuil, Paris)
Colaboração diversa em jornais, revistas e outras publicações
Enciclopédias: Portuguesa e Brasileira; Verbo

 

© UTW online desde 30Mar2006

Traffic Rank

Portal do UTW: Criado e mantido por um grupo de Antigos Combatentes da Guerra do Ultramar

Voltar ao Topo