"Adeus até
ao teu regresso", título desta dissertação de
mestrado em Estudos sobre as mulheres, na Universidade
Aberta, podia ter sido a resposta de muitas mulheres
portuguesas, à frase tanta vezes proferida e difundida
nos meios de comunicação social da época, pelos
militares que lutavam na guerra colonial: "Adeus até ao
meu regresso".
Ela incide
sobre o trabalho de uma organização de mulheres que
durante treze anos (1961-1974) acompanhou moral e
materialmente os soldados que lutavam em África e as
suas famílias: o Movimento Nacional Feminino. Sendo a
guerra considerada um empreendimento de carácter
essencialmente masculino, o contributo dado pelas
mulheres neste contexto tem sido geralmente omitido. Mas
é importante não esquecer que ‘por trás do pano’, na
retaguarda, as mulheres sempre desempenharam papéis
muito significativos.
Neste
estudo analisa-se o contributo de MNF – um movimento de
mulheres, jurídica e politicamente independentes, mas
que sempre actuou em consonância com a política colonial
salazarista – num contexto de fervor religioso e
nacionalismo exacerbado: "Por Deus e pela Pátria" foi o
seu lema.
Um lema a
que aderiram cerca de 80000 mulheres. Um número que pode
não estar sobrestimado se atendermos ao clima de revolta
que se viveu em Portugal, nos primeiros anos da guerra,
dada a convicção de milhares de portuguesas e
portugueses, adquirida nos bancos da escola, de que
pertenciam a um país heróico "onde o sol nunca se
punha".
Como a
revolução de Abril apanhou todos, ou quase, de surpresa
a documentação do Movimento não só ficou dispersa pelas
várias secções, pelas várias instituições, pelas várias
casas particulares como, em alguns casos, foi destruída.
Por estas razões a localização e sistematização desses
documentos constituiu uma dificuldade.
Para este
trabalho consultaram-se registos escritos do e sobre o
MNF – relatórios de actividades, actas de colóquios,
circulares de distritais, imprensa nacional, regional e
imprensa do próprio Movimento – e fontes privadas
através de documentação particular e entrevistas: é
preciso não esquecer a importância dos testemunhos orais
para a elaboração de uma História Contemporânea das
Mulheres.
Dotado de
uma grande capacidade de mobilização, esta organização
sobreviveu activa durante treze anos graças à sua
estrutura bem organizada e hierarquizada – possuía
comissões distritais e delegações espalhadas pelo país,
por vezes no estrangeiro e no "Ultramar" – bem como aos
apoios do Estado e de vastas camadas da população desde
o povo anónimo, às grandes empresas ou a intelectuais e
artistas populares.
Fundado por
25 mulheres provenientes da elite do regime do Estado
Novo, o MNF teve como única presidente, Cecília Supico
Pinto, mulher de forte personalidade a verdadeira "alma
e corpo" do Movimento.
Os
objectivo do MNF ou, recorrendo a uma palavra recorrente
no vocabulário das mulheres que dele faziam parte, a sua
"missão" era "promover o auxílio moral e material aos
militares e suas famílias", sendo utilizadas as formas
mais diversificadas para os divulgar. Porém, e apesar
das mais de vinte secções que desde a sua formação
criou, o Movimento ficou principalmente conhecido pela
popularidade e aceitação de duas: a de Aerogramas e a
das Madrinhas de Guerra.
Tendo
vivido a primeira parte da década de sessenta uma
importante fase de expansão e de apoio institucional e
privado, o MNF conhece, ao aproximarem-se os anos
setenta, um período de grande contestação, não só
proveniente das oposições ao regime – mais organizadas e
em maior número – como também dos próprios militares
agora mais escolarizados e mais informados sobre as
razões de uma guerra de que começavam abertamente a
discordar.
O Movimento
Nacional Feminino viria a ser extinto por decreto da
Junta de Salvação Nacional, algum tempo depois de
completar treze anos de existência ao serviço dos
militares e da ideologia colonial do Estado Novo.
Sílvia
Espírito Santo