Texto:
"Parece que é
bruxo! …"
Mesmo quem nunca foi à tropa sabe que
existem vocábulos e calão que apenas se usam durante o
tempo passado nas fileiras. Na guerra das colónias e
concretamente em Moçambique, havia uma série de termos
que ouvidos fora do contexto podiam provocar alguma
confusão. Este texto não pretende ser um dicionário.
Todavia vamos citar alguns termos que por serem
susceptíveis a criar algum embaraço, são dignos de
referência. O primeiro que se ouvia logo na chegada à
Província, era o “checa”, significava elemento das
forças armadas recém-chegado à província de Moçambique,
podia significar novato, sem experiência militar,
ingénuo e era usado depreciadamente. Ao contrário,
existia “Velhinho”, elemento experiente e com mais de
50% da Comissão cumprida. Nesta área existia ainda o
“VCC” (Velhinho comó caralho), elemento que já excedia,
no tempo, os 24 meses de Comissão. Este tempo extra
também era conhecido por “mata-bicho”. Retirado de um
dialeto indígena, havia ainda o vocábulo “Cocuana” que a
par de significar velho e antigo, também queria dizer
manhoso.
Na linguagem oral existiam também algumas frases feitas,
como por exemplo: “Parece que és bruxo!”. Utilizava-se
quando alguém fazia uma afirmação que correspondia
totalmente à verdade e não era necessário efetuar
nenhuma infirmação ou correção à mesma. Quando, em
Fevereiro de 72, cheguei à Beira encontrei dois amigos
da minha cidade que, obviamente me perguntaram qual era
o meu destino. Disse-lhes: Omar. Responderam: -Estás
“fodido”. Retorqui: -Porquê? Aquilo é mau. Resposta
final: -Parece que és bruxo!
Existia também o superlativo relativo “é mato”,
significava muito, excesso, quantidade. Em virtude do
uso deste termo fora da situação de comunicação, podia
gerar confusões. Adianto como exemplo o que se passou
com um soldado do meu Pelotão, o Monteiro. Era natural
de uma aldeia situada em Trás-os-Montes profundo. Era
conhecido pelo “Terrinas”. Na correspondência que
mantinha com os seus pais, em determinada altura o
progenitor, baseado nas fotografias que lhe eram
remetidas pelo filho, achou-o mais magro e disso lhe deu
conhecimento. O “Terrinas” respondeu-lhe que não era
verdade, até estava mais gordo, a alimentação, na tropa,
embora não possuísse muita variedade e qualidade, “era
mato” e ele como tinha “boa boca” não tinha problemas,
comia, em quantidade, o que lhe apetecesse, fazia-o
sempre até ficar saciado. Logicamente que o “velhote”
ficou preocupado e na missiva seguinte lá introduziu
dentro do envelope uma nota de Quinhentos Escudos,
dizendo para comprar alguma coisinha na cantina, pois o
mato apenas o come os animais.
Havia ainda aquele verbo que ninguém desejava que lhe
fosse aplicado, nem tão pouco ajustado a qualquer
camarada. Porém, se fosse destinada a algum elemento do
IN, embora possa parecer mórbido ou sádico, em certas
circunstâncias até se comemorava. Era o “lerpar”.
Realmente “lerpar” queria dizer morrer. Este termo, no
jogo de cartas de sorte e azar da “Lerpa”, significava
perder. Na gíria da tropa, foi transposto do jogo de
cartas para o jogo da vida.
Outro termo dizia-se quando alguém tinha alguma coceira.
Como é lógico, com as unhas arranhava-se, às vezes,
desesperadamente, com o fim de acabar com o prurido.
Nestes casos o comentário que normalmente se ouvia era:
-Parece que apanhaste feijão macaco.
O feijão-da-flórida (Mucuna pruriens) é uma planta anual
que chega a medir até 20 metros, da família das
leguminosas, subfamília Faboideae. Tal espécie é
tropical, nativa da África, Índia e Caribe, possui
flores roxas ou purpúreas e vagens oblongas. Também é
conhecida pelos nomes de feijão-cabeludo-da-índia,
feijão-de-gado, feijão-mucuna, FEIJÃO-MACACO,
feijão-maluco, feijão-veludo e mucuna-vilosa.
A vagem era coberta por pequenas partículas, parecia
veludo, que em contacto com a pele, causava uma comichão
danada. Realmente, quanto mais se coçava mais a coceira
aumentava. Era, efetivamente, um suplício, quiçá
superior à tortura de Tântalo. Em determinada altura, no
norte de Moçambique, na região de Omar, durante uma
evacuação, o helicóptero tanto na descida como na
subida, fê-lo num local recheado deste temível vegetal,
a agitação do ar produzida pela hélice provocou a
largada na atmosfera das tais partículas do
feijão-macaco em abundância, cerca de 90% do pessoal foi
atingido. Na verdade, foi o desespero total, se a
Frelimo estivesse por perto, não sei como seria, na
medida em que a nossa ação e atenção se encontrava
virada para acabar com a ação do produto pruriente,
libertado pelo raio da vagem do feijão. Na realidade o
alerta para com o inimigo, inconscientemente, deixou de
existir.
Noutra ocasião, na cidade de Vila Pery, dois elementos
da minha Companhia, porque numa ocasião anterior não
tinham sido bem recebidos na sala de cinema daquela
cidade. Em jeito de retaliação, numa segunda visita
resolveram levar para o interior da mesma, um envelope
com quatro vagens de feijão-macaco. Não havia ar
condicionado na tal sala de espetáculos. Contudo
existiam, pelo menos, duas grandes ventoinhas que ao
girar velozmente, produziam a movimentação do ar,
tornando-o mais fresco. Depois de apagadas as luzes para
início da sessão, cada um deles colocou debaixo dessas
ventoinhas, duas dessas vagens. Daí a pouco, foi um vê
se te avias, parecia que havia um incêndio na sala, toda
a assistência a fugir apressadamente coçando-se como e
onde podiam. Realmente gerou-se uma enorme confusão e
algum pânico.
Havia ainda o “apanhado pelo clima”, desses estava a ala
Psiquiátrica do Hospital Militar de Nampula cheia. Até
me recordo de ter lá visto um Tenente-Coronel. Era o
pessoal que não aguentava a pressão e entrava em
depressão nervosa ou outro tipo de doença mental, eram
aqueles que em termos psíquicos não aguentavam. Mas, por
vezes, este cliché também era usado informalmente. Na
verdade quando alguém proferia algum disparate, era
recorrente dizer-lhe: Não sabes o que dizes, estás
“apanhado pelo clima”. Neste caso significava estás
maluco, és inimputável.
Quando se recorria ao sexo, comprado ou não, sobretudo
com mulheres africanas, com certeza que era
imprescindível saber o que queria dizer “fazer máquina”,
em termos de não ferir suscetibilidades, o sinónimo é
praticar cópula carnal.
Os elementos da Frelimo, de uma forma geral eram
denominados por “turras”, mas havia termos que os
destrinçavam analisando a sua capacidade para a guerra.
Existiam os “guerrilheiros”, de facto, tinham preparação
militar, normalmente era-lhes administrada nos Países de
Leste ou na China, andavam bem armados. Por outro lado
existiam os “machambeiros”, a experiência militar que
possuíam era fornecida pelos guerrilheiros e também a
ganhavam com a experiência no terreno. Executavam
tarefas menores como carregadores, eram eles que
carregavam as minas, que eram colocadas na picada, bem
como os morteiros 82 mm, o conjunto tubo mais prato e
respectivas granadas. Utilizados nos ataques a colunas e
a aquartelamentos. Andavam armados, normalmente, com
armas de repetição ou artesanais, tipo canhangulo.
Embora possa parecer paradoxal, o termo “machambeiro”
também era utilizado para identificar os Oficiais
Superiores do nosso Exército. “ Os corações do soldado
pisam-no os “machambeiros…”, parte da letra de uma ária
do Cancioneiro do Niassa. Já o termo “Chico” era
aplicado a todos os elementos profissionais das forças
armadas, fossem eles Oficiais, Sargentos ou Praças.
Meter o “chico” queria dizer: -Meter o requerimento para
ingressar, em termos profissionais, nas Forças Armadas.
No calão militar considerava-se “Coca-Cola”, todo o
mancebo, branco, recrutado na província ultramarina. Com
efeito, não importava ser natural ou migrante, desde que
fosse incorporado localmente era mesmo “Coca-Cola”.
Estou em crer que este termo derivou do facto dos
habitantes de Lourenço Marques, serem também conhecidos
daquela forma.
Havia, ainda, “Maningue” significa muito, muitos, é uma
espécie de estrangeirismo, advém do vocábulo língua
inglesa many (muitos e muitas), falado nos países
vizinhos, África do Sul e Rodésia. Portanto “maningue”
de coisas havia para dizer, mas hoje, ficamos por aqui.