Em terreno aberto conservava-se
entre dois elementos consecutivos
dum GComb em Operações, uma
distância que variava entre três e
cinco metros.
A velocidade de progressão variava
também com as condições do terreno
entre dois e quatro quilómetros por
hora, reduzindo-se muito quando se
previa algum encontro com o inimigo.
Leopoldo olhou para o relógio de
ponteiros luminosos e viu que ainda
faltavam quinze minutos para a hora
a que seria rendido.
Era noite escura. Os primeiros
alvores da madrugada só se
começariam a notar perto das cinco
horas da manhã.
Apertou a barriga outra vez e
pensou:
— Estou à rasca. Não me vou
aguentar até ao fim do meu turno!...
Olhou para trás e já habituado à
escuridão, conseguiu distinguir os
vultos sombrios das tendas mais
próximas.
Ouvia perfeitamente o ressonar dos
seus camaradas. Um deles roncava de
tal forma que se devia ouvir a
muitos metros de distância. Já por
três vezes, fora junto dele e
fizera-o voltar-se com a ponta do
pé. Os roncos haviam parado por
momentos para recomeçarem novamente,
pouco tempo depois.
Estavam ali à sua guarda e à de mais
cinco sentinelas colocadas
estrategicamente em volta do
acampamento, cerca de sessenta
homens a dormir vestidos e calçados,
com as cartucheiras cheias de balas
a servir de almofada e a espingarda
deitada a seu lado como se fosse uma
namorada.
Tinham acampado naquele lugar, duas
dezenas de metros à esquerda do
trilho que vinham seguindo, na
véspera por volta das dezoito horas,
quando já caía a noite do primeiro
dia de marcha.
O "Bivaque' tinha a forma dum
círculo com cerca de vinte tendas
triangulares na sua periferia, em
cada uma das quais dormiam três
militares. Cada um destes grupos de
três soldados formava uma unidade
que podia sobreviver e ser
operacionalmente eficiente sozinha.
Desde a formação da Companhia que
eram treinados para isso e estavam
habituados a actuar juntos.
Numa segunda linha, logo atrás da
secção que comandavam ficavam os
furriéis. Cada secção era
constituída por três unidades de
três praças.
No centro do círculo ficava a tenda
do comandante da Operação que era o
alferes do 1.º GComb, e dos seus
adjuntos os do 2.º e do 4.º.
Naquela época, o capitão, comandante
da Companhia continuava com baixa
por doença e no Quartel ficara
apenas o 3.º Pelotão, cujo
comandante, o alferes Gonçalves se
encontrava no hospital com baixa
devido ao rebentamento duma mina. O
1.º Sargento era o militar mais
graduado presente no quartel e por
isso assumiu o Comando.
O vigia viu que já eram quatro horas
da madrugada, acordou o soldado que
o ia render e quando este chegou
junto dele disse:
- Eu vou volto já.
Afastando-se um pouco para fora do
círculo formado pelo acampamento,
encostou a arma a uma árvore e atrás
duma moita, baixou as calças e
aliviou-se.
Na tenda do meio os três oficiais
conversavam em voz baixa quando se
ouviu uma rajada e alguém gritou:
- Aí estão os gajos!...
Cada um correu para o seu posto e
tomou posição de combate.
Um deles, durante a corrida
tropeçou, caiu sobre um joelho, e o
cano da sua espingarda enterrou-se
no chão húmido. Apressadamente
desenroscou-lhe o tapa chamas cheio
de terra, meteu-o na algibeira,
bateu com o cano da arma no tronco
de uma árvore, para o sacudir e
experimentou-a com os cuidados
necessários pois podia explodir.
Funcionou bem.
Entretanto o tiroteio
generalizava-se distinguindo-se
perfeitamente o matraquear claro e
seco das kalashnikov do som rouco e
profundo das G3.
Primeiro dispararam os
guerrilheiros, momentos depois
localizada a origem do fogo,
responderam as armas dos militares,
abafando o som das primeiras que
pouco depois se calaram. As da tropa
calaram-se também. Depois de um
período de espera, recomeçaram os
disparos pela mesma ordem e com o
mesmo final.
Este ciclo repetiu-se muitas vezes
durante um período que serviu para
os contendores se estudarem
mutuamente.
— Baixa os c___,: pál... Deixa-te
estar quieto... Olha que tos
furam!... — Gritava o Jaime.
E olhando de relance para o furriel
que nesse momento chegava junto dele
disse, interrompendo o tiro:
- É o Leopoldo, ... está deitado
ali à frente... Estava a c....
quando a festa começou... Ainda nem
sequer limpou o cu.! — Gaguejou
excitado tentando chalacear e
ensaiando um esgar que pretendia ser
um sorriso.
— Está aonde?... Ah, já estou a
vê-lo... Oh diabo!... Mau sitio para
estar agora!... Toma conta dele...
— Recomendou... - Eu vou avisar
os outros... Para não o alvejarem...
— E, levantando a voz, gritou:
— Leopoldo!... Aguenta aí... Não
faças nada... Isto passa já!...
— Pois sim... Estou mas é
lixado... — Murmurou o soldado
colando-se ao chão, para se proteger
o melhor possível pois para azar
seu, o terreno era quase nivelado.
Apenas um pequeno rebaixo do solo e
a vegetação o escondiam da vista do
Inimigo.
Estava mesmo na linha de fogo dos
dois contendores e enquanto ouvia o
silvar das balas sobre a sua cabeça
e via algumas lascas serem
arrancadas às árvores próximas,
olhou cobiçoso para a sua arma,
encostada ao tronco de uma delas a
menos de dois melros da sua mão
estendida.
As suas calças estavam enroladas ao
fundo das pernas e naquela posição,
já o tentara mas não conseguira
vesti-Ias.
Restava-lhe esperar e rezar para que
nenhuma das balas que passavam tão
perto lhe acertasse. No entanto,
embora fosse profundamente religioso
como todos os nativos da sua
transmontana região natal, não era
capaz de alinhavar nenhuma oração.
Ouvia o Jaime vociferando
impropérios e mimoseando os
adversários e os seus ascendentes
com injúrias que fariam corar
qualquer pessoa. Isso inspirava-lhe
alguma confiança... mas ao mesmo
tempo, lembrava-lhe que estava entre
dois fogos.
Sentia-se mal, tinha medo... raiva
e... uma vontade súbita de
chorar!... Encolheu-se mais na
pequena cova em que se aninhava...
Agoniado o estômago dava-lhe voltas,
cheio de gases e a água crescia-lhe
na boca... Engoliu em seco. Os gases
subiram-lhe à garganta, arrotou e a
saliva escorria-lhe pelos cantos da
boca...
Fechou os olhos e procurou
abstrair-se da situação...
Entretanto o comandante fez sinal ao
oficial do segundo GComb para
contornar o inimigo pela direita e
aproximar-se dele pelo seu flanco
esquerdo.
O 4.º GComb respondia ao fogo do IN
mantendo-o ocupado e o 1.º
assegurava a protecção dos flancos e
da retaguarda.
O estalido produzido pela chicotada
das balas que passavam sobre a
cabeça de Leopoldo, colocou-o
progressivamente sob uma tensão
emocional incontrolável.
Atordoado levantou-se subitamente e
num salto brusco agarrou a sua arma,
voltou-se para o inimigo de pé a
peito descoberto, com as calças em
baixo e o rabo ao léu, despejou o
carregador...
Quando o 2.° GComb completou o
envolvimento e chegou às posições
adversárias, avançando em linha com
a arma aperrada à altura da cintura,
disparando rajadas curtas e rápidas
o IN fugiu em debandada, levando com
ele apenas a arma que tinham na mão.
No chão ao longo do trilho, deixaram
todo o material que transportavam.
Era uma boa quantidade que devia
estar a ser transportada à cabeça
por carregadores. Era constituída
por:
— Uma mina A/C (anti-carro) MK V.
— Duas minas A/C com caixa de
madeira.
— Seis petardos de TNT com 1,250 kg
cada.
— Quatro minas A/P (anti-pessoal).
— Um cunhete com 1200 munições de 9
mm e uma catana espetada na terra,
ao lado do trilho. Ainda vibrava
quando a descobriram.
Olhando para todo aquele material um
soldado comentou:
— Com estas minas em nosso poder,
são menos três Berliets que vão para
o maneta!...
— E menos alguns manetas que vão
para o c_______... - Acrescentou
outro.
Entretanto Leopoldo alheio a tudo,
de pé no mesmo lugar onde apanhara o
maior susto da sua vida, cujas
emoções naquele momento contidas, o
iriam acompanhar o resto dos seus
anos, segurava as calças com as mãos
junto à cintura, sem se decidir a
abotoá-las.
Uma voz amiga observou com simpatia:
- Ó nosso!... Os gajos quando
viram o teu pistolão apontado para
eles, borraram-se todos e deram logo
o 'cavanço". É uma arma muito
eficaz....
Fim do 3.º Episódio
Índice:
1 - Náufragos em águas de
crocodilo
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7
2 - Os sapatos do Senhor
Comandante
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21
3 - O vigia Leopoldo
..................................................................................
37
4 - O monte de voluntários
.....................................................................
49
5 - Esquecido na Selva
............................................................................
59
6 - O dia da Raça
.......................................................................................
69
7 - Dois pesos e duas medidas
.............................................................
79