Trabalhos,
textos sobre operações militares ou livros


José
Inácio Madaleno
José Inácio Madaleno,
Furriel Milº Comando.
Serviu Portugal na
Província Ultramarina de Angola como 2.º comandante do
5.º Grupo de Combate da 14.ª Companhia de Comandos, no
período de 11 de Dezembro de 1967 a 3 de Abril de 1970.
"A Fazenda Mariana -
Angola 1968"

Nota
do Autor:
Este romance é de ficção. Como obra de ficção: as
personagens, os locais e demais descrições são fruto da
imaginação criadas por situações vividas pelo autor. Os
acontecimentos descritos neste romance nunca se deram,
as personagens intervenientes, os seus nomes e lugares
não existiram da forma como as descrevi. Situei a minha
história em Angola – ex-colónia portuguesa – porque vivi
lá. Esta circunstância permite-me assim evitar – com
conhecimento de causa – qualquer semelhança entre os
elementos descritos e a realidade. Quero no entanto e de
forma simbólica prestar homenagem a todos, que directa
ou indirectamente se identificam com Angola e o seu
povo.
O
meu conceito de povo abrange todos os angolanos: negros,
mestiços e brancos e, todos os portugueses: brancos,
mestiços e negros.
Queria ainda lembrar que Angola é uma mãe generosa.
Suficientemente grande e rica para albergar todos os
seus filhos sem preconceitos rácicos; religiosos;
étnicos; ou outros, de qualquer ordem. Quem a abjurar
sofrerá quem a dividir morrerá. Esta homenagem é ainda
extensiva a todos os países irmãos de expressão
portuguesa.
JOSÉ INÁCIO MADALENO
Lisboa, Dezembro de 1989.
Capítulo I
Acordei sobressaltado, sonhara com mulheres lindas e
aposentos dourados mas a realidade era bem
diferente. Deitado numa espécie de cama feita com paus e
ramos entrelaçados, totalmente envolto no mosquiteiro, e
o poncho,
como cobertura para me proteger do cacimbo da noite.
Apesar do desconforto dormira bem, no subconsciente
confiava em absoluto na minha equipa.
Quatro horas, a neblina começava a
dissipar‑se permitindo enxergar a orla da mata e os
arbustos mais próximos. Em Angola o sol nasce cedo, e
com ele a agitação frenética da sua fauna, produzindo os
sons característicos da mata africana.
O meu grupo de «Comandos» era constituído
por vinte e cinco homens, estacionados há vinte e um
dias no cimo de um morro, algures na serra dos Dembos. O
local, autêntica fortaleza de oitocentos metros de cota
era um obstáculo quase inacessível. Tínhamos sido
transportados de helicóptero, assim como todo o
equipamento. Dali saíam e regressavam, periodicamente e
de forma rotativa, equipas de cinco homens para as mais
diversas missões. A mata virgem envolvendo toda a zona
tornava as nossas vidas num verdadeiro inferno. Não
permitindo visualizar mais de um ou dois metros permitia
no entanto, a aproximação de qualquer inimigo sem ser
visto. A guarda era feita por uma equipa de cinco
homens, disposta em volta da pequena clareira, onde mal
havia espaço para aterrar um helicóptero. Contávamos no
entanto com alguns elementos a favor: a zona de mais
fácil acesso estava armadilhada; à noite o silêncio era
nossa sentinela; de dia nosso melhor aliado. Quando a
passarada se calava era indício de perigo.
Senti alguém aproximar‑se, pelo modo como
se deslocava só podia ser a sentinela, o Cabo Araújo. De
início, distinguia apenas a silhueta envolta em neblina.
À medida que se aproximava sobressaía a figura
característica do «Comando»: com o poncho enfiado na
cabeça; mosquiteiro em volta do pescoço; e na mão
direita, a espingarda G3, com dois carregadores
amarrados com adesivos. Colocou o joelho em terra e
abanou‑me, dizendo baixinho:
- Meu Furriel, meu Furriel, acorde!...
- Estou acordado, o que é que se passa...
já vêm aí os hélios?...
Estou farto desta merda... será que isto nunca mais
acaba?...
-
Calma homem!... O Capitão manda dizer para estar
preparado, porque nos vamos embora hoje, para Luanda!…
- O quê!... Será possível? Parece, que
estamos aqui há uma eternidade...
Ganhei novo ânimo e pedi‑lhe para
informar o resto do pessoal.
- Sem algazarras, ouviste? - OK., meu
Furriel.
Já no ar, a bordo do helicóptero, tinha
pela primeira vez uma noção correcta da clareira onde
permanecemos vinte e um dias. Depois de rodar duas
vezes em volta do morro – para dar protecção aos colegas
que estavam a embarcar – circulámos cada vez mais alto e
mais distante até que – em formação ordenada – os
helicópteros apontaram a direcção do nascer do sol.