INTRODUÇÃO:
Quando são decorridos praticamente 25
anos sobre o nosso regresso de Angola, surge a culminar
a realização anual de reuniões de confraternização do
Comando e Companhia de Comando e Serviços do Batalhão de
Artilharia 3859 - este conjunto de documentos onde, para
lá das recordações pessoais do seu autor, se reuniu o
efectivo da Unidade que, em Nov. 71, ao início de uma
madrugada bem fria (em todos os aspectos), deixou o
Campo Militar de Santa Margarida ao encontro do navio
«Vera Cruz»›, velha glória da Marinha Mercantedas
décadas de 50 e 60, rumo a terras de Angola.
Estou crente de que serão muito raras as
Unidades que, no período de 1961 a 1974 terão tal
compilação efectuada e, ao percorrer os nomes e
especialidades que aqui se encontram, avivam-se na
memória as caras e episódios passados, a camaradagem e o
espírito de sacrifício que foram timbre de todos os que,
naquela região do norte de Angola, conviveram 27 duros e
inesquecíveis meses das suas vidas.
Esta foi, com certeza, a ideia do autor
deste meticuloso trabalho, que em tarefa longa de vários
anos, deslocações a Unidades, consulta fastidiosa de
documentos e contactos permanentemente avivados com os
seus camaradas, conseguiu levar a cabo a tarefa a que se
dedicou com tanto empenho.
Detenhamo-nos, com saudade, sobre os
nomes dos que já nos deixaram, lembremos os que, por
motivos vários, não tiveram a possibilidade de, pelo
menos uma vez por outra, se reunirem a nós, na
confraternização anual.
Não esqueçamos também, os laços de
amizade que nos uniram e unirão, enquanto a nossa
presença neste mundo for realidade.
Por fim, e para o autor desta obra, vão
os agradecimentos de todos nós pelo excelente trabalho
realizado, pelo esforço desenvolvido e pela determinação
em perpetuar uma fase tão importante das nossas vidas.
Bem- haja, pois, o Joaquim Cortes.
Obrigado.
Luís Gomes Marques
Cor. Artilharia
NOTA DO AUTOR:
Já o B.ART. 3859 caminhava para o
vigésimo sexto mês de comissão em terras de Angola,
(mais precisamente nas povoações de: Curimba, Luvaca,
Buela e Calambata), quando pensei em recolher numa
colectânea os nomes e moradas de todos os meus camaradas
militares da CCS, desde o Comandante às praças que,
assim como eu, cumpriam o seu dever militar. Uns por
obrigação, outros por dever profissional.
Pecou o meu pensamento por ser tardio,
pois os camaradas militares do Pelotão de Morteiros
3062, já tinham sido rendidos e já não me foi possível
recolher as suas assinaturas e moradas. Foi pena, pois
eles eram parte integrante do B.ART. 3859 e,
nomeadamente, da CCS.
A minha ideia teve a melhor aceitação,
por parte de todos os camaradas de armas, incluindo os
de escalões superiores. Cada um escreveu a mensagem que,
no momento, lhe ocorreu:
- Um abraço ao Cortes - Desejo-te as
maiores felicidades - Felicidades na vida futura -
Roubaste-me sempre cigano - Não me fazes mais ciganadas
- O cigano do Cortes não me enfia mais barretes -
etc., etc., e uma observação verbal, que não posso
deixar de registar:
- Isto não é para depois me irem
matar, pois não Cortes?» A expressão citada, foi
proferida por: um grande homem, grande militar, grande
amigo dos soldados, e sobretudo, um grande condutor de
homens, que todos, com certeza, guardam nas suas
memórias: José Sanches!
Alguns dos escritos com muita mágoa minha
já não podem ser relidos por quem os escreveu, por já
não pertencerem infelizmente ao reino dos vivos!. Estes,
para todo o sempre, e enquanto eu viver, ficarão na
minha memória.
Já o citei, a minha ideia, não foi
perfeita na plenitude. Não recolhi nome e moradas dos
camaradas do Pelotão de Morteiros 3062, acontecendo o
mesmo com as CART.: 3447, 3448 e 3449. O perfeito ainda
não nasceu, e não sei quando será o seu parto.
Este livro que escrevo: - evocativo e
comemorativo dos vinte e cinco anos do regresso do B.ART.
3859 e do Pelotão de Morteiros 3062, é dedicado a todos
os meus ex-camaradas militares, que comigo conviveram e
repartiram, alegrias e tristezas, durante o nosso tempo
de militares em Angola. Ainda, a título póstumo, aos que
deixaram o nosso convívio e já vivem na Eternidade deixo
este sentimento: TODOS FICÁMOS MAIS POBRES....l
Julgo não haver dúvidas por parte de
qualquer camarada militar a amizade que tenho por todos,
sem excepção, e que criei durante os vinte e sete meses
de Angola. Como esta amizade é: pura, honesta e sincera,
permitam-me que vos diga a todos:
- Até amanhã, camaradas...!!!
J. Cortes
OBRA

No presente ano (1999), contam-se vinte e
cinco anos desde que regressámos às terras que nos viram
partir. Durante o mesmo período, foram levados a cabo
encontros anuais de confraternização, com predominância
para os ex-militares pertencentes à CCS do nosso
Batalhão.
Sei, na data que escrevo, que o Pelotão
de Morteiros 3062, levou a efeito a sua 1ª
confraternização em I997, e já tem a 2ª agendada para
Fevereiro de 1998, em Águeda. Também sei, que a C. Art.
3447 já levou a efeito, sob a iniciativa de José Maria
Tavares Guiomar, quatro confraternizações, mas não
conheço os anos da sua realização. A C.Art. 3448, também
sob os auspícios dos ex-furriéis: - Vítor Moreira ,
António Pereira e soldado Manuel Costa Reis, já reuniram
em oito confraternizações, acontecendo a primeira ao 15°
ano de regresso a Portugal . Desconheço se a C.Art. 3449
alguma vez se reuniu para levar a efeito algum convívio
desde que regressou de Angola.
A obra que escrevo, com base na CCS, é
extensiva a todo o Batalhão de Artilharia 3859 e ao
Pelotão de Morteiros 3062. Todos temos o mesmo tempo de
regresso: 25 anos!
Como um quarto de século é demasiado
tempo, achei por bem esta data não ficar olvidada, quer
por mim quer por todos aqueles que ainda hoje sintam o
espírito de camaradagem dos longos vinte e sete meses de
Angola. Esta foi a razão forte, pela qual me abalancei a
escrever um livro, onde constem as confraternizações já
realizadas, assim como e quando, nasceu esta grande
camaradagem e amizade, raramente existente hodiernamente
no seio das Forças Armadas Portuguesas.
Tenho consciência de que a obra que
escrevo é, sem dúvida, modesta e à dimensão de quem a
escreve. No entanto, julgo de
grande interesse para todos aqueles que integraram o
B.ART. 3859 e o Pelotão de Morteiros 3062. Tenho a
certeza de que, nomeadamente os camaradas militares da
CCS, ao lerem o que se passou há 25 anos, se recordarão
de momentos, hoje porventura varridos das suas memórias.
Os camaradas da CCS, que nunca estiveram
presentes, até hoje, em nenhuma confraternização podem
ficar inteirados, através da narrativa que se segue, da
forma como as mesmas decorreram, o mesmo acontecendo com
os camaradas do resto do Batalhão e Pel.Mort. 3062.
Terá ainda a virtude, (segundo me é dado
saber), de ser a primeira obra do género a versar
convívios de antigos combatentes da guerra do Ultramar,
tornando-se assim, obra inédita.
Como tudo na vida, há princípio, meio e
fim!. Assim, achei que devia dar a conhecer, a quem
tiver a paciência de ler o que escrevo, como nasceu esta
profunda amizade entre todos os que fizeram parte do
B.ART. 3859 e o Pelotão de Morteiros 3062.
Por
este motivo, não posso deixar de ir ao princípio de
tudo: B. ART. 3859 - Évora. Esta amizade começou
cimentada durante a viagem a bordo do Vera Cruz e
reforçada nos locais onde sempre estivemos: Cuimba,
Luvaca, Buela e Calambata. A ida aos primórdios onde se
iniciou a grande amizade evita a existência de um fosso,
mas implica inserir na obra, todo o percurso feito desde
Évora até Cuimba / Angola. No que concerne ao Pelotão de
Morteiros, eu penso que a sua camaradagem teve início na
unidade mobilizadora, R.I. 15 (em Tomar) e cimentada em
Cuimba, como a CCS / B. ART. 3859. A sua viagem (Lisboa
- Luanda), foi igual à dos restantes camaradas que
viajaram a bordo do Vera Cruz.
Não vou empregar frases filosóficas! Vou,
isso sim, escrever à semelhança da minha simplicidade,
transferindo - a para todos os meus antigos camaradas
militares. Todos sabemos que a maioria, por dificuldades
de vária ordem se viram inibidos de tirar cursos
superiores e o currículo obrigatório à época não ia para
além de instrução primária.
Tentarei dar a conhecer a todos, com a
máxima fidelidade, como vi e registei na minha memória
todo o percurso, desde Évora a Angola. Como se iniciaram
as confraternizações da CCS / B.ART. 3859, e o que de
mais importante se passou em cada uma. Passagens dignas
de registo, que aconteceram em várias ocasiões, sendo a
grande parte do que narro, arquivo de memória e, por
isso, passível de algum
esquecimento
porque já lá vão vinte e cinco anos.
No que diz respeito às mensagens
recebidas ou outros escritos, é feita a sua transcrição,
fazendo apenas a correcção ortográfica, mantendo o
pensamento transmitido por todo e qualquer camarada
militar, mesmo as de difícil interpretação e
compreensão.
Documentos, que eu entenda, que são
elucidativos, sempre que possível, serão reproduzidos,
tanto para confirmação como elucidação, de todos os
camaradas militares no texto da respectiva
confraternização. Os restantes documentos, como cartas,
mensagens, etc., são transcritos no ano respectivo, com
a reprodução dos originais na rubrica: «Documentos e
Correspondência», local onde também serão inseridas as
reportagens fotográficas.
Empregarei algumas das alcunhas pelos
quais eram mais conhecidos alguns dos camaradas
militares, apenas uma só vez já que os mesmos têm nome
próprio. Usarei sempre o apelido, «nome de guerra», como
eram conhecidos e chamados no Exército todos os
camaradas. Aqueles que a terminologia do nome seja
igual, poderei destrinçar: «nome - apelido», «posto -
nome» «apelido - especialidade» «apelido – terra», ou
«como vulgarmente eram tratados».
No que se refere à listagem da composição
do B.ART. 3859, a mesma é escrita por ordem alfabética
de: apelidos, independentemente do posto militar de cada
um. Na listagem de composição constam, além do apelido,
o nome, o número mecanográfico, o posto e a
especialidade, sempre que me foi possível apurar estes
dados. Há ainda uma coluna: «Obs:», onde estão
registadas as alterações havidas durante a comissão de
serviço, critério também usado, para todas as companhias
do Batalhão e Pelotão de Morteiros 3062.
A listagem de composição do B.ART. 3859 é
iniciada com a CCS, seguindo, depois, a ordem
cronológica numérica das companhias operacionais. Por
último o Pelotão de Morteiros 3062, que não fazendo
directamente parte do Batalhão, ficou adido ao mesmo,
durante os vinte e sete meses de comissão, sendo de
elementar justiça, que todos os seus homens, constem,
com os do Batalhão.
Quanto ao mapa de presenças em
confraternizações, só a CCS, apresenta o nome de todos
os camaradas militares, que fizeram
parte
da mesma, mesmo que nunca tenham comparecido em qualquer
confraternização.
No entanto e relativamente às companhias
operacionais e Pelotão de Morteiros, só aparecerá o nome
dos camaradas militares, que alguma vez estiveram
presentes e o ano que se verificou a sua presença. As
presenças de cada um: CCS, CART.: 3447, 3448, 3449 e Pel.
Mort., serão assinaladas com um asterisco (*) no ano
respectivo.
Sempre que apareça o substantivo
Camarada, sem o acompanhamento do adjectivo militar,
entenda-se como linguagem usada entre homens da mesma
farda, cumprindo o seu serviço militar.
Mesmo empregando todo o cuidado, sei que
haverá omissões, muito concretamente, no que diz
respeito a mensagens enviadas por camaradas para as
organizações. Aos visados, fica a informação: - as
mesmas, não me chegaram as mãos.
Muito dificilmente quem escreve consegue
agradar a gregos e a troianos, mas se conseguir com esta
modesta obra, agradar pelo menos aos meus antigos
camaradas de armas do B.ART. 3859 e Pelotão de Morteiros
3062, já me dou por satisfeito. Foi para eles e por eles
que a escrevi e é editada!!.
O Autor